Comandante de unidade brasileira na Ucrânia autorizou tortura que matou pernambucano, diz delator
Braço direito de Leanderson Paulino desertou, fugiu da unidade e agora está sob proteção de autoridades da União Europeia

Sérgio Utsch, enviado especial à Ucrânia
Uma nova testemunha que está sob proteção da polícia em um país da União Europeia revelou ao SBT News que o chefe de uma unidade brasileira na Ucrânia autorizou a sessão de tortura que provocou a morte do pernambucano Bruno Gabriel Leal da Silva e que liderava um esquema que inclui retenção de passaportes, apropriação de salários e até ocultação de corpos.
Segundo ele, corpos de brasileiros eram deliberadamente abandonados nos campos de batalha para que o comando continuasse recebendo os salários. Esta acusação é confirmada por outras testemunhas ouvidas pelo SBT News. Agora, porém, a acusação parte de um dos homens mais influentes na Unidade Advanced, considerado um dos braços direitos e homem de confiança de Leanderson Paulino.
Daniel Reis, de 29 anos, tornou-se um delator, já prestou depoimento a autoridades policiais e tornou-se uma das testemunhas mais importantes na investigação. Ele afirma que o comando da unidade deu sinal verde para o espancamento de Bruno.

O pernambucano, de 24 anos, morreu em 28 de dezembro do ano passado, 3 meses depois de chegar à Ucrânia. Reis confirma a versão das testemunhas ouvidas pelo SBT News e afirma que outros brasileiros provocaram a morte de Bruno com a autorização do comandante Leanderson Paulino.
SBT News: "O Paulino sabia de absolutamente tudo?
Daniel: Sabia. Sabia que o Bruno estava sendo torturado.
SBT News: Ele autorizou que matassem o Bruno?
Daniel: Matar não. Mas autorizou o remasso.
SBT News: Então autorizou a tortura?
Daniel: Sim. Pode fazer, mas matar não. Foi um crime doloso sem intenção direta de matar".
Remasso é um termo usado pelos brasileiros da unidade que significa uma punição coletiva, em que um grupo de 3 ou mais pessoas espanca uma única vítima como forma de punição. A prática é mostrada em um dos vídeos publicados na reportagem exibida no SBT Brasil, na última quarta-feira. A reportagem sobre o caso Bruno pode ser lida AQUI.
Daniel Reis afirmou que fugiu de um treinamento que fazia pela Unidade, na Espanha. Ele está agora sob proteção policial em um país da União Europeia. A localização dele não será revelada por questões de segurança.
"Inclusive, fizeram retenção do meu passaporte, dos meus documentos oficiais. Estavam com eles. Se alguém for lá no curso onde está o pessoal, vai achar meu passaporte. Está lá com eles. Pegaram meu passaporte justamente para eu não fugir. Em uma conversa, ele falou que quem tentasse fugir ele ia matar se conseguisse pegar essa pessoa.
SBT News: Quem falou isso?
Daniel: Leandro São Paulino".
Porque ele resolveu falar
Daniel Reis era um dos homens de confiança de Leanderson Paulino. Foi recrutado por ele, no ano passado, quando era Guarda Municipal em Milagres, no interior da Bahia. Ele acusa o comandante da unidade Advanced de tentar culpá-lo pela sessão de tortura, que provocou a morte de Bruno Leal.
"Todo tipo de ordem era passada primeiro para o comandante Leanderson Paulino. Nada era feito sem autorização (dele)".
Uma troca de mensagens já publicada por ele em suas redes sociais mostra uma conversa com Paulino.


