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Irã aposta em guerra prolongada para pressionar EUA e desgastar Trump em ano eleitoral

Resposta do Irã contra países do Golfo e a ameaça de fechar o Estreito de Ormuz busca pressionar Washington e Tel Aviv a negociar, avaliam especialistas

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Giovanna Colossi
04/03/2026, 20:43 • Atualizado em 06/03/2026, 16:06
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Fumaça após ataque de Israel e Estados Unidos a Teerã, capital do Irã | Reprodução/Reuters

Fumaça após ataque de Israel e Estados Unidos a Teerã, capital do Irã | Reprodução/Reuters

A guerra no Oriente Médio está prestes a completar uma semana, após os ataques iniciados por Estados Unidos e Israel contra o Irã. Desde então, o conflito ganhou escala regional: Teerã respondeu atingindo bases norte-americanas e infraestrutura estratégica em países como Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Jordânia, Kuwait, Omã, Arábia Saudita, Síria e até Chipre. O Hezbollah também passou a atacar Israel, que reagiu com a invasão do Líbano.

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Em paralelo, Reino Unido autorizou o uso de bases em Chipre e avalia enviar navios de guerra, enquanto a França deslocou sistemas de defesa aérea para a ilha e enviou caças aos Emirados para proteger suas bases.

Para especialistas ouvidos pelo SBT News, a estratégia iraniana é clara: prolongar a guerra para elevar os custos políticos e econômicos para Washington, Tel Aviv e seus aliados no Golfo, e, se necessário, para a economia global.

“O objetivo do Irã é forçar os aliados americanos na Europa e na região a pressionarem pelo fim dos bombardeios”, afirmou o professor de Relações Internacionais Andrew Traumann, do Centro Universitário Curitiba.

Segundo ele, a estratégia passa por atingir a economia, inclusive com a ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 10% do petróleo transportado por navios no mundo, já que o país “não tem capacidade militar de causar danos significativos a Israel”.

A pesquisadora sobre Oriente Médio, Muna Omran, concorda que o foco é elevar o custo regional da guerra. “Eles querem forçar sim essa negociação e mostrar aos países do Golfo que todo mundo tem a perder”, disse. Para ela, ao ameaçar petroleiros e impactar o comércio, Teerã sinaliza que pode desestabilizar toda a região.

Na avaliação da pesquisadora, o prolongamento do conflito é parte essencial do cálculo estratégico de Teerã. Segundo Omran, uma guerra longa pode desgastar politicamente o presidente Donald Trump, sobretudo em ano eleitoral no país.

"Para o Irã é interessante o prolongamento, primeiro por uma questão estratégica de enfraquecer Israel o máximo que eles puderem. Eles podem até não ganhar a guerra, mas conseguem enfraquecer, vulnerabilizar Israel, conseguem enfraquecer o Trump e conseguem se sentar à mesa de negociação para pelo menos tirar o embargo. Tirando o embargo econômico, já melhora significativamente a vida do regime."

O mesmo é dito por Traumann, que explica que, se o Irã forçar os EUA a colocar “soldados em solo”, isso significaria alto gasto público e desgaste diante da opinião pública norte-americana.

“É a pior coisa que poderia acontecer para os Estados Unidos: colocar tropas em solo, soldados em solo, porque isso significaria um enorme gasto público do Estado norte-americano no ano em que temos eleições legislativas. Além disso, desagrada muito a opinião pública norte-americana, que não quer saber dos Estados Unidos se envolvendo em novas guerras”, avalia.

Se a tentativa de pressão do Irã falhar, o desfecho pode ser preocupante, segundo os especialistas. Para Omran, o isolamento internacional pode levar o Irã a radicalizar sua política nuclear.

“Se eles não conseguirem, o que vai acontecer? Eles vão se isolar. E aí sim que eles vão produzir as armas nucleares. Porque até agora eles não têm”, afirmou a professora, que deu como exemplo o caso da Coreia do Norte.

Ela explicou ainda que a cultura xiita faz com que o Irã enxergue esse tipo de confronto como uma disputa existencial. Segundo Omran, dentro do xiismo existe a chamada “pedagogia do martírio”, inspirada no martírio do imã Husayn, neto do profeta Maomé. “Aprende-se desde cedo que, se for para morrer pela dignidade, é melhor morrer lutando do que morrer envergonhado”, disse.

Por isso, na avaliação da pesquisadora, mesmo diante dos riscos e perdas, Teerã tende a manter o confronto. “Eles têm consciência do que podem perder, mas estão indo com tudo. Para o iraniano, o prolongamento da guerra é importante”, concluiu.

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