Apesar de Ibovespa recorde, resgates em fundos de ações somaram R$ 54 bi em 2025
Alta do Ibovespa foi resultado da valorização de papéis concentrados, enquanto aversão ao risco impulsionou resgate nos fundos


Exame.com
O Ibovespa bateu de longe a renda fixa em 2025. Enquanto o principal índice de referência da B3 subiu 34%, a Selic terminou o ano em 15%. Pela primeira vez na história, o Ibovespa ultrapassou a marca dos 160 mil pontos — e, neste ano, já há analistas falando de 220 mil pontos.
Entretanto, o recorde não impediu os resgates nos fundos de ações, que somaram R$ 54,4 bilhões em 2025, segundo a Anbima.
Juros altos no Brasil e nos Estados Unidos, desconfiança com o fiscal, tarifaço, dólar alto e conflitos geopolíticos tornaram os investidores mais avessos ao risco, o que impulsionou a saída de capital dos fundos de ações. Na outra ponta, previsibilidade e segurança drenaram os recursos para os fundos de renda fixa.
O primeiro semestre foi o que mais sofreu. Isso porque havia resquícios do fim de 2024, quando a bolsa estava nos 119 mil pontos e o dólar acima de R$ 6, somado as incertezas com Donald Trump, presidente dos EUA. Com isso, houve uma corrida para os resgates.
Mas há ainda outros fatores.
"Para você explicar a dicotomia, bolsa em alta e resgate de fundo de ações, é porque são os investidores ocasionais que tiraram o dinheiro", diz Flávio Conde, head de renda variável da Levante.
Segundo ele, há três tipos de investidor pessoa física, o ocasional, que vem quando os juros caem — e esse entra via fundo —, tem o investidor mais especulador, que fica comprando e vendendo toda semana e tem o que fica na bolsa aconteça o que acontecer.
Gringo no positivo e local castigado
Essa complexidade entre bolsa em alta e resgate dos fundos de ações também pode ser explicada pela revisão do portfólio global, que trouxe o estrangeiro para os emergentes, e não a melhora do sentimento local.
Só em 2025, os gringos entraram com quase R$ 26 bilhões na B3, calculou o Itaú BBA em relatório. "Pouquíssimo fluxo que sai da revisão desses portfólios globais e vem para emergentes já faz uma diferença enorme para o Brasil", comenta Daniel Utsch, gestor de renda variável da Nero Capital.
Mas se o Ibovespa bateu a renda fixa, por que isso não atraiu fluxo para os fundos de ações?
Segundo Adriana Ricci, fundadora da SHS Investimentos, a alta do Ibovespa foi concentrada em poucos papéis, então muitos fundos não capturaram o índice cheio. "O investidor pessoa física olha mais o extrato do banco do que o gráfico", destaca.
O índice subiu, mas a experiência do investidor médio não foi tão positiva. "Sentiu a alta do Ibovespa quem estava mais nas operações diárias com papéis específicos", complementa. Ou seja, tal movimento castigou os investidores de varejo que estavam via fundo — enquanto com os gringos, alocados direto, foi o inverso.
Eles vão se recuperar?
Segundo especialistas, os fundos podem se recuperar, mas o movimento tende a ser gradativo. Para Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, a queda de juros pode ajudar os fundos de ações, mas ainda se fala em um corte pequeno, de cerca de quatro pontos no máximo.
"Isso pode fazer com que investidores pessoas físicas voltem a considerar a aba de renda variável nos aplicativos, nos sites das corretoras dos bancos, mas eu ainda entendo que não será uma grande mudança", pontua.
Rodrigo Antunes, economista e sócio da WIT Assessoria de Investimentos, concorda sobre a recuperação dos fundos de ações, mas enfatiza:
"'Bombar' depende de condições como a queda consistente dos juros, não só promessa; uma melhora clara do fiscal, reduzindo prêmio de risco e fluxo estrangeiro mais estrutural, não só tático", explica.
De acordo com ele, se isso acontecer, os fundos de ações tendem a entregar bons retornos em 2026. "Mas o movimento costuma ser gradual, não explosivo como em ciclos antigos."
E há tempo para entrar na renda variável? Apesar do recorde, a bolsa ainda está barata, tanto em relação a seu histórico, quanto em relação a seus pares. "Ainda existe espaço para continuação do movimento visto no ano passado caso o cenário permita", ressalta Nícolas Merola, analista da EQI Research.
"Se você olha para uma ótica de que bolsa está na máxima, diz que não é a melhor hora para se posicionar, mas quando você olha os fundamentos de algumas empresas em uma teoria de médio e longo prazo, é um bom momento de compra, sem dúvida", complementa Daniel Teles especialista e sócio da Valor Investimentos.







