Brasileiros são acusados de tortura e assassinato na Ucrânia
Testemunhas confirmaram acusações ao SBT News e Ucrânia anuncia investigação

Sérgio Utsch, enviado especial à Ucrânia
Brasileiros que se juntaram em um grupo para ir à Ucrânia lutar na guerra estão sendo acusados de assassinato e sendo investigados por terem implantado um sistema de tortura no local. Eles comandam uma unidade chamada Advanced, vinculada ao Exército ucraniano.
No dia 28 de dezembro do ano passado, Bruno Gabriel Leal da Silva, pernambucano de 28 anos, foi encontrado morto nesta unidade. Naquele momento, o grupo estava próximo de Kiev, capital do país. Autoridades do governo ucraniano disseram ao SBT News por meio de uma nota que a morte está sendo apurada como “um potencial crime.”
Ainda segundo o comunicado enviado à reportagem, a Advanced está sob investigação por denúncias de torturas e abusos físicos de combatentes.

Antes de ser encontrado morto, Bruno procurou o serviço consular da Embaixada do Brasil em Kiev, denunciando maus-tratos e a retenção do seu passaporte. Ele chegou a receber orientações do que fazer para deixar a Ucrânia imediatamente, mas não apareceu mais. O cônsul do Brasil na Ucrânia chegou também a se reunir com representantes da ouvidoria militar do país.
O SBT News ouviu, ao longo dos últimos 50 dias, oito pessoas que testemunharam o dia a dia da unidade comandada por brasileiros. Elas falaram com a reportagem sob a condição de anonimato. Parte delas estava presente na noite da morte de Bruno.
Todos os relatos sobre a Advanced tratam somente do comportamento de brasileiros. Nenhuma testemunha cita envolvimento de ucranianos nos episódios.
"A gente podia ouvir as coisas. Podia ouvir os gritos, assim. Gritos da pessoa. Gritos, gemidos. Parecia que a pessoa estava sendo torturada. Só que não podia fazer nada, nem falar nada", conta uma testemunha.
De acordo com os relatos colhidos pela reportagem, Bruno teria morrido após uma sessão de tortura, parte de uma punição por ter voltado para a base alcoolizado.
Há um grande temor entre os brasileiros sobre possíveis retaliações de outros brasileiros que comandam a unidade.
"Deixa eu deixar bem claro: se vazar meu nome, qualquer coisa que acontecer é risco para a minha vida e para a minha família no Brasil. Se isso vazar, é risco. Eu já vi relatos aqui. Eu vi com meus próprios olhos, pessoas que tiveram problemas com esses caras, e eles pegaram, sequestraram e torturaram. Inclusive a família no Brasil", relatou um deles, antes da entrevista.
De acordo com os relatos de testemunhas, a sessão de tortura aconteceu em um lugar da base militar onde, segundo os brasileiros, não há câmeras e "porque era longe dos ucranianos". O corpo de Bruno foi encontrado no chão, coberto de neve, no dia seguinte.
"Foi deixado lá, que nem cachorro", conta uma quarta testemunha. Outro militar brasileiro descreve o que, segundo ele, são as marcas deixadas pela sessão de tortura. "Tudo deles é amarrar no punho. Eles deixam assim amarrado. Tinha porrada na cabeça, tinha hematoma, um bocado de coisa".
"A costela dele estava funda para dentro. Parecia que ele tinha sido amarrado. Ele estava bem machucado", afirma uma quinta testemunha.
Quando a polícia chegou para recolher o corpo e colher as primeiras informações, um dos militares relata ter ouvido uma tentativa de despistar o que tinha acontecido. "Falaram: 'ontem ele tava bebendo, tomando remédio, acabou tendo um infarto', sendo que todo mundo viu, todo mundo que tava lá na base, tava a galera todinha".
