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Voluntário relata vida na Venezuela um mês após terremotos

La Guaira tenta se reerguer depois da tragédia que matou mais de 5.000 venezuelanos

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Duda Ventura

Foi só quando sentiu o segundo tremor que o venezuelano Oscar Bermudez apertou o passo. É verdade que ele já estava correndo antes. Naquela tarde de quarta-feira, 24 de junho, o maratonista cumpria mais um dos seus treinos.

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Por volta das 18h, o chão da cidade de Valência, a cerca de 3 horas de Caracas, tremeu. O primeiro sismo, quarenta segundos antes, já tinha sido sentido. Mas foi a força do segundo que o abalou: "Eu moro no 14° andar. Minha companheira estava lá com minhas cachorrinhas. É alto demais, arriscado demais de se estar", explica.

"A Venezuela é um país considerado sísmico, porque atravessa várias das falhas naturais do planeta, mas não estamos acostumados a tremores tão fortes. Por isso mesmo, quando acontece, para nós é tipo ‘ok, está tremendo, esperemos que passe’ e seguimos com a vida normal como se nada tivesse acontecido.”

O sinal de telefone tinha caído na cidade, o que tornou o desespero maior a cada passo dado até o apartamento.

Já com a família nos braços e o celular nas mãos, Oscar começou a ver as imagens da cidade de La Guaira, a 175 km de distância. Prédios inteiros no chão, pessoas desesperadas entre escombros, muitos feridos. As publicações já falavam em dezenas de mortos.

“Não lembro quem foi o primeiro a entrar em contato, mas um escrevia para o outro, que escrevia para outro e começamos a nos perguntar como poderíamos ajudar. A cada coisa que descobríamos, a situação se mostrava pior e pior”, conta Oscar.

Advogado de profissão, estava acostumado ao voluntariado esporádico — nunca, porém, tinha lidado com algo daquela magnitude. “A cultura de saber o que fazer diante de um terremoto não está enraizada em nós. Não estamos preparados.”

Dono de uma caminhonete 4x4, ficou encarregado de levar as mochilas dos voluntários: capacetes, óculos, walkie-talkies, ferramentas, lanternas. As garrafinhas de água e os géis de eletrólito, que antes usava para correr, entraram na conta também.

“O que encontramos lá era digno de um filme pós-apocalíptico. Imagine chegar num lugar onde não é de noite, mas parece noite pela quantidade de poeira no ar. A zona a que chegamos, que se chama Caraballeda, só era acessível em veículos grandes. Minha caminhonete tinha que se inclinar para atravessar buracos, ultrapassar edifícios inteiros desabados na rua e pular de um lado a outro das calçadas. As pessoas estavam muito sujas, cobertas por pó, gritando desesperadas. Era uma espécie de anarquia.”

Oscar Bermudez, advogado e voluntário no terremoto da Venezuela
Oscar Bermudez, advogado e voluntário no terremoto da Venezuela

Logo nas primeiras horas após os tremores, as notícias começaram a chegar no Brasil. Mas as informações eram rasas: dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 tinham atingido a Venezuela. Ainda não se tinha número de feridos ou mortos, apenas um pronunciamento do Ministro do Interior, Justiça e Paz, Diosdado Cabello: “Estamos agindo de acordo com as normas estabelecidas, de acordo com os mecanismos de protocolo estabelecidos para ativar o auxílio, para ativar os resgates, para ajudar, neste caso, as pessoas que mais precisam”.

“A situação era de loucura generalizada”, conta Oscar. “Imagine uma cidade que simplesmente desabou. O prédio que você vai procurar não está mais no lugar onde deveria estar; caiu para trás, caiu para frente, caiu para o lado. Em que lugar está o apartamento da minha família? As ruas quebradas, com rachaduras gigantes. As pessoas corriam de um lado para o outro sem rumo.”

Poucas horas depois, especulava-se ainda a possibilidade de um novo abalo ou, pior, de um tsunami. A dúvida pairava: ficar e procurar resquícios de vida entre os destroços, ou fugir — e evitar engrossar os números, caso viesse um novo desastre?

La Guaira, no norte da Venezuela, é lar de trabalhadores da classe baixa que dependem sobretudo da economia portuária e da proximidade com a capital, Caracas. A maioria deles vivia em moradias simples, construídas em morros, parecidas com as favelas brasileiras. Em alguns bairros, prédios com fachadas ativas despontam com apartamentos para uma classe média em ascensão. Foi pelos escombros de um desses edifícios que Oscar começou.

