Entenda em três pontos a questão de Trump com a Groenlândia
Região autônoma pertencente à Dinamarca há mais de 200 anos é o novo 'hiperfoco' do presidente americano, motivado por expansionismo e interesses econômicos

Sofia Pilagallo
Desde que voltou ao poder, em janeiro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem deixando claro seu interesse em anexar a Groenlândia, região autônoma que pertence à Dinamarca há mais de 200 anos. Mais recentemente, ele vem fazendo ameaças mais diretas nesse sentido, chegando a afirmar que os EUA tomariam a Groenlândia "de um jeito ou de outro".
Em discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, na quarta-feira (21), Trump recuou e descartou o uso da força bem como a aplicação de tarifas à Europa, que entrariam em vigor em 1º de fevereiro. Ele afirmou, ainda, que os EUA e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) avançaram num acordo, mas a aliança garantiu que não houve negociação sobre a soberania da região.
Na quinta-feira (22), lideranças europeias fizeram uma reunião de emergência em Bruxelas, na Bélgica, para discutir as ameaças de Trump, que afetam não só a Europa, mas todo o mundo. O SBT News conversou com dois estudiosos do assunto e resumiu, em três pontos, a questão de Trump com a Groenlândia, desde os interesses dos EUA até o abalo da ordem mundial estabelecida no pós-guerra.
1. Os interesses dos EUA
O interesse dos EUA pela Groenlândia não é novo. Já em 1867, — ano em que os EUA compraram o Alasca da Rússia —, políticos consideraram anexar a Groenlândia e também a Islândia. Em 1º de julho de 1868, quando a América tentava se desvencilhar da influência europeia, os jornais noticiaram que os EUA estariam prestes a concluir a compra da Groenlândia por US$ 5,5 milhões (R$ 29,2 milhões, na cotação atual do dólar).
A negociação estava sendo feita pelo então secretário de Estado, William Henry Seward. Quando a proposta chegou aos ouvidos do Congresso dos EUA, no entanto, a Casa prontamente rejeitou o uso de fundos para comprar novas terras. A ideia chegou a ser ridicularizada pelos parlamentares, que não viam vantagem na aquisição de um território tomado por gelo.
Ironicamente, décadas depois, as mudanças climáticas — uma questão que Trump, inclusive, insiste em negar — provocaram o derretimento de calotas polares em vários lugares do mundo, inclusive na Groenlândia. O fenômeno tornou mais viável a exploração de gás e petróleo, terras raras (um grupo de elementos químicos cruciais para tecnologias modernas) e outros minérios como o lítio, que, ao que tudo indica, se encontram em grandes quantidades no território groenlandês.
"Me parece ser esse o principal motivo que atrai Trump a querer anexar a Groenlândia. Há também a questão da propaganda interna de ser um presidente expansionista, ecoando o imaginário americano de expansionismo do século 19 até a virada do século 20", afirma o cientista político André Kaysel, professor doutor do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
"Especialistas indicam que essa voracidade de Trump pela Groenlândia, assim como por outros lugares, tem a ver com um possível legado que ele queira deixar, ao estilo do século 18 e 19, de expansão territorial", acrescenta a advogada especialista em direito internacional Renata Alvares Gaspar, diretora acadêmica da Escola de Altos Estudos em Direito e Relações Internacionais (Edrin).

Até recentemente, Trump vinha justificando seu interesse em anexar a Groenlândia de forma genérica, afirmando apenas que a região era essencial para a segurança internacional, e que Rússia e China poderiam tomar o controle da ilha caso os EUA não o fizessem. Em 14 de janeiro, no entanto, ele admitiu que a região era "vital" para o Domo de Ouro, escudo antimísseis que ele deseja construir em território americano.
Para Keysel, o argumento de Trump de que os EUA precisariam ter a posse integral da Groenlândia por uma questão de segurança nacional não se sustenta. Isso porque o país já está presente militarmente na ilha desde 1951, quando instalou uma base aérea no território por meio de um acordo estabelecido com a Dinamarca, nos marcos da Otan.
Segundo o professor, Trump poderia, mediante adendos a esse tratado, aumentar a presença americana na Groenlândia, inclusive com armamentos nucleares, caso julgasse necessário. A Base Aérea de Thule, agora conhecida como Base Espacial Pituffik, fica localizada na costa noroeste da Groenlândia e, em 2025, contava com 150 militares dos EUA estacionados permanentemente no local.
2. Colapso da Otan
Para os estudiosos ouvidos pelo SBT News, o risco de Trump invadir a Groenlândia e tomar a região por meio da força é real. Pensando racionalmente, a partir de como a geopolítica internacional se consolidou depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), seria acertado pensar que se trata de ameaças vazias, mas, considerando o histórico recente de atitudes do presidente, não se deve descartar essa possibilidade.
A questão se torna ainda mais problemática porque, desde 1949, após a Segunda Guerra, os EUA e a Dinamarca fazem parte da Otan, uma aliança militar criada como um pacto de segurança coletiva entre países ocidentais para conter a influência e a expansão da União Soviética na Europa. As ameaças de Trump já vêm causando desgaste entre os países da organização, mas uma invasão representaria o colapso da aliança militar.