Reis tinha o cargo de soldado, mas foi informalmente promovido a sargento por Paulino. Ele diz que estava ao lado do comandante, na região de Zaporíjia, no dia da morte de Bruno e que foi o primeiro a receber uma mensagem de um dos brasileiros envolvidos que fizeram parte do "remasso".
"Então, tudo que ele me falava, eu tinha que passar para o comando. Eu não posso chegar e falar: faça. Então, nessa conversa com ele, tem lá eu dizendo: 'Vou passar para o comando. É melhor verificar'. Em nenhum momento eu falei: 'Faça, vá, faça isso' porque tudo passa por ele. Não existe sargento mandar no comandante e não existe o recruta mandar no sargento".
SBT News: Já aconteceu algum tipo de punição, algum tipo de tortura que não tenha sido autorizada pelo Paulino, ou tudo era autorizado por ele?
Daniel: Não. Não. Tudo passava por ele.
Dias antes da morte de Bruno, Reis diz ter tido uma conversa com ele.
"Ele queria ir embora a todo custo. Inclusive falou comigo: 'Eu mandei mensagem para o consulado brasileiro. Falei que minha vida estava ameaçada'. Eu perguntei o porquê. Ele disse: 'Não sei se é coisa da minha cabeça, mas estão prendendo meu passaporte, então tenho medo'".
Reis presenciou e fazia parte do esquema
O nome do Sargento Reis aparece em vários trechos das entrevistas realizadas pelo SBT News nas últimas semanas, inclusive na prática de torturas.
"Eu vou falar aqui, porque eu não tenho o que esconder. Mas tinham algumas situações que você tinha que fazer obrigatoriamente, porque se você não fizesse, ia acontecer com você".
SBT News: Você se arrepende de ter participado dessas sessões de tortura? Você pensa nisso?
Daniel: Sim. Na verdade, eu não participei de tortura em si, de arrancar unha, de fazer nada disso. Mas teve alguns tipos de punições, que no caso é bater na pessoa, né, eu acredito que nenhum ser humano merece isso. Já aconteceu comigo e eu não gostei. Mas éramos obrigados. Se não fizesse, fariam comigo. Eu me sentia uma marionete. Então a gente também era vítima ali.
Prática generalizada de tortura
Durante quase duas horas de entrevista, Daniel Reis disse ter se frustrado com um esquema que, segundo ele, não preparava os voluntários brasileiros para a linha de frente. As sessões de tortura aconteciam tanto na base militar, quanto em campos de treinamento.
"Eles não estavam tendo mais treinamento. Estavam tendo mais remasso (tortura), mais atos ilícitos do que, vamos dizer, treinamento básico que deveriam receber". Segundo Daniel, o comandante Leanderson Paulino não apenas participava, como também torturava pessoalmente as vítimas.
"Pisão no pescoço, enforcamento, tapa na cara, murro na cara, chute na costela, que já aconteceu comigo".
Ele afirma que quando havia ucranianos por perto, eles impediam até punições menos severas, como flexões de braço, típicas no serviço militar.
"Teve uma vez que chegou um rapaz bêbado. Ele ia ser punido, mas não da forma de tortura. Ele ia pagar flexão, passar pela pista de rastejo — coisa militar, que é normal. Eu estava lá na hora, inclusive era um colombiano. Quando ia acontecer isso, chegaram dois ucranianos e não permitiram. Disseram: 'Não faça'. Então soltamos ele. Não aconteceu a punição física".
Roubo de salários
A testemunha que já relatou os casos de tortura para autoridades da União Europeia revela ainda que o brasileiro Leanderson Paulino obrigava seus recrutas a doar 10% do salário para a Unidade. A prática é ilegal e confirmada por outras testemunhas. A cobrança era feita abertamente no grupo de Whatsapp da Unidade. O SBT News teve acesso a uma das mensagens, que pressionava os recrutas a fazerem o pagamento.
"Esse valor não ia para a conta dele (Paulino) diretamente. Ia para outra conta, de outro componente que fazia parte da área financeira da Advance Company. Essa informação é sigilosa, porque envolve nomes. Mas nessa conta tem mais de um milhão de grivinas acumuladas.
SBT News: O que você está dizendo é que o Paulino desviava 10% do salário dos soldados?
Daniel: Sim. Com certeza. Eu recebia 45 mil Grivinas (moeda ucraniana). O valor vinha completo, mas eu era obrigado a transferir 4.500 grivinas todo mês. Todos os militares tinham que pagar".
Menos corpos, mais dinheiro
Uma das acusações mais graves feitas durante a entrevista de duas horas com Daniel Reis é a de apropriação do dinheiro dos brasileiros que morreram em combate, o que confirma a versão dada por outros brasileiros, cuja identidade está sendo protegida pelo SBT News.
"Não recuperavam o corpo. E se não tem corpo, o militar fica como desaparecido. Se está desaparecido, continua recebendo os 45 mil todo mês na conta. E se eu sou comandante e tenho o cartão dele, posso utilizar o cartão. Posso usar o dinheiro."
SBT News: O que você está dizendo é que corpos não eram recuperados deliberadamente para manter o recebimento do salário?
Daniel: Exatamente. Teve um componente (soldado) que foi ameaçado porque trouxe o corpo de um membro da Advance. Foi o primeiro corpo recuperado, o do Zeus. Quem trouxe o corpo dele foi ameaçado de prisão porque, se trouxer o corpo, tem que pagar indenização. Se não trouxer, não paga. Se não tem corpo, está desaparecido e continua tendo valores. Entende a situação? É esse tipo de máfia.
Outra testemunha ouvida pelo SBT News relata ter encontrado o corpo de um brasileiro "congelado" no campo de batalha: "Os corpos dos brasileiros não eram recolhidos porque eles davam um jeitinho de sacar o dinheiro. Uma vez passei por um brasileiro que um colega me mostrou. Eu disse: 'vamos carregar ele pelo amor de Deus' e ele disse 'deixa aí se não eles me matam, já pegaram o seguro dele".









