Cidades

"O cara vai lavar a mão": câmeras corporais mostram que PM questionou banho de tenente-coronel

Relatório com imagens de policiais revela diálogos sobre influência de oficial e diálogos tensos no local da morte de soldado Gisele

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Emanuelle Menezes, Fabio Diamante, Robinson Cerantula
20/03/2026, 18:31 • Atualizado em 20/03/2026, 18:37
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Tenente-coronel é gravado por câmera corporal de PM após tomar banho | Reprodução

Tenente-coronel é gravado por câmera corporal de PM após tomar banho | Reprodução

O SBT News teve acesso ao relatório das câmeras corporais dos policiais que atenderam a ocorrência envolvendo a soldado Gisele Alves Santana. O documento aponta que o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto teria se beneficiado da hierarquia militar no momento do atendimento – inclusive para permanecer na cena do crime e tomar banho.

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Segundo os próprios agentes, a atitude não ocorreria se ele não fosse um oficial. Os registros mostram que a conduta do tenente-coronel chamou atenção dos policiais ainda durante o socorro à soldado, que foi encontrada baleada na cabeça no dia 18 de fevereiro no apartamento do casal, no Brás, região central de São Paulo.

"O cara vai lavar a mão"

As câmeras registraram quando um cabo da PM questionou o fato do tenente-coronel querer tomar banho. Com receio de que isso comprometesse provas do crime, o policial de menor patente diz: "O senhor não saiu do banho agora? O senhor falou que estava tomando banho".

Geraldo Neto responde: "Irmão, eu entrei no banho, eu tava aqui tomando banho, daí eu escutei o barulho e eu abri a porta, quando abri eu vi minha esposa, peguei essa bermuda que tava aqui em cima, vesti a cueca e a bermuda. Eu não cheguei a tomar banho, eu nem fiz a barba ainda ó, a barba eu faço durante o banho, fazia um minuto que eu tava embaixo do chuveiro, irmão".

O diálogo segue.

Cabo: "Se o senhor puder só colocar uma camiseta."

Tenente-coronel: "Irmão, eu tenho 34 anos de serviço. Eu sei o que eu to falando. Eu vou tomar banho, irmão!".

Na sequência, o cabo se vira para um capitão e reforça:

"O cara vai lavar a mão, caralh*".

O exame residuográfico, feito nas mãos do tenente-coronel Geraldo Neto depois, não encontrou resquícios de pólvora. No banheiro onde ele tomou banho, exames feitos com luminol apontaram vestígios de sangue no registro do chuveiro e no box.

Cabo da PM questionou o fato do tenente-coronel Geraldo Neto querer tomar banho | Reprodução
Cabo da PM questionou o fato do tenente-coronel Geraldo Neto querer tomar banho | Reprodução

Tensão causada pela hierarquia

Nas gravações, policiais comentam entre si a atuação do tenente-coronel e sugerem que a posição hierárquica influenciou diretamente na forma como a ocorrência foi conduzida.

Em um dos trechos, um tenente da equipe que atendeu a ocorrência afirma que determinadas atitudes não seriam permitidas a uma pessoa comum. Ele também reforça que seria necessária a presença de algum oficial de patente mais elevada no local.

"Eu preciso que alguém acima venha, porque se fosse uma ocorrência comum a gente não deixa tomar banho, por causa de (exame) residuográfico e tudo mais, entendeu? Eu não tenho como virar para um coronel e dizer que ele não vai tomar banho", disse o tenente ao telefone.

Uma conversa entre um cabo e o tenente também chama atenção:

Cabo: "Ele vai fazer residuográfico antes, né?"

Tenente: "Depende do que o perito falar."

Cabo: "Vai deixar ele tomar banho e tudo?"

Tenente: "Ah, não tem como ele ir assim."

Cabo: "Se tomar banho, vai perder tudo os baguio (vestígios) da mão. É tenente-coronel, né, porque se fosse um paisano (civil) a gente já arrasta pra perto... porque as conversas dele tá estranha."

Tenente-coronel é gravado por câmera corporal de PM após tomar banho | Reprodução
Tenente-coronel é gravado por câmera corporal de PM após tomar banho | Reprodução

Postura no local também chamou atenção

As conversas entre os policiais também indicam que o comportamento do tenente-coronel foi considerado incompatível com a gravidade da situação.

Segundo os registros, ele foi visto no corredor, sem camisa e ao telefone, enquanto a vítima ainda apresentava sinais vitais dentro do apartamento. Os agentes questionam o fato dele não ter tentado prestar socorro à esposa.

"Ele não está com marcas de sangue de alguém que tenta massagem cardíaca, que pula em cima da pessoa, não tem nada disso, comando. É estranho", diz o tenente em ligação com uma tenente-coronel.

Em conversa com uma sargento da Corregedoria, no corredor do prédio, o tenente descreve outras suspeitas: "ninguém chama um desembargador para encostar no local, ninguém se preocupa em dizer que deixou a arma trancada e em cima do armário em um momento como esse".

A sargento, então, responde: "Levanta um pouquinho de suspeita".

A soma desses fatores – conduta no local, falas registradas e vestígios periciais – é considerada relevante para a apuração do caso, que passou a ser tratado como feminicídio. O tenente-coronel Geraldo Neto foi preso preventivamente na quarta-feira (18) e, no mesmo dia, a Justiça de São Paulo o tornou réu.

Ele vai responder por feminicídio qualificado e fraude processual, por ter alterado a cena do crime para forjar um suicídio.

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