Para Kaysel, em termos estritamente militares, a Europa e os países da Otan podem fazer muito pouco para se defender das ameaças de Trump. Desde 1949, a Europa é completamente dependente dos EUA na questão militar e, inclusive, estruturou seu crescimento econômico, estabilidade política e a própria integração europeia nessa dependência geopolítica e militar.
Apesar disso, há instrumentos econômicos que a União Europeia (UE) pode utilizar e está se dispondo a fazê-lo agora, "de maneira tardia e vacilante", na availiação de Kaysel. Nesta semana, o jornal "Financial Times" divulgou que os países da UE consideram impor tarifas de € 93 bilhões (R$ 580 bilhões) aos EUA e restringir o acesso de empresas americanas ao mercado do bloco.
Essa última medida é conhecida como "bazuca comercial". A partir dela, a UE pode restringir a participação de empresas americanas em licitações públicas, impor barreiras a serviços digitais e financeiros e endurecer regras sobre produtos dos EUA. A UE nunca recorreu a esse instrumento, o que mostra a disposição do bloco de responder às ameaças com o mesmo calibre.
3. Fim da Nova Ordem Mundial?
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, afirmou que uma invasão da Groenlândia por parte dos EUA "deixaria Putin [Vladimir Putin, o presidente da Rússia] o homem mais feliz do mundo". Em entrevista ao jornal "La Vanguardia", publicada no último domingo (18), ele disse que a ação militar legitimaria a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Os estudiosos ouvidos pelo SBT News acreditam que a frase faz sentido, mas acham que ela merece ser ampliada. Isso porque não se trata apenas de uma questão isolada entre Rússia e Ucrânia, que estão em guerra desde 2022, mas de toda a ordem mundial, ou estrutura de poder global estabelecida após a Segunda Guerra Mundial e agora está se desmantelando.
A Nova Ordem Mundial pôs fim à bipolaridade EUA vs. União Soviética, e transformou o mundo de bipolar em multipolar. É fundada no multilateralismo, na criação de instituições baseadas em regras, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), e na capacidade dos EUA de garantir a estabilidade global.
"Esse sistema sempre teve um alto grau de hipocrisia", afirma Kaysel. "Os EUA sempre se comportaram como se estivessem acima dessas regras, mas reconheciam, pelo menos em tese, algum limite colocado por esse regime. Esse véu agora foi rasgado e não me parece que tenha volta. O sistema terá de ser reconstruído em algum momento, mas não voltaremos ao mundo pós-Guerra Fria."
Antes do segundo mandato de Trump, especialistas já apontavam o declínio da hegemonia americana no cenário político global. Agora, o fenômeno fica ainda mais evidente. Relatório da Ipsos, divulgado em novembro de 2025, apontou que os EUA são o país com maior probabilidade de perder influência global na próxima década, com um aumento notável no pessimismo global em relação ao país.
A professora Renata Alvares Gaspar usa uma metáfora histórica para descrever o comportamento de Trump no xadrez da geopolítica: os Jardins Suspensos da Babilônia. A estrutura, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, foi construída na Babilônia, na antiga Mesopotâmia (atual Iraque), no século 6 a.C, quando o império da Babilônia estava em declínio.
A metáfora sugere que grandes gestos, obras ou demonstrações de poder podem surgir justamente quando um império começa a perder força. É a ideia de que, na decadência, uma civilização tenta reafirmar sua grandeza de forma exagerada. No fundo, as ações de Trump não mostram força, mas sim fragilidade, e sugerem que os EUA estariam num processo de perda de liderança ou desgaste institucional.
"Trump é tão histriônico que quando vejo uma notícia de algum disparate dele, tudo o que vejo são os Jardins da Babilônia, erguidos quando a Babilônia estava em declínio", diz Renata. "Essas atuações à margem da legalidade e num tom imperial evidenciam que os EUA são uma potência em decadência."









