Brasil

25 de julho: o futuro da mulher negra também é do Brasil

No Dia da Mulher Negra, especialistas em pautas raciais analisam como o racismo ainda restringe oportunidades e apontam caminhos para mudar esse cenário

Avatar de Antonio Souza
Antonio Souza
25 de julho: o futuro da mulher negra também é do Brasil

Há mais de três décadas, o dia 25 de julho marca a luta das mulheres negras da América Latina e do Caribe por direitos, reconhecimento e igualdade. No Brasil, a data também homenageia Tereza de Benguela, líder quilombola que resistiu ao sistema escravista no século XVIII e se tornou símbolo da luta contra a opressão.

SBT News Logo

Acompanhe o SBT News nas TVs por assinatura Claro (586), Vivo (576), Sky (580) e Oi (175), via streaming pelo +SBT, Site e YouTube, além dos canais nas Smart TVs Samsung e LG.

Siga no Google Discover

Mais do que uma celebração, o dia convida à reflexão sobre uma realidade que permanece desigual: mulheres negras continuam sendo as principais vítimas da violência, enfrentam maiores dificuldades para acessar educação e oportunidades de trabalho e seguem sub-representadas nos espaços de poder.

📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! Clique aqui e siga o canal do SBT News.

Os indicadores mostram que raça e gênero continuam determinando oportunidades no país. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam que as mulheres negras representaram 65,1% das vítimas de feminicídio registradas em 2025, enquanto mulheres brancas responderam por 34% dos casos.

Na educação, a desigualdade aparece antes mesmo da entrada no mercado de trabalho. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), do IBGE, mulheres brancas têm, em média, 11 anos de estudo, enquanto mulheres pretas e pardas registram 9,4 anos, uma diferença de 1,6 ano de escolaridade.

A realidade também se reflete no emprego. Um levantamento do movimento MUDE com Elas, baseado na PNAD Contínua, mostra que jovens e mulheres negras continuam entre os grupos mais afetados pelo desemprego. Além disso, elas assumem de forma desproporcional o trabalho de cuidado, remunerado ou não, reduzindo o tempo disponível para estudar, buscar qualificação e disputar melhores vagas no mercado.

"A democracia é medida pela vida das mulheres negras"

 Midiã Noelle, jornalista, ativista fundadora do Instituto Commbne, que promove a justiça racial por meio da comunicação e da educação | Reprodução
Midiã Noelle, jornalista, ativista fundadora do Instituto Commbne, que promove a justiça racial por meio da comunicação e da educação | Reprodução

Para a jornalista, pesquisadora e mestre em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Midiã Noelle, discutir especificamente a realidade das mulheres negras não significa dividir a pauta das mulheres, mas reconhecer que gênero e raça caminham juntos na produção das desigualdades.

"O 25 de Julho não existe para segmentar a luta das mulheres. Ele existe para evidenciar que não haverá igualdade de gênero enquanto a desigualdade racial continuar organizando a sociedade brasileira. Somos a base que sustenta este país, produzimos conhecimento, cultura, economia e cuidado, mas seguimos ocupando a base da pirâmide quando falamos de renda, acesso a direitos e poder", destacou Midiã ao SBT News.

Para a pesquisadora, a situação das mulheres negras funciona como um retrato da própria democracia brasileira.

"Costumo dizer que as mulheres negras são um termômetro da democracia. Quando a vida das mulheres negras melhora, significa que a democracia está funcionando para todas as pessoas. Quando continuamos sendo as mais expostas à violência, à pobreza e à exclusão, significa que o país ainda não resolveu sua principal dívida histórica", completou.

Racismo estrutural conecta todas as desigualdades

Conforme mostram os dados apresentados anteriormente, ao analisar indicadores de renda, saúde, violência, educação e representatividade, as mulheres negras aparecem, de forma recorrente, entre os grupos mais vulneráveis. Para Midiã Noelle, há um elemento comum por trás desses números: o racismo estrutural.

