Política

Tensão global faz Lula mudar discurso e apostar em indústria de defesa

Após críticas a gastos militares, Planalto adota novo tom e vê setor como estratégico diante de conflitos e pressões externas

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Hariane Bittencourt
24/03/2026, 13:50 • Atualizado em 24/03/2026, 13:55
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Presidente Lula (PT) | Divulgação/Ricardo Stuckert/PR

Presidente Lula (PT) | Divulgação/Ricardo Stuckert/PR

A escalada da guerra no Oriente Médio somada às recentes intervenções de países como os Estados Unidos na América Latina e Caribe levaram o presidente Lula (PT) a uma mudança de discurso quanto a investimentos na indústria de defesa brasileira.

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Se no início de março o petista usou seu espaço de fala na 39ª Conferência Regional da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) para criticar gastos com armamentos, agora a dinâmica adotada pelo Palácio do Planalto é outra: de defesa dos investimentos do Brasil no setor para garantir a preservação da soberania em momentos de instabilidade.

Nesta quarta (25), o petista estará no lançamento da primeira aeronave supersônica produzida no Brasil, o caça F-39E Gripen, visto como um passo importante na agenda da Defesa. O valor do contrato para a compra desse e de outros 35 aviões do tipo foi de quase US$ 5,5 bilhões.

O mesmo tom pró-armamento vem sendo adotado por outros integrantes do governo.

Nesta segunda-feira (23), durante a cerimônia de lançamento do Catálogo de Produtos da Base Industrial de Defesa do Brasil (BID), o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB), afirmou que "uma indústria de defesa forte é um seguro de vida para a nação".

Ele citou que "um país só dá valor para a siderurgia quando tem guerra" e disse que "nós [Brasil] precisamos ter uma indústria siderúrgica importante".

No mesmo evento, quando foi lançado o material, escrito em inglês e português, que detalha ativos da produção nacional — como embarcações, veículos blindados, aeronaves e sistemas de monitoramento — o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, também defendeu investimentos no aparato militar do Brasil.

"Em um mundo cada vez mais armado e vivenciando ações efetivas de caráter militar como testemunhamos, a defesa nacional não pode ser vista como simples estrutura coadjuvante, mas precisa ser revelada em sua real dimensão e em seu real valor estratégico. Desenvolver a indústria de defesa é promover a soberania", afirmou.

Múcio ponderou, no entanto, que a indústria de defesa brasileira deve servir para dissuasão e não para embates com outros países. "Nós não estamos pensando em enfrentar países. Nós queremos parcerias, não enfrentamentos", disse o ministro.

O primeiro sinal claro da virada de chave do governo Lula em tema de defesa veio em 9 de março, cinco dias depois da declaração de condenação aos países que compram armas ao invés de combater a fome.

Na ocasião, o presidente brasileiro adotou uma postura diferente das anteriores ao sustentar que o Brasil precisa de mais investimentos em defesa para se proteger de interferências externas e evitar vulnerabilidades estratégicas.

"Se a gente não se preparar em questão de defesa, qualquer dia alguém invade a gente", declarou o petista ao lado do presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa. Para assessores, apesar da mudança de discurso, a manifestação de Lula apenas "reiterou uma constatação óbvia". A fala, no entanto, parece ter inaugurado um novo momento no governo federal.

No sábado (21), em seu discurso durante a Cúpula de Líderes da Celac, na Colômbia, o petista afirmou que o mundo vive "a maior concentração de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial" e criticou ações norte-americanas contra Venezuela e Cuba.

"Não é possível alguém achar que é dono dos outros países. O que estão fazendo com Cuba agora. O que fizeram com a Venezuela. Isso é democrático? Em que parágrafo, em que artigo da Carta da ONU está dito que um presidente de um país pode invadir o outro?", questionou.

Distensão entre EUA e Irã

Também nesta segunda-feira, Geraldo Alckmin comentou a trégua de cinco dias nos ataques militares dos Estados Unidos contra usinas de energia do Irã. Para o vice-presidente, trata-se de um passo importante para a redução das tensões no Oriente Médio.

"Foi importante essa trégua de cinco dias entre Estados Unidos e Irã porque o primeiro passo é reduzir tensões. Abre uma oportunidade de entendimento, porque isso é um perde-perde pro mundo inteiro", disse.

Mais cedo, Donald Trump afirmou que o país teve conversas "boas e produtivas" com o Irã e que determinou o adiamento de possíveis ataques contra usinas de energia e infraestrutura energética iranianas por cinco dias.

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