Questionado pelo SBT News, o Serviço de Inteligência do Ministério da Defesa da Ucrânia, responsável pela unidade onde estavam os brasileiros, confirmou, em nota, que "depois da descoberta do corpo do cidadão da República Federativa do Brasil, Bruno Gabriel Leal da Silva, no dia 29 de dezembro de 2025, na cidade de Kyiv, no endereço de uma base militar temporária, um procedimento criminal foi instaurado".
Tortura de Bruno não foi exceção
A prática de tortura dentro do grupo que se intitula "Advanced" é amplamente conhecida entre os brasileiros que atuam na Ucrânia. Em condição de anonimato, vários narraram cenas de violência, maus-tratos, atraso no pagamento de salários e bonificações, retenção de passaportes e tortura. Algumas sessões, dizem as testemunhas, aconteceram no mesmo local para onde Bruno foi levado, conhecido como "contêiner".
"Depois que estive preso, me tiraram do quarto onde eu estava e me levaram para um contêiner, onde me espancaram. Quebraram quatro costelas minhas, levei muitos golpes nas costas, recebi chutes. Depois me amarraram pelos pés e pelas mãos, me batiam nas pernas, me batiam nas costelas", relata um homem, que diz ter sido uma das vítimas.
Alguns vídeos com cenas de espancamento foram gravados pelos próprios autores e eram exibidos como exemplo para quem pensasse em desertar ou denunciar, relatam as testemunhas. Há várias imagens disponíveis dessa mesma unidade, cujo comandante conhecido como Leanderson Paulino, descreveu cenas que foram compartilhadas em grupos de brasileiros como "treinamento militar".
As testemunhas ouvidas pelo SBT News dizem que Paulino não estava na base no dia da morte de Bruno, mas que ele teria espancado vários deles pessoalmente. "Me espancou de uma forma que fiquei parecendo um monstro. Murro, cotovelada, colocou pistola na minha cara". Em outro caso filmado, o mesmo Paulino acompanha o momento em que um brasileiro tem os pés e as mãos amarrados com fitas adesivas, recebe socos no rosto e ameaças de morte.
"Por favor, eu quero ir embora. Por favor, senhor. Por favor, Jesus. Eu não estou aguentando mais", diz o brasileiro, que está sendo imobilizado por outros 4 homens. Na mesma cena, Paulino aparece com uma metralhadora e faz um disparo no chão, poucos centímetros distante da cabeça do brasileiro que implorava pra sair dali.
Pelo menos outros 5 testemunhas ouvidas pelo SBT News relatam casos semelhantes de tortura. "Fiquei cinco dias amarrado de cueca na neve. E de vez em quando vinham com um balde cheio de água pra jogar em mim".
As sessões de tortura, dizem 8 testemunhas ouvidas pelo SBT News e também pelo Kyiv Independent, aconteciam em treinamentos, em rituais de iniciação ou como punição por algum erro ou crime.
A unidade também funcionava como uma espécie de Tribunal, em que acusados de algum crime eram punidos sem investigação oficial, com penas decididas pelos próprios comandantes. Um dos militares, acusado de pedofilia, foi asfixiado, enforcado, empalado, colocado em posição de x com pés e mãos amarradas, levou choques elétricos e foi chicoteado com brasa.
Os detalhes foram confirmados por pelo menos 4 testemunhas. Uma delas também foi torturada depois e alega ter tido todo o seu dinheiro tomado pelos brasileiros.
"Me obrigaram a entregar todo o dinheiro que eu tinha nas minhas contas e, além disso, roubaram o dinheiro que eu tinha em espécie guardado na carteira".
Nenhuma das testemunhas citou envolvimento direto de ucranianos. Todas dizem que apenas brasileiros estavam por trás da decisão, das ordens e da execução da tortura.
A Ouvidoria Militar da Ucrânia também abriu uma "revisão das atividades da unidade". Em resposta ao SBT News, o departamento que fiscaliza as Forças Armadas do país confirmou que tem ciência sobre as denúncias envolvendo a Unidade Advanced e que "há evidências de que a morte de Bruno Gabriel Leal da Silva seja uma potencial ofensa criminal".
