"Macho alfa provedor": mensagens de Whatsapp revelam como tenente-coronel via relação com soldado Gisele
Geraldo Leite Rosa Neto foi preso na quarta-feira (18) acusado de feminicídio e fraude processual; ele teria forjado o suicídio da esposa




Emanuelle Menezes
Fabio Diamante
Robinson Cerantula
Mensagens trocadas pelo Whatsapp entre o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto e a soldado Gisele Alves Santana revelam um relacionamento marcado por machismo, controle financeiro e cobranças. A policial foi encontrada morta com um tiro na cabeça, no apartamento em que o casal vivia, na região central de São Paulo, em fevereiro.
Geraldo alega que a esposa se matou. O SBT teve acesso exclusivo ao relatório final da Polícia Civil, com 82 páginas, que apontou que na verdade Gisele foi vítima de feminicídio. O tenente-coronel foi preso na quarta-feira (18) e responderá ainda por fraude processual, por ter alterado a cena do crime para forjar um suicídio.
Ele foi levado para o Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte de São Paulo. Na chegada ao local, foi abraçado e levou "tapinhas" nas costas de um policial.
Tratamento de "macho alfa"
Nas conversas obtidas no celular do oficial, a polícia encontrou vestígios de uma relação "marcada por abuso psicológico". As aspas são do delegado Lucas de Souza Lopes, do 8º Distrito Policial, que presidiu o inquérito.
Em uma delas, Gisele diz: "Se eu soubesse que você iria me tratar dessa forma após casar, eu que não queria casar". Geraldo responde: "Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa. Com amor, carinho, atenção e autoridade de Macho Alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser".

Para o delegado, o tenente-coronel demostra uma personalidade dominadora e "com visões distorcidas sobre o papel da mulher no casamento".
Outras mensagens mostram que Geraldo cobrava que Gisele mantivesse relações sexuais com ele, alegando que sustentava a casa.
"Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor. Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo", escreveu ele. "Por mim separamos, não vou trocar sexo por moradia e ponto final", ela diz.
Um áudio transcrito pelos investigadores também reforça que Gisele era vítima de agressões físicas. No dia 6 de fevereiro, a soldado acusa Geraldo de ter "enfiado a mão" na cara dela.
Em 13 de fevereiro, Gisele diz que está "praticamente solteira". Geraldo responde: "Jamais! Nunca será!". Para a Polícia Civil, a reação "é de extrema possessividade e negação".

Dois dias antes de morrer, a policial alega que o marido deixou de ser um "príncipe" e que a trata "de qualquer jeito". O tenente-coronel respondeu que era "mais que um príncipe". "Sou Rei, Religioso, Honesto, Trabalhador, Inteligente, Saudável, Bonito, Gostoso, Carinhoso, Romântico, Provedor, Soberano", escreveu.

Prisão
A Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo prendeu o tenente-coronel na manhã de quarta-feira. Um comboio com agentes da corregedoria, com apoio da Polícia Civil, chegou por volta das 8h ao apartamento do oficial em São José dos Campos, no interior de São Paulo.

O SBT News teve acesso à decisão, da 5ª Auditoria Militar do Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo, que determinou a prisão preventiva de Geraldo Neto. As provas coletadas pela Polícia Civil indicam que Gisele foi surpreendida por trás.
A vítima teria tentado reagir, mas foi contida pelo pescoço. Imagens do exame necroscópico mostram marcas compatíveis com os dedos do agressor na região do pescoço. O disparo que matou a policial ocorreu a curtíssima distância, com trajetória de trás para frente e de baixo para cima, o que reforça a tese de execução.
"O mosaico probatório, portanto, afasta a hipótese de suicídio e indica que Gisele foi abordada por trás, com mão esquerda do agressor na mandíbula/face e arma na mão direita dirigida à têmpora direita", diz um trecho.
A perícia também analisou a distribuição de sangue no local. O padrão encontrado indica que Gisele estava em posição vertical ou semi-vertical no momento do sangramento, o que é incompatível com a versão de que ela teria sido encontrada deitada após um suposto suicídio.
Os investigadores apontam ainda que o tenente-coronel teria alterado a cena do crime. A suspeita é de que ele posicionou o corpo da vítima no chão, colocou a arma em sua mão e tentou limpar vestígios.

Outro ponto que levantou dúvidas foi o estado do banheiro do apartamento. Apesar de o oficial afirmar que estava no banho no momento do disparo, o local estava seco quando a polícia chegou. No entanto, foram encontradas manchas de sangue no box, nas torneiras e em objetos pessoais dele, como uma bermuda e uma toalha.
A perícia ainda contestou a possibilidade de suicídio com base na altura da vítima. A reconstituição do crime indicou que Gisele, que media 1,65 m, não conseguiria alcançar a arma guardada na parte superior do guarda-roupa, ao contrário do tenente-coronel.

A defesa do oficial informou que entrou com uma reclamação no Superior Tribunal de Justiça (STJ), alegando a existência de duas ordens de prisão para o mesmo fato, uma na Justiça Militar e outra na Justiça comum. Os advogados também estudam a possibilidade de pedir habeas corpus.









