Cidades

Tiro por trás e marcas de sangue: saiba detalhes de decisão que prendeu tenente-coronel por feminicídio em SP

Decisão da Justiça Militar aponta indícios de execução, manipulação da cena e uso da hierarquia para agravar violência contra soldado Gisele

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Emanuelle Menezes
18/03/2026, 14:28 • Atualizado em 18/03/2026, 22:35
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A PM Gisele Alves Santana, 32, foi encontrada morta no apartamento onde morava com o marido, tenente-coronel da corporação | Reprodução

A PM Gisele Alves Santana, 32, foi encontrada morta no apartamento onde morava com o marido, tenente-coronel da corporação | Reprodução

A decisão que determinou a prisão preventiva do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto detalha como, segundo o Ministério Público, a soldado Gisele Alves Santana foi morta dentro do apartamento do casal, em São Paulo. A investigação aponta que a policial não cometeu suicídio – versão apresentada inicialmente pelo próprio marido –, mas teria sido vítima de feminicídio.

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O SBT News teve acesso à decisão, da 5ª Auditoria Militar do Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo, nesta quarta-feira (18). De acordo com o documento, as provas coletadas indicam que Gisele foi surpreendida por trás.

Geraldo teria segurado a mandíbula ou o rosto da soldado com a mão esquerda, enquanto apontava a arma, com a mão direita, para a têmpora dela. Após o disparo, o corpo de Gisele teria sido colocado no chão.

"O mosaico probatório, portanto, afasta a hipótese de suicídio e indica que Gisele foi abordada por trás, com mão esquerda do agressor na mandíbula/face e arma na mão direita dirigida à têmpora direita", diz um trecho.

A cena do crime foi manipulada depois, segundo o relatório. Houve escoamento de sangue e indícios de alterações posteriores, como a posição da arma na mão da vítima. O texto também menciona que o investigado teria tomado banho após o crime, o que reforça a suspeita de tentativa de ocultação de vestígios.

Perícia contradiz versão de suicídio

Os laudos periciais são um dos principais pilares da decisão judicial. A reprodução simulada e a análise técnica do local identificaram padrões de sangue incompatíveis com a hipótese de suicídio.

Segundo o documento, foram encontrados respingos de sangue em um vidro da varanda e em uma parede adjacente, em alturas entre 1,70 m e 1,80 m. Esse padrão, de acordo com os peritos, não condiz com a dinâmica descrita pelo tenente-coronel.

Além disso, exames com luminol apontaram vestígios de sangue no box do banheiro, paredes, piso e registros, justamente no ambiente utilizado por Geraldo – que tomou banho após a chegada de policiais ao prédio. Também houve reação positiva em uma toalha e em uma bermuda jeans do oficial.

Esses elementos, conforme a decisão, entram em "frontal contradição" com a versão de que ele não teve contato com o sangue de Gisele e nem manipulou a cena do crime.

Outro ponto destacado é a reconstrução tridimensional do imóvel. A análise concluiu que, da porta do banheiro, não seria possível visualizar o corpo na posição em que foi encontrado pelos socorristas – o que também contraria o relato apresentado pelo tenente-coronel. Segundo Geraldo, Gisele teria se suicidado enquanto ele tomava banho.

Relação hierárquica

Outro ponto central da decisão trata da competência da Justiça Militar para analisar o caso. Embora o crime tenha ocorrido no contexto doméstico, o documento destaca que a relação hierárquica entre o tenente-coronel e a soldado teve papel relevante na dinâmica da violência.

Segundo o relatório, a posição superior de Geraldo dentro da Polícia Militar criou um cenário de desequilíbrio de poder que ultrapassava o ambiente familiar e afetava também a vida profissional de Gisele.

Colegas de farda da soldado relataram à polícia que o tenente-coronel comparecia insistentemente ao serviço da policial, valendo-se da superioridade hierárquica para entrar e permanecer no local.

A decisão aponta que parte das violências – especialmente de natureza psicológica e patrimonial – teria sido intensificada justamente por essa hierarquia. Sem essa condição, afirma a decisão, dificilmente o oficial conseguiria impor restrições à autonomia da vítima.

O advogado Eugênio Malavasi, que faz a defesa do tenente-coronel, afirmou ao SBT News que acredita que a Justiça Militar não é competente para o decreto preventivo de prisão. "Se houve a imputação de feminicídio e fraude processual, foi no âmbito privado, não em decorrência da atividade de policial militar", disse.

Tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto foi preso na manhã desta quarta-feira (18) | Reprodução/SBT
Tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto foi preso na manhã desta quarta-feira (18) | Reprodução/SBT

Pedido de prisão e medidas adicionais

A Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo prendeu o tenente-coronel na manhã desta quarta-feira. Um comboio com agentes da corregedoria, com apoio da Polícia Civil, chegou por volta das 8h ao apartamento do tenente-coronel em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Pouco depois, ele saiu escoltado do local.

Geraldo foi conduzido à sede da Corregedoria, na região central da capital paulista, e depois deve passar por exames de corpo de delito. Na sequência, ele será levado para o Presídio Militar Romão Gomes.

Polícia Civil e Corregedoria pediram a prisão preventiva de Geraldo na terça-feira (17) por feminicídio e fraude processual. A decisão do juiz Fabrício Alonzo Martinez Della Paschoa, da Justiça Militar, assinada às 4h22 desta quarta, autorizou ainda a apreensão de aparelhos celulares, a quebra de sigilo de dados eletrônicos e o compartilhamento de provas com a Polícia Civil.

O pedido da Polícia Civil ainda aguarda apreciação do Ministério Público e do Tribunal de Justiça de São Paulo.

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