Economia

Orçamento familiar está no limite com dívidas e juros altos

PIB do 2º trimestre mostra recuo de 0,4% no consumo das família; economista diz que endividamento turbinado por bets e juros pesam no bolso do brasileiro

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Marcela Guimarães
Orçamento familiar está no limite com dívidas e juros altos

O consumo das famílias, tradicional motor da economia brasileira, recuou 0,4% no segundo trimestre de 2026, depois de ter crescido 0,8% no início do ano, de acordo com os dados do Produto Interno Bruto (PIB), divulgados nesta terça-feira (1º) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Para o economista Ricardo Julio Rodil, sócio-líder de Capital Markets da Crowe Macro, o resultado escancara um orçamento familiar espremido entre o endividamento e uma taxa de juros que, mesmo em queda, ainda pesa no bolso.

"Se você tem 100 para gastar, não tem como se endividar mais, já está gastando 80 em juros e parcelas já assumidas, só sobram 20. Se você precisa 25, acabou", resume o economista.

O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, acima da expectativa de 0,4% do mercado, mas em ritmo mais fraco que o 1,1% registrado no primeiro trimestre. Para Rodil, o número, por si só, não é suficiente.

"O PIB, em si, como medida anual da geração de riqueza de um país, está patinando", afirma.

Ele lembra que o acumulado em 12 meses segue "flertando" com os 2%, patamar que considera insuficiente para o estágio atual da economia brasileira.

O Ministério da Fazenda avaliou, em comunicado, que a queda do consumo foi "atenuada" pela resiliência do mercado de trabalho, com desemprego na mínima histórica e renda real em alta. Mas, se emprego e renda vão bem, por que o consumo caiu mesmo assim? Rodil aponta como um dos vilões o endividamento das famílias, e cita as apostas esportivas como um agravante.

"O Brasil não tem cultura de disciplina nesse tipo de gasto", afirma, defendendo restrições à publicidade das casas de apostas, nos moldes do que ocorre com o cigarro.

O economista também separa os tipos de dívida das famílias. "Uma coisa é comprar um bem durável, como carro ou geladeira; outra, bem mais preocupante, é recorrer ao crédito para financiar itens básicos, como a compra do supermercado — que se repete todo mês", explica.

Por outro lado, há um "limite biológico" para a queda do consumo, já que as famílias não podem cortar gastos essenciais indefinidamente. "Se eu tenho meu salário reduzido, eu não posso comer menos do que um quilo [de arroz] por semana. Então a família está num beco sem saída", diz o especialista.

O consumo das famílias é uma variável pouco elástica — não dispara quando a renda sobe muito, mas também não pode despencar abaixo de um piso de sobrevivência.

Gastos públicos e investimentos

Rodil também cita a alta dos gastos públicos que mantém a taxa de juros pressionada. Para ele, o problema não está no volume de programas sociais em si — sem entrar no mérito de iniciativas como Bolsa Família ou Pé-de-Meia —, mas na falta de uma contrapartida do lado da produção.

Segundo o economista, ajudar famílias em situação difícil é necessário, mas, sem um aumento equivalente na oferta de bens e serviços, esse reforço de renda tende a se transformar em pressão inflacionária, corroendo o próprio benefício que o governo tentou entregar.

"Faltam políticas públicas voltadas a estimular o investimento produtivo do setor privado", afirma o economista. Mais investimentos permitiriam elevar a demanda e a oferta ao mesmo tempo, resultando em mais crescimento do PIB sem gerar as pressões inflacionárias que hoje sustentam os juros altos.

Como exemplo, Rodil cita incentivos à importação de maquinário moderno, que permitiria a indústrias e prestadores de serviço produzir mais com a mesma estrutura de custos, mesmo número de funcionários, mesmo gasto de energia, mesmo aluguel. Esse ganho de produtividade, segundo ele, poderia vir por diferentes caminhos, como a redução do imposto de importação, financiamento subsidiado via BNDES ou facilitação logística.

"Aí o consumo da família pode aumentar. Por quê? Porque não vai ser o vilão", explica, referindo-se ao fato de que um consumo maior, sustentado por mais oferta, não pressionaria a inflação, ao contrário do que ocorre hoje.

O período eleitoral também tende a inflar o gasto público e dificultar ajustes mais duros na política econômica no curto prazo, na avaliação do economista.

O que vem pela frente

Mesmo com a Selic em queda — de 15% para 14% ao ano desde março —, Rodil não vê alívio imediato para o consumidor. "Ainda tendo caído, é um nível estratosférico", diz. Com a inflação rondando o teto da meta, ele calcula que o juro real segue em torno de 5% — patamar que, na sua avaliação, nenhuma economia sustenta com facilidade.

Ainda assim, Rodil se diz otimista no médio prazo, na expectativa de que o país avance no ajuste da dívida pública, o que abriria espaço para queda mais consistente dos juros e retomada do investimento produtivo.

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