Política

PL que equipara aborto a homicídio pode manter vítimas presas por mais tempo que estupradores; entenda

Na quarta-feira (12), a Câmara dos Deputados definiu urgência na tramitação da pauta; a expectativa é de que seja votada já na próxima semana

C
Carlos Catelan
13/06/2024, 14:58 • Atualizado em 13/07/2024, 12:44
compartilhar
PL quer equiparar aborto a homicídio mesmo em caso de estupro, quando é permitido por lei. | Pexels

PL quer equiparar aborto a homicídio mesmo em caso de estupro, quando é permitido por lei. | Pexels

SBT News Logo

Acompanhe o SBT News nas TVs por assinatura Claro (586), Vivo (576), Sky (580) e Oi (175), via streaming pelo +SBT, Site e YouTube, além dos canais nas Smart TVs Samsung e LG.

Siga no Google Discover

A Câmara dos Deputados definiu urgência na tramitação do Projeto de Lei (PL Nº 1.904 de 2024) que equipara o aborto de gestação acima de 22 semanas ao homicídio simples. Agora, o texto deve evoluir com maior agilidade para o plenário – dispensando a passagem pelas comissões da Casa. A expectativa é de que seja votado já na próxima semana.

A proposta é uma iniciativa das alas mais conservadoras e religiosas, sobretudo evangélicas, do Congresso Nacional. Parlamentares querem “testar” a isonomia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em "pautas de costume".

Hoje, o aborto legal é permitido em três situações (independentemente do tempo de gestação): se o feto for anencéfalo (má formação que inviabiliza a vida fora do útero), quando impuser risco de vida à gestante e/ou a gravidez for decorrência de um estupro.

Com exceção destes cenários, o aborto é considerado crime.

O texto em debate define:

  • Pessoa gestanteprisão de 6 a 20 anos (pena mínima e máxima), independentemente se realizou a retirada do feto sozinha ou com auxílio de terceiro. Antes, era estabelecida pena de 1 a 3 anos em regime semiaberto ou aberto;
  • Pessoa que efetua o aborto — diferentemente do que é hoje (onde se analisa a vontade da operada), a pena para quem realizar com o consentimento da gestante passa de 1 a 4 anos para 6 a 20 anos, mesma pena para quem realizar o procedimento sem consentimento (hoje fixada em 3 a 10 anos).

A proposta que tramita no Legislativo limita o direito ao aborto até a 22ª semana, mesmo nos casos em que há permissão legal. Ou seja, mesmo em caso de estupro, por exemplo, a vitima passaria a ser obrigada a prosseguir com a gestação. O mesmo em casos de meninas vítimas de violência.

Vítima de aborto pode ficar mais tempo presa do que agressor

O crime de agressão sexual (estupro), contido no artigo nº 213 do Código Penal, pode encarcerar agressores por, no mínimo, 6 anos, com pena máxima de 10 anos – ou seja, a metade da pena máxima prevista para as mulheres vítimas de violência. As exceções são quando a vítima é menor de idade, quando a pena máxima chega a 12 anos; quando é incapaz de oferecer resistência (estupro de vulnerável), 15 anos; ou quando, além de não ter como se defender, a vítima sofre lesões graves, elevando a pena máxima para 20 anos.

Caso o projeto de lei seja aprovado e se transforme em lei, o aborto seria equiparado ao homicídio simples, do artigo nº 121 do Código Penal. A pena, nesse caso, varia entre 6 e 20 anos de prisão.

Em um caso hipotético, se uma mulher adulta, vítima de estupro, interromper a gravidez após a 22ª semana, é possível que ela seja condenada a 20 anos de prisão, enquanto o seu estuprador ficaria entre 6 e 10 anos preso.

Para a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, o PL “revitimiza meninas e mulheres vítimas de estupro, impondo mais barreiras ao acesso ao aborto legal”. O mesmo posicionamento da deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP), que criticou a aprovação. “Criança não é mãe. Estuprador não é pai", disse.

