Entenda como funcionava o suposto esquema de pagamentos indevidos de Vorcaro a Ciro Nogueira, descoberto pela PF
Transações envolviam mesada, viagens de luxo e vendas de empresas com deságio; defesa do senador negou repasses mensais de Vorcaro


Eduardo Gayer
A Polícia Federal descobriu um suposto esquema de pagamentos indevidos de Daniel Vorcaro, ao presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), em troca de apoio político no Congresso aos interesses do banco Master.
De acordo com a investigação, relatada em decisão do ministro André Mendonça (STF), Vorcaro utilizava uma estrutura diversificada para os repasses, que envolvia empresas, fundos e até pagamentos diretos para ocultar a origem do dinheiro.
A BRGD S.A. é apontada como a "fonte primária dos valores movimentados" na engrenagem ilícita. Essa empresa era controlada formalmente pelo pai de Felipe Vorcaro, um primo do banqueiro, e realizava os pagamentos mensais de R$ 300 mil ou mais a Ciro Nogueira.
Esses pagamentos eram feitos para a empresa CNFL Empreendimentos Imobiliários, registrada formalmente no nome de Raimundo Neto, irmão do senador.
Em outra frente, a CNFL comprou 30% das ações da Green Investimentos S.A, outra empresa ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro. A transação foi de R$ 1 milhão, valor abaixo do valor de mercado, apontado em R$ 13 milhões.
Primo do banqueiro, Felipe Vorcaro, inclusive, atuou como presidente da Green Investimentos S.A. de novembro de 2021 até 19 de novembro de 2025, um dia depois da deflagração da primeira fase Operação Compliance Zero. Apontado como operador do núcleo financeiro do esquema, Felipe Vorcaro foi preso temporariamente nesta quinta-feira (7).
A Green Investimentos era controlada pelo fundo Green Energia Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, o que dificultava o rastreio.
Mendonça determinou a suspensão das quatro empresas - BRGD, Green Investimentos e Green Energia, ligadas a Vorcaro; e CNFL, ligada a Ciro Nogueira - por entender que todas funcionavam como “extensões da organização criminosa, destinadas à ocultação, circulação e formalização aparente de recursos de origem ilícita”.
Além disso, Vorcaro bancava luxos pessoais de Ciro Nogueira de forma direta, de acordo com a investigação, incluindo hospedagens no hotel Park Hyatt em Nova York, jantares em restaurantes caros e voos privados.
Em um diálogo apreendido pela PF, Vorcaro orienta um intermediário, Léo Serrano, a continuar pagando as contas de restaurante do senador e entregar seu cartão de crédito pessoal para uma viagem do parlamentar a St. Barths, uma ilha no Caribe de mar azul turquesa.
“LÉO SERRANO: “Só uma pergunta rápida... eh pros meninos continuarem pagando conta dos restaurantes do Ciro/Flávia até Sábado?”
DANIEL VORCARO responde: “Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths”.
A investigação da PF ainda aponta “além de indícios de recebimento de numerário em espécie”, ou seja, em dinheiro vivo, por parte de Ciro Nogueira. Nessa modalidade de pagamentos indevidos, Bernardo Rodrigues de Oliveira Filho fazia os depósitos de maneira fracionada.
“O referido investigado é descrito como agente operacional incumbido da inserção de numerário em espécie no sistema financeiro formal. A representação assinala que ele atuou mediante depósitos fracionados de valores expressivos, em padrão típico de interposição material voltada à mesclagem de recursos e à mitigação da rastreabilidade da origem ilícita”, diz Mendonça sobre Oliveira Filho.
Outro lado
O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, disse que o senador Ciro Nogueira nunca recebeu repasses de Daniel Vorcaro em troca de vantagens indevidas. “Ele certamente não receia nenhuma mesada nesse valor”, afirmou.
Kakay também disse que Ciro e Vorcaro mantinham uma “relação natural” entre um senador e banqueiro.