Fundadora do Instituto Commbne, organização que promove a justiça racial por meio da comunicação e da educação, e autora do livro Comunicação Antirracista: Um Guia para se Comunicar com Todas as Pessoas, em Todos os Lugares, ela explica que o problema não está apenas em atitudes individuais, mas também na forma como as instituições e as estruturas de poder foram construídas ao longo da história.

"As mulheres negras estão entre as maiores vítimas de feminicídio, concentram os menores rendimentos do país, sofrem mais violência obstétrica, enfrentam maiores dificuldades de acesso à saúde e permanecem sub-representadas nos espaços de decisão. Esses dados não são coincidências estatísticas. Eles revelam um modelo de desenvolvimento que ainda distribui direitos de forma desigual", destacou.
"Não existe transformação sem monitoramento. É preciso medir quem ocupa cargos de liderança, quem recebe investimento, quem aparece nas campanhas de comunicação, quem é contratado e quem permanece nas organizações. Sem dados, a igualdade vira apenas discurso", completou Midiã.

Outro aspecto destacado pela pesquisadora é o papel da comunicação na formação da percepção social. Segundo ela, durante décadas, as mulheres negras apareceram na mídia quase sempre associadas à pobreza, à violência ou ao trabalho doméstico, reforçando estereótipos que acabam influenciando o acesso a oportunidades.

"A comunicação é uma política pública. Ela define quem é visto como autoridade, quem inspira confiança, quem merece empatia e quem permanece invisível. Disputar narrativas também é disputar políticas públicas", completou.

Políticas públicas precisam considerar raça e gênero simultaneamente

Ariana Britto, pesquisadora associada do Centro de Estudos sobre Desigualdade e Desenvolvimento e membro associada da Rede de Economistas Pretas e Pretos | Reprodução
Ariana Britto, pesquisadora associada do Centro de Estudos sobre Desigualdade e Desenvolvimento e membro associada da Rede de Economistas Pretas e Pretos | Reprodução

Para a gerente de Políticas Públicas do J-PAL, centro global de pesquisa voltado à redução da pobreza, Ariana Brito, o Brasil acumulou avanços importantes na promoção da igualdade racial e dos direitos das mulheres. No entanto, ainda são poucas as políticas desenhadas especificamente para enfrentar a combinação entre racismo e desigualdade de gênero.

Segundo ela, iniciativas como o Estatuto da Igualdade Racial, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e as ações afirmativas no ensino superior tiveram impacto positivo para milhões de mulheres negras. O desafio, porém, está em reconhecer que políticas universais, por si só, não conseguem enfrentar desigualdades produzidas simultaneamente por raça e gênero.

"Mulheres negras, de forma recorrente, estão mais expostas à pobreza, à informalidade, à sobrecarga do trabalho de cuidado, à violência e às barreiras de acesso a oportunidades educacionais e profissionais. Na minha visão, políticas universais precisam ser complementadas por estratégias focalizadas, capazes de enfrentar barreiras específicas vividas pelas mulheres negras", destaca Ariana ao SBT News.

Na avaliação da especialista, essas desigualdades também não aparecem de forma isolada. Ela cita o exemplo de uma menina negra que frequenta uma escola de menor qualidade, encontra mais dificuldades para acessar o ensino superior, enfrenta barreiras no mercado de trabalho, recebe salários menores e permanece mais vulnerável à pobreza.

Ao mesmo tempo, a sobrecarga do trabalho de cuidado reduz o tempo disponível para estudar e buscar melhores oportunidades. Na área da saúde, mulheres negras enfrentam maior exposição à violência obstétrica, menor acesso ao pré-natal de qualidade e maiores taxas de mortalidade materna por causas evitáveis.

"Essas dimensões se retroalimentam e fazem parte do mesmo ciclo de desigualdades", resume Ariana.

