Sem vice, Flávio oficializa candidatura pelo PL neste sábado
Banco Master, embates com Michelle, tarifas dos EUA e dificuldade de atrair aliados marcaram os primeiros meses da pré-campanha do senador

Flávio Bolsonaro | Vittor Sales
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) oficializa neste sábado (25) sua pré-candidatura à Presidência da República durante a convenção nacional do Partido Liberal (PL), marcada para às 9h, no Mercado Livre Arena Pacaembu, em São Paulo. O evento reunirá aliados do senador, entre eles o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o presidente da Argentina, Javier Milei, além de uma participação em vídeo da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para liderar o projeto político do bolsonarismo nas eleições de 2026, o parlamentar chega à disputa sem um candidato a vice definido e, até o momento, sem uma aliança formal com partidos do Centrão.
A trajetória que levou Flávio à convenção começou em 5 de dezembro de 2025, quando o senador anunciou ter sido escolhido pelo pai para representar o PL na disputa pela Presidência da República em 2026.
A partir dali, contudo, a pré-campanha passou a enfrentar uma sequência de obstáculos. Ao longo dos meses seguintes, Flávio viu seu nome ser associado às revelações envolvendo o Banco Master, protagonizou embates públicos com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, enfrentou dificuldades para ampliar sua aprovação entre o eleitorado feminino, foi apontado como um dos responsáveis pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e encontrou resistência para atrair os principais partidos do Centrão para uma coligação.
Moderação em teste e resistência do Centrão
Desde que foi anunciado como pré-candidato, Flávio tem procurado se apresentar a lideranças políticas, empresários e representantes do mercado financeiro como uma versão mais moderada de seu pai. A estratégia busca ampliar seu diálogo com o Centrão, grupo considerado essencial para a formação de uma ampla coligação. Algumas declarações do senador, no entanto, têm colocado essa imagem à prova.
A mais recente ocorreu no início desta semana. Durante um encontro com diplomatas em Brasília, Flávio voltou a levantar dúvidas sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas.
Na ocasião, o pré-candidato afirmou que os Estados Unidos teriam identificado indícios de fraude no sistema eleitoral eletrônico da Venezuela e relacionou esse episódio ao modelo de votação adotado no Brasil.
Como argumento, citou um relatório da CIA e afirmou que muitas urnas eletrônicas brasileiras teriam "a mesma origem" das produzidas pela empresa empresa venezuelana Smartmatic. As declarações foram desmentidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A declaração repercutiu negativamente entre dirigentes de partidos do Centrão, que a interpretaram como um movimento na direção oposta ao esforço de moderação que Flávio tenta imprimir à pré-campanha.
Integrantes dessas legendas avaliam que episódios como esse dificultam a construção de alianças para a disputa presidencial e reforçam a percepção de que o senador acumula muitos "tetos de vidro", o que eleva o custo político de uma eventual aliança.
O PP já decidiu permanecer neutro no primeiro turno. Como integra a federação União Progressista com o União Brasil, a decisão inviabiliza o apoio do bloco à candidatura de Flávio. O Republicanos, partido de Tarcísio de Freitas, também avalia adotar uma postura semelhante.
Eleitorado feminino e o peso de Michelle Bolsonaro
Desde que anunciou sua pré-candidatura, Flávio Bolsonaro enfrenta dificuldades para ampliar sua aprovação entre o eleitorado feminino. Integrantes do PL avaliavam que um apoio mais ativo de Michelle, uma das principais lideranças do bolsonarismo entre mulheres e evangélicos, poderia contribuir para reduzir essa resistência. O cenário, porém, se tornou mais complexo após uma crise pública entre os dois.
O episódio teve início em 24 de junho, quando Michelle divulgou um vídeo acusando Flávio de humilhá-la e desrespeitá-la após divergências sobre as articulações do PL no Ceará. O conflito envolvia a decisão da sigla de apoiar a pré-candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao governo estadual e a candidatura da vereadora Priscila Costa (PL-CE) ao Senado.
