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PF inclui chefe de batalhão na Ucrânia em lista de interesse após morte de brasileiro

Leanderson Paulino, comandante da unidade acusada em casos de tortura denunciados pelo SBT News, pode ser chamado a prestar esclarecimentos

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Sérgio Utsch, enviado especial à Ucrânia
21/02/2026, 13:30 • Atualizado em 21/02/2026, 13:30
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A Polícia Federal incluiu o brasileiro Leanderson Paulino, chefe do batalhão Advanced, unidade alvo de diversas denúncias de tortura e de, pelo menos, um assassinato na guerra da Ucrânia, na lista de interesse do Brasil. O SBT News entrou em contato com Leanderson, que não respondeu à reportagem.

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No dia 28 de dezembro do ano passado, Bruno Gabriel Leal da Silva, pernambucano de 28 anos, foi encontrado morto nesta unidade. O caso foi denunciado pelo SBT News. Cerca de quatro dias antes, ele procurou o serviço consular da Embaixada do Brasil em Kiev, denunciando maus-tratos e a retenção do seu passaporte. Bruno chegou a receber orientações sobre o que fazer para deixar a Ucrânia imediatamente, mas não apareceu mais.

Com a inclusão na lista de interesse da Polícia Federal, Leanderson agora pode ser chamado para prestar esclarecimentos ao chegar ao Brasil, por exemplo, sobre as denúncias de tortura na unidade que ele comanda na Ucrânia.

A Polícia Federal tem adidos ao redor do mundo, que também terão essa informação sobre o comandante do batalhão, que é brasileiro e cujas vítimas também são brasileiras, segundo várias testemunhas ouvidas pela reportagem do SBT News e do jornal ucraniano Kiev Independent. Essas informações eventualmente também podem chegar à Interpol, a polícia internacional, o que poderia ampliar o alcance do caso.

Bruno Gabriel Leal da Silva morreu na noite do dia 28 de dezembro do ano passado. Ele teria sido torturado por outros brasileiros membros do Batalhão Advanced | Reprodução/SBT
Bruno Gabriel Leal da Silva morreu na noite do dia 28 de dezembro do ano passado. Ele teria sido torturado por outros brasileiros membros do Batalhão Advanced | Reprodução/SBT

O SBT News ouviu, ao longo dos últimos 50 dias, oito pessoas que testemunharam o dia a dia da unidade comandada por brasileiros. Elas falaram sob condição de anonimato. Parte delas estava presente na noite da morte de Bruno.

Todos os relatos sobre a Advanced tratam apenas do comportamento de brasileiros. Nenhuma testemunha cita envolvimento de ucranianos nos episódios.

“A gente podia ouvir as coisas. Podia ouvir os gritos. Gritos da pessoa. Gritos, gemidos. Parecia que a pessoa estava sendo torturada. Só que não podia fazer nada, nem falar nada”, conta uma testemunha.

De acordo com os relatos colhidos pela reportagem, Bruno teria morrido após uma sessão de tortura, como parte de uma punição por ter voltado para a base alcoolizado.

A Ouvidoria Militar da Ucrânia também abriu uma “revisão das atividades da unidade”. Em resposta ao SBT News, o departamento que fiscaliza as Forças Armadas do país confirmou que tem ciência das denúncias envolvendo a Unidade Advanced e que “há evidências de que a morte de Bruno Gabriel Leal da Silva seja uma potencial ofensa criminal”.

O escritório é chefiado por Olha Reshetylova e é ligado ao gabinete da presidência da Ucrânia. “Enfatizamos que a Ombudsman presta uma atenção particular à proteção dos direitos dos combatentes estrangeiros que se apresentaram para a defesa de nosso país.”

Governo brasileiro sabe dos casos de tortura

Quatro dias antes de morrer, Bruno Gabriel Leal da Silva enviou um e-mail ao serviço consular da Embaixada do Brasil em Kiev, denunciando maus-tratos e a retenção do seu passaporte.

Diplomatas brasileiros informaram que ele foi orientado, no mesmo dia, a procurar a Embaixada para a emissão de um novo passaporte ou de uma Autorização de Viagem, o que permitiria que deixasse o país imediatamente e voltasse ao Brasil. Mas Bruno nunca apareceu.

Bruno Gabriel Leal da Silva e outros brasileiros da unidade chamada Advanced | Reprodução/SBT
Bruno Gabriel Leal da Silva e outros brasileiros da unidade chamada Advanced | Reprodução/SBT

Além de Bruno, um número cada vez maior de brasileiros tem procurado a Embaixada em Kiev para fazer denúncias de maus-tratos e pedir ajuda para voltar ao Brasil. O Itamaraty não faz repatriação de brasileiros que lutam em exércitos estrangeiros, mas garante que facilita a documentação para o retorno ao país.

“Todos os cidadãos brasileiros, não importa qual o motivo de sua presença na Ucrânia, recebem o devido tratamento consular, com apoio para documentação, comunicação com familiares e a assistência possível em situações de vulnerabilidade.”

No mês passado, o cônsul do Brasil na Ucrânia, Kaiser Araujo, reuniu-se com representantes da Ouvidoria Militar do país. O encontro ocorreu depois que a própria Ouvidoria do Itamaraty recebeu denúncias semelhantes.

Esse conjunto de fatores contribuiu para o aumento da segurança da Embaixada em Kiev, agora com dois agentes da Polícia Nacional. O Itamaraty também emitiu nota, na semana passada, reforçando a orientação para que brasileiros não se alistem em exércitos estrangeiros.

A nota afirma que “os brasileiros alistados em forças estrangeiras poderão ainda estar sujeitos à persecução penal, não apenas em cortes internacionais, mas também no Brasil, com base no art. 7º do Código Penal, que prevê estarem sujeitos à lei brasileira os ilícitos cometidos por cidadão brasileiro – ainda que em território estrangeiro – que, por tratado ou convenção internacional, o Brasil se obrigou a prevenir ou impedir”.

É um recado principalmente para aqueles que podem estar praticando tortura e outros tipos de crimes de guerra. Além de poderem ser processadas na Ucrânia, essas pessoas também poderão enfrentar a Justiça brasileira. Em relação às denúncias, a orientação da diplomacia é para que as vítimas procurem as autoridades ucranianas.

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