Política

Vitória de Lula não indica onda de esquerda, diz professor

Cientista político da USP afirma que progressistas de outros países podem se inspirar, mas particularidades do Brasil dificultam repetição do sucesso

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Maria Fernanda Barros
Lula ao lado de Janones em discurso da vitória | Foto: Ricardo Stuckert

Lula ao lado de Janones em discurso da vitória | Foto: Ricardo Stuckert

A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2026 repercutiu entre lideranças e movimentos progressistas de outros países, mas não significa necessariamente o início de uma nova onda de esquerda no mundo. A avaliação é do cientista político e professor da Universidade de São Paulo (USP) Kai Enno Lehmann, que considera prematuro afirmar que o resultado brasileiro poderá se repetir em outras disputas eleitorais.

A virada de Lula sobre Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que freou uma sequência de vitórias da direita na América Latina, ganhou repercussão internacional. O gesto do "L", associado ao petista, apareceu em slogans do partido do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez e foi reproduzido pela presidente do México, Claudia Sheinbaum, e pela ex-prefeita de Barcelona Ada Colau.

Líderes da esquerda internacional fazem o "L" | Reprodução: Revista Fórum/CNN/PSOE
Líderes da esquerda internacional fazem o "L" | Reprodução: Revista Fórum/CNN/PSOE

Setores da esquerda francesa e argentina também se inspiraram no chamado "Exército do Lula", movimento de mobilização digital organizado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), e criaram canais semelhantes para reunir apoiadores e organizar a oposição nas próximas disputas presidenciais.

Apesar da repercussão, Lehmann ressalta que a vitória de Lula está ligada a características particulares do cenário político brasileiro, especialmente à popularidade do presidente e à rejeição de seu adversário.

"Em termos de campanha, de poder ganhar eleições, Lula é o maior político do país desde a redemocratização. Ele recebe muito voto pessoal. As pessoas votam nele, e não no PT", afirma.
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O professor avalia que o resultado poderia ter sido diferente caso Lula enfrentasse um adversário com índices menores de rejeição.

A estratégia de mobilização digital adotada por Janones também não representa, segundo Lehmann, uma novidade no cenário internacional.

"A maioria dos políticos europeus, como na França e Espanha, países onde teremos eleições em breve, estão na frente do Lula nesse sentido. Acho que Janones aprendeu mais com eles do que ao contrário", analisa.

Esquerda busca inspiração para próximas eleições

Para o cientista político, a reeleição de Lula pode motivar movimentos progressistas, mas as diferenças entre os contextos políticos de cada país dificultam a reprodução da estratégia brasileira.

Na França, jovens passaram a publicar vídeos nas redes sociais transformando o "L" de Lula em "M", referência a Jean-Luc Mélenchon, um dos principais nomes da esquerda francesa para a eleição presidencial de 2027.

Lehmann avalia que o cenário francês aponta para um enfraquecimento do centro político e um fortalecimento dos extremos ideológicos.

"Tudo indica que a segunda rodada das eleições presidenciais na França será entre a extrema direita e extrema esquerda. Mélenchon não é à esquerda como Lula é da esquerda: Lula é centro-esquerda, Mélenchon é da extrema esquerda", analisa o professor.
Reprodução/Redes Sociais
Reprodução/Redes Sociais

Na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez também demonstrou entusiasmo com o resultado brasileiro, chegando a declarar que "se o Brasil conseguiu, a Espanha também consegue".

O professor, no entanto, considera incertas as perspectivas eleitorais de Sánchez. Segundo ele, a oposição poderá explorar politicamente a colisão entre dois trens que deixou vítimas fatais no país.

"Até dois dias atrás, eu teria dito que talvez ele teria capacidade de frear a extrema-direita. Mas isso vai ser usado politicamente pela oposição", afirma Lehmann.

Nos Estados Unidos, onde lideranças do Partido Democrata parabenizaram Lula, o cientista político também reconhece o potencial de inspiração da vitória brasileira, inclusive para as eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro.

Ele ressalta, porém, que os democratas não contam com uma liderança de peso político comparável ao de Lula no Brasil.

"Em termos de motivação, a eleição de Lula deve ter um deve ter tido um impacto enorme. Afinal das contas, a esquerda tem perdido eleições ao longo dos últimos anos em quase todo o mundo, e esse sucesso inesperado é motivador. Mas eu não vejo nos Estados Unidos uma figura como Lula é a figura da esquerda no Brasil", avalia.

Vitória de Lula pode influenciar eleições na América Latina?

Na América Latina, a vitória de Lula também repercutiu entre movimentos de oposição a governos de direita, especialmente entre os peronistas argentinos, que tentarão impedir a reeleição do presidente Javier Milei em 2027.

Lehmann não descarta que o resultado brasileiro possa influenciar a rejeição do governo argentino, especialmente diante das suspeitas de participação de autoridades do país na fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil após a derrota eleitoral.

O professor observa que, nos últimos anos, eleições latino-americanas têm sido marcadas por derrotas de candidatos ligados aos governos em exercício.

"Na vasta maioria das eleições da América Latina nos últimos cinco anos, quem estava no governo perdeu as próximas eleições", explica.

Nesse contexto, a reeleição de Lula representa uma exceção à tendência apontada pelo cientista político. Ao mesmo tempo, a legenda de seu adversário, o PL, conquistou 121 cadeiras na Câmara dos Deputados e se consolidou como a maior bancada de um único partido desde a redemocratização.

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