A crise teve reflexos dentro do partido. Michelle deixou a presidência do PL Mulher, enquanto Flávio declarou publicamente que não mantinha mais relação com a ex-primeira-dama.
Após o atrito, o senador passou a tratar como prioridade a escolha de uma mulher para compor sua chapa como candidata a vice-presidente, em uma tentativa de fortalecer sua imagem junto ao eleitorado feminino.
Em outra frente, Flávio lançou, em 16 de julho, o Plano Brasil por Elas. A iniciativa reúne 12 propostas voltadas ao público feminino. A principal medida é a criação da Central da Mulher, plataforma física e digital destinada a reunir serviços de proteção, acolhimento, qualificação profissional e incentivo à autonomia financeira.
Às vésperas da convenção nacional do PL, o senador também buscou reconstruir a relação com Michelle. Na quinta-feira (23), divulgou um vídeo em que pediu desculpas à ex-primeira-dama e defendeu a união do grupo para derrotar o PT.
Michelle aceitou o gesto. Como parte do acordo de reaproximação entre os dois, o nome de Priscila Costa, aliada da ex-primeira-dama, passou a ganhar força para ocupar a vaga de vice na chapa de Flávio.
Flávio e o Banco Master
A relação entre Flávio e Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, passou a ocupar o centro da pré-campanha em maio deste ano, quando o site Intercept Brasil revelou mensagens mostrando que o senador procurou o ex-banqueiro para obter recursos destinados ao filme Dark Horse, obra biográfica sobre Jair Bolsonaro.
As conversas, trocadas com o publicitário Thiago Miranda e com o próprio Vorcaro, mostraram que as tratativas começaram no fim de 2024 e que, ao longo de 2025, Flávio passou a cobrar diretamente a liberação de parcelas para a produção.
Inicialmente, o senador negou que o filme tivesse recebido financiamento de Vorcaro. Posteriormente, admitiu ter procurado o empresário, mas afirmou que se tratava de recursos privados destinados a um projeto privado, sem recebimento de valores por ele nem oferta de qualquer contrapartida. Essa tem sido a principal linha de defesa adotada por Flávio desde o início da controvérsia.
Na quinta-feira (23), o caso ganhou um novo desdobramento. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de um inquérito para apurar o repasse de recursos ao Dark Horse, tornando Flávio oficialmente investigado pela Polícia Federal (PF).
Poucas horas depois, o nome do senador voltou a ser associado a Vorcaro após o portal Metrópoles revelar documentos segundo os quais o escritório de advocacia de Flávio emitiu e cancelou, em 7 de abril de 2025, duas notas fiscais que somavam R$ 1 milhão em favor da Copenhagen Consultoria. De acordo com a reportagem, a empresa é apontada como de fachada e teria sido utilizada por Vorcaro para movimentar recursos do Banco Master.
Na noite de quinta-feira (23), durante uma transmissão ao vivo em seu canal no YouTube, Flávio comentou o episódio e afirmou ser "claramente uma pessoa altamente perseguida". O senador atribuiu as críticas a uma suposta campanha da imprensa para desgastar sua imagem e disse haver uma "construção de narrativa" baseada, segundo ele, em acusações "infundadas" e sem provas.
"Gente, estou sendo acusado de não aceitar trabalhar para uma empresa que supostamente tem alguma coisa com o Vorcaro. E quem recebeu o dinheiro de verdade, dando alguma contrapartida pública, [...] esse pessoal você não vê a grande mídia falando. Eu respeito o trabalho da imprensa, mas está descarado. Está desproporcional [...] Eles não vão parar, inclusive depois que eu virar presidente da República", disse.
Flávio e tarifas dos EUA
As tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros também passaram a representar um desafio para a pré-campanha do senador.
Embora afirme ter atuado para evitar a medida, inclusive participando de uma audiência pública nos EUA sobre o tema, levantamentos indicam que o episódio desgastou a imagem de Flávio e fortaleceu politicamente o presidente Lula, que passou a sustentar o discurso de que a família Bolsonaro teria atuado em favor das tarifas e contra os interesses do país.