O escritório é chefiado por Olha Reshetylova e é ligado ao gabinete da presidência da Ucrânia. "Enfatizamos que a Ombudsman presta uma atenção particular à proteção dos direitos dos combatentes estrangeiros e que se apresentaram para a defesa de nosso país".
Governo brasileiro sabe dos casos de tortura
Quatro dias antes de morrer, Bruno Gabriel Leal da Silva enviou um e-mail para o serviço consular da Embaixada do Brasil em Kiev, denunciando maus-tratos e a retenção do seu passaporte.
Diplomatas brasileiros informaram que ele foi orientado, no mesmo dia, a procurar a Embaixada para a emissão de um novo passaporte ou de uma Autorização de Viagem, o que o permitiria deixar o país imediatamente e voltar ao Brasil. Mas Bruno nunca apareceu.
Além de Bruno, um número cada vez maior de brasileiros tem procurado a Embaixada em Kiev para fazer denúncias de maus-tratos e pedindo ajuda para voltar ao Brasil. O Itamaraty não faz repatriação de brasileiros que lutam em exércitos estrangeiros, mas garante que facilita a documentação para voltarem ao Brasil.
"Todos os cidadãos brasileiros, não importa qual o motivo de sua presença na Ucrânia, recebem o devido tratamento consular, com apoio para documentação, comunicação com familiares e a assistência possível em situações de vulnerabilidade".
No mês passado, o Cônsul do Brasil na Ucrânia, Kaiser Araujo, reuniu-se com representantes da Ouvidoria Militar do país. A reunião aconteceu depois que a própria Ouvidoria do Itamaraty recebeu denúncias semelhantes.
Esse conjunto de fatores contribuiu para o aumento da segurança da Embaixada em Kiev, agora com dois homens da Polícia Nacional e também para a nota emitida, na semana passada, pelo Itamaraty, reforçando a orientação para que brasileiros não se alistem em exércitos estrangeiros.
A nota diz que "os brasileiros alistados em forças estrangeiras poderão ainda estar sujeitos a persecução penal, não apenas em cortes internacionais, mas também no Brasil, com base no art. 7º do Código Penal, que prevê estarem sujeitos à lei brasileira os ilícitos cometidos por cidadão brasileiro – ainda que em território estrangeiro – que, por tratado ou convenção internacional, o Brasil se obrigou a prevenir ou impedir".
É um recado principalmente para aqueles que podem estar praticando tortura e outros tipos de crimes de guerra. Além de poderem ser processados na Ucrânia, estas pessoas poderão também ter que enfrentar a justiça brasileira. Em relação às denúncias, a orientação da diplomacia é para que as vítimas procurem as autoridades ucranianas.
O Embaixador do Brasil na Ucrânia, Rafael de Mello Vidal, afirmou que "a embaixada não tem competência legal para apurar ou investigar a veracidade ou não de denúncias individuais". O aumento do número de denúncias, porém, fez com que o Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia também fosse avisado pelos diplomatas brasileiros.
Além de brasileiros com problemas no país, a Embaixada também lida com o aumento de pedidos de informação e ajuda de famílias daqueles que morrem ou desaparecem na Ucrânia, mas alerta que a busca por corpos ou restos mortais de soldados brasileiros "está fora do escopo da assistência consular, cabendo ao país beligerante com o qual o brasileiro assinou voluntariamente contrato coordenar essas atividades".
Aqueles que têm passaporte retido ou sentem-se ameaçados podem procurar a Embaixada para a confecção de um novo documento ou até mesmo uma Autorização de Retorno pra que possam sair do país imediatamente. Este documento é concedido a qualquer cidadão brasileiro, independentemente da sua situação no país, mas não o livra de prestar contas com a justiça do Brasil e nem mesmo com a justiça ucraniana.








