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Entenda operação dos EUA e situação na Venezuela em três pontos

Especialistas apontam a falácia do 'narcoterrorismo', interesses por trás da ação e ilegalidade da ofensiva, que viola princípios do direito internacional

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O presidente dos EUA, Donald Trump, o diretor da CIA, John Ratcliffe, e o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, observam a operação militar norte-americana na Venezuela | Foto: Reprodução/Truth Social/@realDonaldTrump - 03.01.2026

A operação dos Estados Unidos na Venezuela foi o estopim de um conflito que vinha escalonando há meses. Desde setembro, os EUA realizaram ao menos 30 ataques contra barcos venezuelanos no mar do Caribe, sob a justificativa de que tais embarcações eram ligadas ao narcotráfico. No último sábado (3), Washington bombardeou Caracas e capturou o ditador Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores.

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Agora, sob custódia dos EUA, Maduro é acusado de quatro crimes, entre eles "conspiração para o narcoterrorismo". Em audiência à Justiça dos EUA, na última segunda-feira (5), ele se declarou inocente e disse que foi sequestrado pelo governo dos EUA.

O SBT News conversou com três internacionalistas para entender a operação dos EUA e a situação na Venezuela e resumiu as principais ideias em três pontos:

1. A falácia do 'narcoterrorismo'

Segundo a professora doutora de relações internacionais, Ana Carolina Marson, o ponto de partida para entender a situação na Venezuela passa pelo termo "narcoterrorismo". A expressão não é reconhecida pela academia e tampouco pela Organização das Nações Unidas (ONU). Isso porque o narcotráfico e o terrorismo são crimes com características completamente diferentes.

Depois do atentado contra as Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, o conceito de "terrorismo" sofreu mudanças, bem como todo o paradigma de segurança internacional. O terrorismo é um crime com raízes ideológicas, muitas vezes religiosas, diferentemente do narcotráfico. Nesse sentido, a premissa dos EUA para ter realizado a operação na Venezuela já começa enfraquecida.

Ana Carolina ressalta que o narcotráfico é um problema grave que precisa ser combatido. Chama a atenção, no entanto, o fato de que outros países que se destacam na produção de cocaína, como Colômbia, Peru e Bolívia, não estão na mira dos EUA. Só agora, mais recentemente, o presidente dos EUA, Donald Trump, mencionou a Colômbia, afirmando que o país estaria "doente" e que a ideia de uma operação por lá "soava bem".

É importante lembrar também que, em novembro de 2025, enquanto atacava embarcações no mar do Caribe, Trump concedeu indulto ao ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado pela Justiça dos EUA por narcotráfico. Ele tinha sido sentenciado a 45 anos de prisão após ser considerado culpado de facilitar o envio de centenas de toneladas de cocaína ao país.

“Uma das primeiras declarações de Donald Trump depois da operação foi que os EUA fariam a gestão da Venezuela e do petróleo venezuelano. Em nenhum momento, ele falou em reconstruir a democracia do país. Isso mostra que esses argumentos com relação ao 'narcotráfico', à 'libertação do povo venezuelano', foram apenas pretextos para a operação", afirma Ana Carolina.

2. Interesses

A Venezuela concentra a maior reserva de petróleo comprovada do mundo, com capacidade estimada em cerca de 303 bilhões de barris, segundo a Administração de Informação Energética dos EUA (EIA, na sigla em inglês). O volume coloca o país à frente de grandes produtores como a Arábia Saudita (267 bilhões de barris) e o Irã (209 bilhões).

Para Ana Carolina, o interesse dos EUA no petróleo venezuelano é o principal fator que motivou a operação, mas outras questões devem ser levadas em conta. Uma delas é o fato de que os EUA vêm perdendo sua influência no mundo. Relatório da Ipsos, divulgado em novembro de 2025, apontou que os EUA são o país com maior probabilidade de perder influência global na próxima década.

Nos últimos anos, a Venezuela vem se tornando uma forte aliada da China e, mais recentemente, da Rússia, duas das maiores potências do mundo. Isso também preocupa o governo norte-americano, já que ambos os países são vistos como concorrentes dos EUA e ameaçam sua influência na América Latina e no Caribe.

"A Venezuela depende da ajuda de outros países para fazer sua indústria petrolífera funcionar", diz o professor de relações internacionais James Onnig, da Faculdades de Campinas (Facamp). "Os EUA, sob o governo Trump, impuseram um bloqueio total a petroleiros sancionados da Venezuela, visando sufocar o governo Maduro. O resultado é uma queda drástica nas exportações venezuelanas, afetando principalmente a China".

O advogado Victor del Vecchio, mestre em direito internacional, acrescenta que a mudança na política externa dos EUA, nos últimos anos, acabou deixando a América Latina em segundo plano. Para ele, a operação demonstra o entendimento dos EUA de que a região seria o mais novo "quintal dos EUA" — uma espécie de Doutrina Monroe 2.0 —, enquanto a Ásia ficaria sob influência chinesa e a Europa, sob influência russa.

Os especialistas ouvidos pelo SBT News especulam ainda que a operação na Venezuela pode ter sido convenientemente realizada neste momento para abafar polêmicas envolvendo o governo dos EUA e o próprio Trump. Entre elas, estão a divulgação dos arquivos do magnata Jeffrey Epstein, em que o presidente é citado, além de problemas econômicos e de ordem social.

"Acredito que Trump quis fazer uma intervenção cinematográfica para movimentar o noticiário, tirando assim a atenção de outros problemas internos dos EUA, tanto de ordem econômica quanto de ordem social", afirma Del Vecchio. "Alguns exemplos são a alta inflação no país, que vem refletindo sobretudo no preço dos alimentos, e os recentes protestos que denunciam a política anti-imigração do governo."

3. Violação do direito internacional

A operação dos EUA na Venezuela dividiu opiniões. Muitas pessoas alinhadas à direita celebraram a queda de um regime autoritário, que perdurou no país por mais de vinte anos — primeiro com Hugo Chávez, a partir de 1998, e depois sob Maduro, desde 2013. Os especialistas apontam, no entanto, que as críticas à ação dos EUA nada tem a ver com ideologia política, e sim com princípios do direito internacional.

O regime Maduro é passível de muitas críticas. O país não tem eleições livres, há inúmeras denúncias de violações de direitos humanos contra opositores políticos e, em razão das sanções impostas à Venezuela, por parte de diversos países, o país afundou em uma profunda crise econômica. Ainda assim, nenhum desses apontamentos torna a operação justificável.

"Defender que a operação realizada por Trump foi ilegal não significa defender Maduro. Significa defender a soberania venezuelana, que foi quebrada com essa ação", afirma Ana Carolina. "Nenhum país pode entrar em outro sem, no mínimo, uma discussão e uma aprovação da ONU, o que, ainda assim, seria altamente contestável."
"Nenhum dos argumentos alegados por Trump poderia ser utilizado como uma justificativa juridicamente aceitável para as ações cometidas contra a Venezuela e contra Maduro", diz Del Vecchio. “Ocorreu uma violação flagrante do direito internacional, sobretudo do princípio da soberania estatal. Não cabe a nenhum governante externo decidir sobre os rumos políticos de um país que não aquele seu próprio."

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