Depois de estacionarem o carro, já facilmente identificáveis pelos aparatos de resgatistas, os voluntários foram praticamente empurrados até restos de um dos prédios, onde, pelas contas daqueles que tinham escapado, 30 pessoas deviam estar soterradas.

Existe um protocolo, na teoria, que deve ser seguido em situações de resgate como essa. Mas não havia tempo para grandes planos ou divisões. O mais experiente da equipe, um cachorro treinado para salvamentos em montanhas, Xamã, foi enviado para avaliar o terreno e, depois que a primeira parede foi levantada, o trabalho foi se empilhando.

“Nas primeiras 72 horas, se dormimos três delas foi muito. Não sobrou um único lugar de pé onde você pudesse ir tomar água, comprar um pão. Trabalhamos com outros grupos, com voluntários do México e de El Salvador que vieram ajudar. Mas a ajuda do governo demorou muito, muito mesmo para chegar.”

O cão Xamã, treinado para salvamentos, e voluntário
O cão Xamã, treinado para salvamentos, e voluntário

A “anarquia” contada por Oscar durou três dias. Foi só no final daquela semana que o governo venezuelano passou a se fazer presente. A esta altura, voos da Força Aérea Brasileira também já tinham decolado para a instalação de um hospital de campanha.

Os Estados Unidos destinaram – sob fortes críticas pela comparação com os lucros gerados pela exploração do petróleo venezuelano – US$ 300 milhões ao apoio dos afetados. O Papa fez uma doação de 100 mil euros. Os chineses, de outros US$ 17 milhões.

Oscar conta que, mesmo quando os agentes do governo chegaram para prestar apoio, não conseguiram acalmar a situação – estavam tão perdidos e despreparados quanto aqueles que buscavam, sem nenhum equipamento além das mãos e do desespero, pelos parentes entre os escombros. “O Estado não teve capacidade nem organização para responder à tragédia. E, se você chega tarde e chega desorganizado, isso significa mais mortes.”

Depois de duas semanas, desnorteado pela exaustão e com os pulmões cheios de poeira, Oscar teve que deixar a cidade para também receber atendimento médico. Fez um tratamento rápido e saiu da consulta com um atestado. Dobrado no bolso, o papel o acompanhou no caminho de volta a La Guaira. Ainda havia trabalho a cumprir.

“Teve um menino de 14 anos que me marcou muito. Ele estava com o irmão, um bebê, soterrado. Conseguimos resgatá-lo. Mas o irmão, não. Não sei se dá pra dizer que essa família está bem hoje. Mas está recuperando a saúde.”

Com o tempo, as pessoas passaram a se organizar. Havia quem buscasse equipamentos nos bairros vizinhos, menos afetados. Quem prestasse apoio psicológico. Quem limpasse as áreas usadas como banheiro. Também aqueles que contratavam antenas de internet para que as famílias pudessem se comunicar e o mundo soubesse o que passava na cidade.

Os números saltaram rápido. A contagem oficial foi de 920 mortos para 4.333 e, depois, chegou a 5.398. Os feridos já eram 16.740. A cada dia que passava, diminuíam as chances de resgatar com vida quem tivesse sobrevivido sob o peso dos escombros, no calor, sem hidratação nem alimento. “Uma tragédia assim custaria muito para qualquer país, mas para a Venezuela custa o dobro ou o triplo.”

Um mês depois, os resgatistas deram lugar ao maquinário pesado, que tenta abrir caminho para facilitar a circulação pela região. Foram registrados pelo menos 856 edifícios afetados, incluindo 190 que desabaram totalmente.

A líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou a criação de um fundo de US$ 200 milhões (cerca de R$ 1 bilhão) para a reconstrução das áreas afetadas, e prometeu entregar 10 mil casas. Dados do Unicef apontam para 23 mil pessoas ainda vivendo em acampamentos temporários.

Oscar precisou voltar ao escritório de advocacia onde trabalha, mas retorna a cada dois dias para checar a situação "no que sobrou" de La Guaira: "Não dá para falar em cidade. Podem se passar anos até que as zonas mais afetadas voltem a funcionar como 'cidade'. Eu diria até que há áreas em que será preciso avaliar se é prudente que voltem a funcionar como antes."

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