Brasil

Discord: como funciona e por que virou alvo de autoridades?

ANPD determinou a suspensão de transmissões ao vivo da plataforma após caso envolvendo morte de adolescente de 13 anos

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Caroline Vale
Ilustração com o logotipo do Discord. | REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração

Ilustração com o logotipo do Discord. | REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração

O Discord, que nasceu como uma ferramenta de comunicação para jogadores, se transformou em uma das principais plataformas de comunidades na internet. O serviço permite conversar por texto, voz e vídeo, participar de grupos sobre diferentes assuntos e transmitir conteúdos ao vivo.

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Nesta quarta-feira (12), uma decisão da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a suspensão das transmissões ao vivo do Discord no país preventivamente. A medida ocorre após o caso da morte de uma adolescente de 13 anos, que está sendo investigado pelas autoridades. Segundo a ANPD, o funcionamento das transmissões apresenta riscos para a proteção de crianças e adolescentes.

A determinação não significa que o Discord será bloqueado no Brasil. A medida mira especificamente as transmissões ao vivo e recursos semelhantes. A plataforma deverá comprovar a adoção de medidas eficazes de segurança antes de voltar a oferecer essas funções no país.

Mas, afinal, o que é o Discord?

A empresa descreve o serviço como uma plataforma utilizada por mais de 90 milhões de pessoas para conversar por voz, vídeo e texto, especialmente em torno de jogos.

Na prática, o Discord funciona de maneira diferente de redes sociais tradicionais como Instagram ou TikTok. Em vez de ter como principal objetivo publicar conteúdo para conquistar seguidores, a plataforma é organizada em comunidades, chamadas de servidores.

Cada servidor pode ter diferentes canais. Um grupo pode, por exemplo, ter um canal para conversar por texto, outro para partidas de um jogo e outro para chamadas de voz. A versão básica do Discord é gratuita, mas a plataforma oferece planos pagos.

Criada inicialmente para jogos

Os fundadores Jason Citron e Stanislav Vishnevskiy trabalhavam com desenvolvimento de jogos e perceberam uma dificuldade comum: era complicado encontrar uma ferramenta confiável para conversar com amigos enquanto jogavam.

Em 2015, eles lançaram a primeira versão do Discord, inicialmente como um aplicativo de comunicação voltado para jogadores de computador e celular. Com o tempo, porém, o serviço deixou de ser apenas um "chat para gamers".

Hoje, o próprio Discord apresenta a plataforma como um espaço usado por comunidades com interesses muito diferentes. Há grupos relacionados a jogos, música, estudos, programação, idiomas, arte, entretenimento e outros assuntos.

Como o Discord funciona?

O ponto central são os servidores. Um servidor é uma comunidade que pode ser criada por uma pessoa, empresa, grupo ou organização. Dentro dele, os administradores podem criar canais específicos para diferentes conversas.

Os canais podem ser:

  • de texto, para mensagens;
  • de voz, para conversas em tempo real;
  • de vídeo, para chamadas;
  • de transmissão, para compartilhar uma tela ou conteúdo ao vivo.

Também existem bots e aplicativos que podem adicionar funções aos servidores, como jogos, ferramentas de moderação, organização de atividades e outros recursos. É possível ainda conversar individualmente com outros usuários, fora dos servidores.

Discord: o que é e como funciona. | Juca Varella/Agência Brasil
Discord: o que é e como funciona. | Juca Varella/Agência Brasil

O que são as lives do Discord?

As transmissões ao vivo são conhecidas principalmente pelo recurso Go Live. Diferentemente de uma live aberta para qualquer pessoa em uma rede social, a transmissão do Discord pode acontecer dentro de um servidor ou ambiente privado. Um usuário pode compartilhar, por exemplo, a tela de um jogo e transmitir o que está fazendo para outras pessoas que estão naquele espaço.

O próprio Discord explica que a ferramenta permite transmitir jogos e aplicativos para amigos, tanto no computador quanto em dispositivos móveis.

É justamente esse recurso que está no centro da decisão da ANPD no Brasil.

Segundo a ANPD, a forma como as transmissões funcionam dificulta a identificação e a interrupção, em tempo real, de conteúdos que possam colocar crianças e adolescentes em risco. A arquitetura do Discord também foi apontada como um fator que dificulta a análise do conteúdo durante a transmissão.

"Pela arquitetura técnica adotada, o Discord não tem acesso ao conteúdo das transmissões de vídeo enquanto elas ocorrem, o que inviabiliza a utilização, no âmbito do servidor, de mecanismos de análise do conteúdo audiovisual e detecção em tempo real de violações. A plataforma depende de sistemas automatizados falhos e de denúncias dos próprios participantes desses ambientes voltados à prática dessas violações", disse a agência.

Quem pode entrar no Discord?

O Discord possui idade mínima para utilização. Para a maioria dos países, a regra geral da plataforma estabelece 13 anos como idade mínima, embora existam países com exigências diferentes.

Isso não significa que todos os usuários tenham acesso aos mesmos espaços. Conteúdos, canais e servidores classificados como restritos para adultos exigem mecanismos de confirmação de idade.

No Brasil, o Discord afirma que passou a implementar, a partir de março de 2026, mudanças relacionadas ao ECA Digital, incluindo configurações de segurança padrão para adolescentes, restrições de idade e mecanismos de verificação.

O que os jovens fazem no Discord?

Embora a plataforma tenha surgido ligada aos games, os adolescentes podem usar o Discord para muito mais do que jogar.