Opositores do governo consideram o tema “inegociável”. Ao Brasil Agora de sexta-feira (7), o deputado Pastor Eurico (PL-PE), presidente da Comissão de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família da Câmara, disse que a ala não irá recuar. “ Não negociamos pontos principais daquilo que defendemos como valores morais, espirituais, valores humanos", afirmou.

Eurico comentava a suspensão judicial da resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que proíbe a assistolia fetal em gravidez acima de 22 semanas.

O dep. Pastor Eurico também assina o documento do PL, com outros 32 congressistas.

A polêmica sobre a assistolia fetal

Assim como na discussão sobre o porte de maconha, o assunto também é um ponto de embate entre Legislativo e Judiciário. Principalmente por duas ações:

A assistolia fetal é o procedimento em que se induz a parada cardíaca do feto a ser retirado. A prática que é recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para abortos em gestações acima de 22 semanas. Em casos com menos tempo de gestação, o Ministério da Saúde orienta que o médico responsável ofereça à mulher a opção de escolha da técnica: o abortamento farmacológico (induzido por medicamentos), procedimentos aspirativos (manual intrauterina) ou dilatação seguida de curetagem (raspagem de material na cavidade uterina).

  • ADPF nº 442: há também na Suprema Corte, uma ação (ADPF nº 442) que pode descriminalizar a retirada do feto feita por gestantes com até 12 semanas. A ministra aposentada Rosa Weber, à época presidente da Corte, era relatora do processo e registrou seu voto a favor da descriminalização antes de sair do colegiado. Desde então, a ação está parada após pedido de destaque do atual presidente do Supremo, Luís Roberto Barroso. Ele afirmou não ter interesse de retomar o julgamento.

Para Barroso, não cabe neste momento ao STF decidir sobre uma prática a que a maioria da população é contra. No texto que justifica o PL, deputados utilizam parte do voto da ministra aposentada.

Leia mais

Ver tudo
Imagem da notícia: EUA atacam radares no Irã e abatem drones em Ormuz

EUA atacam radares no Irã e abatem drones em Ormuz

Imagem da notícia: Fifa libera entrada com garrafa de água nos estádios da Copa

Fifa libera entrada com garrafa de água nos estádios da Copa

Imagem da notícia: Governo prorroga prazo de inscrição do Enem 2026

Governo prorroga prazo de inscrição do Enem 2026

Imagem da notícia: Defesa de Robinho tenta facilitar progressão de pena

Defesa de Robinho tenta facilitar progressão de pena

Imagem da notícia: EUA atacam radares no Irã e abatem drones em Ormuz

EUA atacam radares no Irã e abatem drones em Ormuz

Imagem da notícia: Fifa libera entrada com garrafa de água nos estádios da Copa

Fifa libera entrada com garrafa de água nos estádios da Copa

Imagem da notícia: Governo prorroga prazo de inscrição do Enem 2026

Governo prorroga prazo de inscrição do Enem 2026

Imagem da notícia: Defesa de Robinho tenta facilitar progressão de pena

Defesa de Robinho tenta facilitar progressão de pena

Últimas notícias

Dezenas de pessoas morrem de sede no deserto do Saara

Tragédia ocorreu após caminhão que transportava cidadãos nigerianos quebrar em uma área remota perto das fronteiras do Mali e da Argélia

Lula sanciona Lei que garante renovação automática da CNH

Legislação alcança apenas os bons condutores, sem infrações nos últimos 12 meses

Paramount e Warner: Fusão pode ter novo desafio nos EUA

Com governo Trump menos rigoroso, autoridades estaduais buscam ampliar atuação na fiscalização da concorrência

Bolsonaro segue em recuperação e tem crises de soluços

Ex-presidente se encontra no 35º dia após cirurgia no ombro direito e permanece em prisão domiciliar por motivos de saúde, segundo boletim médico

Dólar fecha a R$ 5,15, maior nível em dois meses

Moeda americana acumulou alta de 2,26% na semana; real teve um dos piores desempenhos entre emergentes

Congo alerta para rápida disseminação comunitária do Ebola

71 novos casos de Ebola foram confirmados em um período de 24 horas