Quem vive a desigualdade também aponta as soluções

Apesar dos desafios persistentes, as especialistas defendem que o Brasil já conhece parte das soluções. Para elas, o principal desafio deixou de ser identificar o problema e passou a ser transformar políticas públicas em ações permanentes, acompanhadas por metas, investimento e monitoramento. Ariana Brito acredita em um futuro no qual a cor da pele não seja um fator determinante para as oportunidades e a qualidade de vida das mulheres.

"Se eu pudesse escolher apenas um indicador, seria que raça/cor deixasse de ser um preditor das oportunidades de vida das mulheres. Ou seja, que nascer uma menina negra no Brasil não determinasse a qualidade da escola que ela frequenta, sua renda futura, seu risco de morrer por causas evitáveis, suas oportunidades no mercado de trabalho ou sua representação nos espaços de decisão", destaca Ariana

Midiã Noelle compartilha uma expectativa semelhante para o futuro. Para ela, o principal indicador de transformação será o aumento da presença de mulheres negras nos espaços de liderança e de tomada de decisão.

"Meu sonho é que, daqui a dez anos, possamos substituir os números da desigualdade pelos números da reparação. Que possamos falar menos sobre ausência e mais sobre liderança, inovação, produção de conhecimento e justiça racial."

Mais de 30 anos após a criação do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, a data continua cumprindo o propósito que motivou seu surgimento: lembrar que a igualdade entre homens e mulheres não será plenamente alcançada enquanto milhões de brasileiras ainda tiverem suas oportunidades definidas pela cor da pele.

Leia mais

Ver tudo
Imagem da notícia: Trump ironiza imprensa em jantar de correspondentes

Trump ironiza imprensa em jantar de correspondentes

Imagem da notícia: Incêndios afetam mais de 200 mil na Espanha e França

Incêndios afetam mais de 200 mil na Espanha e França

Imagem da notícia: Justiça bloqueia R$ 135 milhões em ação do Rioprevidência

Justiça bloqueia R$ 135 milhões em ação do Rioprevidência

Imagem da notícia: Retatrutida: medicamento ainda não é aprovado, diz Anvisa

Retatrutida: medicamento ainda não é aprovado, diz Anvisa

Imagem da notícia: Trump ironiza imprensa em jantar de correspondentes

Trump ironiza imprensa em jantar de correspondentes

Imagem da notícia: Incêndios afetam mais de 200 mil na Espanha e França

Incêndios afetam mais de 200 mil na Espanha e França

Imagem da notícia: Justiça bloqueia R$ 135 milhões em ação do Rioprevidência

Justiça bloqueia R$ 135 milhões em ação do Rioprevidência

Imagem da notícia: Retatrutida: medicamento ainda não é aprovado, diz Anvisa

Retatrutida: medicamento ainda não é aprovado, diz Anvisa

Últimas notícias

Trump participa de jantar de correspondentes após ataque

Nova edição do evento ocorre três meses depois de ataque a tiros em hotel em Washington, de onde o presidente e outras autoridades foram retirados às pressas

Milei receberá mais alta honraria concedida por São Paulo

Cerimônia está prevista para ocorrer no Palácio dos Bandeirantes, antes da Convenção do Partido Liberal

Trump diz que Venezuela não está pronta para eleições

Apesar da declaração, presidente dos EUA reconheceu que o país havia feito avanços sob a liderança da presidente interina Delcy Rodríguez

TCE-SP cobra explicações sobre falhas em trens

Governo e concessionária terão cinco dias para esclarecer ocorrências nas linhas 11, 12 e 13, incluindo incêndio e paralisação de serviços

SpaceX lança 13º voo de teste da nave Starship

Missão da SpaceX levou 20 satélites Starlink V3 e testará melhorias em motores, separação de estágios e escudo térmico

Arábia Saudita ataca Iêmen após ofensiva dos houthis

Ataques aéreos contra cidade portuária controlada pelo grupo insurgente ocorrem dias depois de petroleiros sauditas serem atingidos no mar Vermelho