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Conflito no Oriente Médio: mundo está entrando em uma nova guerra mundial?

Especialista explica que cenário atual é mais complexo, com sequência de crises regionais conectadas

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Camila Stucaluc
06/03/2026, 09:30 • Atualizado em 06/03/2026, 09:30
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Marinha dos Estados Unidos em atuação na costa do Irã | Divulgação/Comando Central dos EUA

Marinha dos Estados Unidos em atuação na costa do Irã | Divulgação/Comando Central dos EUA

A escalada do conflito no Oriente Médio, provocada pelo ataque coordenado entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, reacendeu o temor de uma Terceira Guerra Mundial. O cenário, contudo, sugere algo mais complexo, segundo o analista de Relações Internacionais da Revista Relações Exteriores, Guilherme Bueno.

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“A Primeira e Segunda Guerra Mundial ocorreram quando grandes potências se organizaram em blocos claros, com uma mobilização militar total e industrial. Hoje, o sistema internacional é muito mais complexo. Não vemos alinhamentos rígidos como no passado. Mesmo países rivais permanecem conectados por comércio, fluxos financeiros e tecnologia”, explica.

Isso significa que a interdependência cria um paradoxo: os países competem estrategicamente, mas continuam economia conectados, o que dificulta a formação de blocos militares absolutos. Com isso, o especialista aponta que a próxima grande guerra não começará como uma guerra mundial, mas com uma sequência de crises regionais conectadas.

Entre os possíveis gatilhos para o cenário está o conflito no Oriente Médio. As hostilidades entre Estados Unidos, Israel e Irã, iniciadas em meio à pressão de Washington para acabar com o programa nuclear iraniano, acabaram escalando para outros países, o que vem preocupando a comunidade internacional.

Por abrigarem bases militares norte-americanas na região, Catar, Kuwait, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos passaram a ser alvos de Teerã, que também prometeu um ataque direto aos Estados Unidos. O conflito ainda se expandiu para o sul do Líbano, com Israel retaliando os ataques do grupo Hezbollah, aliado do atual regime iraniano.

Outra crise que pode gerar escaladas perigosas envolve o estreito de Taiwan. A tensão na região vem aumentando desde 2022, quando a China, que reivindica a ilha como parte da zona chinesa, apesar da separação dos territórios em 1949, iniciou uma série de incursões próximas à região. Algumas das operações envolveram munições reais, alarmando Taipé.

O temor de uma invasão em Taiwan chegou ao Japão, gerando um impasse diplomático com a China. A primeira-ministra Sanae Takaichi afirmou que Tóquio poderia intervir militarmente se a ilha fosse alvo de um ataque chinês, caso o conflito representasse uma ameaça existencial ao país. A fala foi criticada por Pequim, que impôs restrições econômicas ao país.

A reivindicação chinesa também afeta as relações com os Estados Unidos. Apesar de não reconhecer oficialmente Taiwan como um país, Washington é um dos maiores apoiadores e fornecedores da ilha. Em novembro do ano passado, o governo aprovou a venda de US$ 11,1 bilhões em armas para Taiwan, o maior pacote de armamentos já destinado à ilha, o que provocou incômodo em Pequim.

À época, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, expressou indignação, afirmando que a venda "prejudica gravemente a paz e a estabilidade no Estreito de Taiwan". Em tom de ameaça, ainda disse que “ao apoiar a 'independência de Taiwan' com armas, os Estados Unidos só atrairão problemas para si mesmos”. “Usar Taiwan para conter a China está absolutamente fadado ao fracasso”, frisou.

Em conversa por telefone neste ano, Xi Jinping amenizou o tom, pedindo ao presidente Donald Trump que tenha “prudência” ao fornecer armas para Taiwan. “Taiwan é território da China, e a China deve defender sua soberania nacional e integridade territorial, e é impossível deixar Taiwan se dividir. Os Estados Unidos devem conduzir as vendas de armas para Taiwan com prudência”, disse.

Bueno ainda cita como possível gatilho a crise no Leste Europeu, atualmente dominado pela invasão russa na Ucrânia. O temor está voltado à tensão nuclear, uma vez que, apesar de ser um conflito direto entre Rússia e Ucrânia, a guerra envolve indiretamente potências ocidentais, inclusive nucleares, como os Estados Unidos. Segundo ele, esse envolvimento, mesmo que indiretamente, aumenta o risco sistêmico.

“A pergunta correta talvez não seja se estamos a caminho para a Terceira Guerra Mundial. A pergunta mais importante é outra: quais crises podem desencadear uma escala sistêmica? E quais mecanismos ainda existem para impedir isso?”, pontua o especialista. “Não estamos diante de uma Terceira Guerra Mundial, mas isso não significa estabilidade. É, sem dúvida, uma década de ruptura e aumento da violência na política internacional”, conclui.

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