Saúde

Covid longa pode afetar cérebro e comportamento, aponta estudo internacional

Análise de pesquisas com 14 especialistas, incluindo uma pesquisadora brasileira, identificou mais de 200 sintomas mas ainda falta um padrão no diagnóstico

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A Covid longa tem mais de 200 sintomas, como fadiga, falta de ar e questões neuropsiquiátricas, que vão de disfunção cognitiva, distúrbios do sono e depressão até a perda de memória | Divulgação Agência SP

A Covid longa ainda atinge milhões de pessoas no mundo e pode provocar sintomas físicos e também alterações no cérebro e no comportamento. É o que mostra uma revisão publicada na revista científica Nature Reviews Disease Primers, que reuniu 14 especialistas de diferentes países, entre eles a neurologista brasileira Clarissa Yasuda, da Unicamp.

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Mesmo após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar, em 5 de maio de 2023, o fim da pandemia de Covid-19, os efeitos da doença continuam. Segundo o estudo, entre 80 milhões e 400 milhões de pessoas no mundo desenvolveram a chamada Covid longa. No Brasil, a estimativa é de cerca de 14 milhões de casos.

A condição está associada a mais de 200 sintomas. Os mais comuns incluem cansaço persistente e falta de ar, além de efeitos no cérebro, como dificuldade de concentração, falhas de memória, distúrbios do sono e depressão. Em muitos casos, esses problemas comprometem tarefas do dia a dia e o desempenho no trabalho.

Os pesquisadores também reuniram as principais explicações para a doença. Entre elas estão a possibilidade de o vírus permanecer no organismo por mais tempo, a reativação de vírus que ficam inativos no corpo, como os da família do herpes, e uma resposta inflamatória persistente do sistema imunológico. O estudo cita ainda alterações na coagulação do sangue, desequilíbrios na microbiota intestinal e possíveis mudanças no cérebro, tanto na estrutura quanto na forma como diferentes áreas se comunicam.

Apesar dos avanços, ainda não há uma definição única para a Covid longa. Segundo os autores, é necessário padronizar os critérios de diagnóstico e até a forma como a doença é nomeada, além de ampliar os estudos clínicos sobre possíveis tratamentos.

Hoje, o diagnóstico é feito com base na avaliação clínica. Não há exames específicos ou biomarcadores para confirmar a doença. Os médicos consideram o histórico de infecção por Covid-19 e a presença de sintomas que geralmente surgem até três meses após a infecção inicial e duram pelo menos dois meses. Outros problemas de saúde precisam ser descartados, o que pode exigir exames de sangue, imagem e avaliação cardíaca.

Também não existe um tratamento específico. Por isso, segundo os pesquisadores, a principal forma de reduzir o risco é prevenir infecções e reinfecções, incluindo a vacinação e outras medidas de proteção.

Impacto na vida e no trabalho

Além dos efeitos na saúde, a Covid longa pode afetar a rotina e a vida profissional. Muitos pacientes relatam dificuldade para retomar atividades e manter o mesmo ritmo de antes da doença.

Um estudo publicado em 2024 estimou que a condição levou à perda de mais de 803 milhões de horas de trabalho no Brasil em um ano, com impacto superior a US$ 11 bilhões.

Os sintomas podem variar ao longo do tempo, com períodos de melhora e piora, o que torna a recuperação mais difícil.

A neurologista Clarissa Yasuda também teve Covid longa. Após uma infecção leve em 2020, ela passou a ter dificuldades cognitivas que afetaram suas atividades acadêmicas. Segundo ela, a recuperação exigiu tempo e adaptação.

Desafios no atendimento

Pacientes com Covid longa ainda enfrentam dificuldades para conseguir diagnóstico e atendimento adequado. Há relatos de falta de reconhecimento da condição, além de situações de estigma e discriminação.

Especialistas defendem que o acompanhamento seja feito por equipes com profissionais de diferentes áreas da saúde.

A Covid longa passou a ser monitorada no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2021. Em 2025, um boletim estimou cerca de 13,8 milhões de casos no Brasil, com maior incidência entre mulheres e pessoas de 30 a 49 anos.

Para os pesquisadores, avançar no entendimento da doença depende de critérios mais claros e de mais estudos, com participação de diferentes perfis de pacientes.

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