Vacina da dengue suspensa: tomei o imunizante, e agora?
Ministério da Saúde recomenda observação por 21 dias após vacinação; especialistas afirmam que não há motivo para pânico e explicam suspensão


Vacinação contra dengue | Divulgação Governo de São Paulo
A suspensão temporária da vacina contra a dengue, desenvolvida pelo Instituto Butantan, gerou uma onda de dúvidas nas redes sociais nesta segunda-feira (8). Entre os questionamentos mais frequentes estão os riscos para quem já foi imunizado e quais sintomas merecem atenção. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 500 mil doses foram aplicadas no país neste ano, a maior parte destinada a profissionais da atenção primária à saúde.
A decisão foi tomada depois que o sistema de farmacovigilância identificou três casos graves que resultaram em internações, sendo que dois deles evoluíram pra óbito.
O Ministério da Saúde, porém, destaca que: não há comprovação de que a vacina tenha causado as duas mortes, a medida foi adotada por precaução e uma investigação detalhada será realizada.
Tomei a vacina contra a dengue, e agora?
Ao SBT News, a clínica geral Giovana Augusto de Paula, da Santa Casa de Chavantes, pontua que o momento exige atenção, mas não pânico.
"Quem já recebeu a vacina não deve entrar em pânico. Até o momento, todos esses casos suspeitos ainda estão em investigação, e não há confirmação de que tenham sido causados pelo imunizante."
"No geral, o que se espera após a vacinação são sintomas como dor no local da aplicação, sinais flogísticos, como vermelhidão e calor local, além de mialgia, dor de cabeça e cansaço. São sintomas leves, que geralmente tendem a melhorar e desaparecer em 24 a 48 horas", comenta.
Segundo ela, o principal cuidado neste momento é observar sintomas que fujam do comum e buscar assistência médica caso eles apareçam. O Ministério da Saúde orienta procurar uma unidade de saúde em caso de:
- febre alta;
- dor abdominal intensa e contínua;
- vômitos persistentes;
- tontura;
- sangramentos;
- sonolência intensa;
- irritabilidade;
- sinais de desidratação;
- piora do estado geral.
Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a população que recebeu a vacina do Instituto Butantan nos últimos 21 dias terá um acompanhamento especial para identificar algum sinal ou qualquer outra reação adversa.
O infectologista Fellipe Godoy, da Santa Casa de Bragança Paulista, afirma que eventos adversos acontecem, em geral, de 5 a 15 dias após a vacina.
"Então, as pessoas que já passaram por esse período não precisam se preocupar. Já em relação a grupos especiais, na verdade, esses grupos ficaram de fora da vacinação justamente por terem maior chance de efeitos adversos com vacina de vírus vivo atenuado."
O que se sabe sobre os casos graves?
Segundo o Ministério da Saúde, os três casos graves ocorreram entre profissionais da atenção primária à saúde que participaram da estratégia nacional de vacinação. As autoridades informaram que os episódios não ocorreram nas cidades que receberam a vacinação ampliada.
Entre os três casos graves que precisaram de hospitalização estão:
- Uma mulher, 39 anos, apresentou febre, mialgia e náuseas seis dias após receber a vacina e foi para a Unidade de Terapia Intensiva, mas se recuperou e depois recebeu alta;
- Uma mulher, 48 anos, que morreu após desenvolver sintomas de dengue grave, com comprometimento neurológico (miningoencefalite) 19 dias depois da vacinação.
- Um homem, 58 anos, morreu após apresentar febre cinco dias depois de receber a vacina. O quadro evoluiu rapidamente para uma forma grave semelhante à dengue, com choque refratário.
Agora, investigadores da Anvisa, do Ministério da Saúde e do Instituto Butantan tentam identificar possíveis fatores em comum entre os pacientes, como doenças pré-existentes, uso de medicamentos, comorbidades ou outras condições que possam explicar os casos.
"A gente analisa a genética do vírus. O vírus colocado na vacina tem uma genética própria, e isso permite saber se aquele vírus encontrado no paciente, em uma suspeita de reação vacinal, é de fato o vírus incluído na vacina ou se foi uma coincidência temporal e, na verdade, ele teve infecção por um vírus selvagem", explica o infectologista.
Segundo o especialista, exames laboratoriais conseguem diferenciar se a infecção foi provocada pelo vírus vacinal ou pelo vírus da dengue transmitido pelo mosquito.
A médica Giovana Augusto de Paula complementa com outros fatores que são levados em conta na investigação:
"Também são levados em consideração o armazenamento e o transporte dos imunizantes, se foram feitos de forma adequada e se aquele produto chegou até o usuário final da forma correta, conforme a recomendação do fabricante."
Além dos três casos graves, também serão analisadas outras 42 reações severas registradas após a vacinação.
Por que os casos só apareceram agora?
A vacina passou por estudos clínicos que envolveram milhares de voluntários antes de ser aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No entanto, os especialistas afirmam que eventos raros podem surgir apenas depois que um imunizante passa a ser utilizado em larga escala.
Fellipe Godoy explica que isso ocorre porque estudos clínicos, mesmo envolvendo milhares de voluntários, podem não ser suficientes para detectar reações extremamente incomuns.
"É comum que eventos adversos mais raros e incomuns apareçam após a comercialização ou ampliação do uso. Existe uma vigilância pós-comercialização justamente para isso. Às vezes, é um evento adverso incomum que não foi percebido antes por não haver uma população grande o suficiente para que ele aparecesse"
Para a doutora Giovana, a suspensão temporária não representa uma condenação da vacina, mas uma medida de segurança.
"Essa suspensão é importante porque não desqualifica o imunizante, mas garante uma investigação melhor sobre o que aconteceu. A vigilância é muito importante e existe para todas as vacinas."
Suspensão não significa que a vacina é insegura
Os especialistas ouvidos pela reportagem do SBT News destacam que a suspensão não significa que a vacina tenha sido considerada insegura ou ineficaz.
"As vacinas são imprescindíveis e ainda são o melhor método de prevenção de muitas doenças. Então, é muito importante que a gente não desacredite as vacinas por causa dessa situação ou da suspensão temporária da aplicação. A gente precisa olhar para isso como uma segurança de que os órgãos estão vigilantes, acompanhando o que está acontecendo e garantindo que o melhor chegue ao consumidor final", destaca a médica geral.
Já Fellipe Godoy ressalta que a própria investigação rigorosa ajuda a preservar a confiança da população. "Na verdade, é justamente a investigação rigorosa dos casos que traz confiança nas vacinas". Segundo ele, ainda é cedo para concluir se os casos graves tiveram relação direta com o imunizante.
O Ministério da Saúde também notificou uma queda substancial nas mortes de dengue no país em relação aos últimos anos: foram 178 neste ano, contra 1.791 em 2025 e 6.320 em 2024.
Enquanto as investigações avançam, as doses já distribuídas serão mantidas armazenadas pelo Programa Nacional de Imunizações. A expectativa do Ministério da Saúde é que os resultados das análises indiquem se a vacinação poderá ser retomada, se haverá restrições para determinados grupos ou se será necessário alterar a estratégia de aplicação do imunizante.