Entre as atividades estão conversar com amigos, participar de comunidades, jogar, assistir ou compartilhar conteúdos, estudar e acompanhar grupos relacionados a interesses específicos.

O próprio Discord cita comunidades voltadas a estudos, idiomas, desenvolvimento de software, música e diferentes hobbies, além dos jogos.

Essa característica é uma das razões pelas quais o Discord deixou de ser visto apenas como uma ferramenta para jogadores e passou a ocupar um espaço mais amplo na comunicação online.

Quais mecanismos de segurança o Discord possui?

A plataforma afirma manter uma estrutura de segurança que inclui filtros de conteúdo, ferramentas de denúncia, moderação, bloqueio de usuários, restrições por idade e mecanismos específicos para adolescentes.

Em 2026, o Discord ampliou as configurações de segurança padrão para adolescentes. Entre as medidas estão filtros para conteúdos sensíveis, restrições a espaços destinados a adultos e uma caixa separada para solicitações de mensagens de pessoas que o usuário talvez não conheça.

A empresa também utiliza mecanismos de confirmação de idade. Em determinados casos, usuários podem ser submetidos a métodos de estimativa ou verificação de idade. O Discord afirma que, na estimativa facial, o processamento ocorre no próprio dispositivo e que a imagem do rosto não é enviada para a empresa. No caso de documentos, a companhia afirma que eles são utilizados para obter a idade e depois apagados.

A plataforma também possui regras específicas contra práticas como exploração sexual de menores, aliciamento, sextorsão e conteúdos que envolvam sexualização de crianças.

Jason Citron foi o CEO desde a criação da empresa, mas deixou o cargo em abril de 2025. Humam Sakhnini assumiu como CEO, enquanto Citron permaneceu no conselho como assessor do executivo e Vishnevskiy como diretor de tecnologia. A empresa recebeu diferentes investimentos ao longo dos anos e continua sendo uma companhia privada.

Polêmica no Brasil

O Discord já apareceu em diferentes investigações relacionadas à circulação de conteúdos criminosos. Em maio, uma mulher foi detida em São Paulo sob suspeita de produzir e comercializar vídeos de maus-tratos a animais para compradores na Europa. Segundo a Polícia Civil, as gravações, que mostravam agressões contra pintinhos e coelhos, eram comercializadas pela internet por meio do Discord.

A crise atual começou após a morte de uma adolescente de 13 anos, em julho de 2026. O caso envolve uma investigação sobre possíveis estímulos à automutilação e ao suicídio dentro de comunidades do Discord. A Polícia Civil e o Laboratório de Operações Cibernéticas investigam o episódio.

Quando soube do ocorrido, a primeira-dama Janja Lula da Silva defendeu o bloqueio da plataforma e pediu providências para aumentar a proteção de crianças e adolescentes. A manifestação abriu uma discussão dentro do governo.

Em seguida, a ANPD e a Advocacia-Geral da União (AGU) abriram um processo de fiscalização para verificar se a plataforma possui mecanismos adequados de prevenção, identificação e remoção de conteúdos que possam colocar crianças e adolescentes em risco. O Discord, então, apresentou na segunda-feira (11) uma proposta para reforçar a segurança dos usuários, que ainda era analisada pelas autoridades.

Nesta quarta, a ANPD determinou a suspensão das transmissões ao vivo do Discord no Brasil. A empresa terá três dias úteis para cumprir a determinação.

"As lives e outros recursos de compartilhamento de vídeo equivalentes deverão permanecer suspensos até que a empresa comprove a adoção de medidas para proteger crianças e adolescentes", diz a agência na decisão. "A medida cautelar de suspensão da funcionalidade de lives foi determinada pela Superintendência de Fiscalização (SFI-ANPD) em função de evidências robustas de que a empresa não adotou medidas razoáveis para prevenir e mitigar riscos de acesso, exposição, recomendação ou facilitação de contato com conteúdos ou práticas que representem graves violações de direitos de crianças e adolescentes no âmbito do seu serviço", completou.

Ainda segundo a ANPD, a plataforma tem sido reiteradamente usada para a prática de crimes graves, nos últimos anos, colocando em risco a integridade física e mental dos menores de 18 anos.

O que diz o Discord?

Em nota ao SBT News, a empresa informou que "recebeu a determinação da ANPD" e que está "cuidadosamente analisando seu conteúdo". O Discord também contestou a avaliação feita pelo órgão regulador. Veja na íntegra:

“Recebemos a determinação da ANPD e estamos cuidadosamente analisando seu conteúdo. A caracterização do Discord feita pela ANPD não reflete a plataforma que construímos nem os investimentos que temos feito na segurança dos usuários. O Discord não tolera grupos ou indivíduos que promovem ou incentivam a violência. Investigamos rapidamente e removemos o servidor privado, acessível somente por convite, envolvido no caso pouco depois de sua criação, e seguimos cooperando com as autoridades policiais na investigação. Além disso, nossa investigação encontrou evidências de que a atividade criminosa foi coordenada em outras plataformas antes da criação do servidor no Discord e continuou nessas plataformas após os indivíduos envolvidos terem sido banidos do Discord.

Temos o compromisso com a segurança dos nossos usuários e contamos com equipes dedicadas em desarticular a atuação desses grupos, derrubar conteúdos que violem nossas políticas e tomar medidas contra os responsáveis por essas condutas em nossa plataforma. Esperamos continuar nossas conversas com formuladores de políticas públicas no Brasil para promover uma experiência online mais segura para todos os usuários, tanto no Discord quanto em toda a internet.”

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