Empresas de IA ignoram medo de bolha e fazem fila para IPOs em 2026
Levantamento da plataforma AmplifyMe mostra série de empresas relacionadas à IA que podem lançar ações em bolsa ainda este ano


Exame.com
O ano de 2026 mal começou e, com ele, uma fila de empresas gigantescas vinculadas à inteligência artificial (IA) que prometem mexer com as bolsas de valores pelo mundo. Nomes como SpaceX, OpenAI, Canva e outros já estão no radar dos investidores que esperam ansiosos por uma abertura de capital, em meio a temores da formação de uma "bolha".
A "bolha" ocorre quando os preços dos ativos sobem muito rápido e se distanciam de fundamentos concretos das companhias, como o lucro, a receita, o fluxo de caixa, entre outros. Quando isso ocorre, muitas vezes não há sustentação e os preços podem despencar de uma só vez. O medo é que a IA caminhe para um lugar assim no futuro, dado os investimentos bilionários que estão sendo feitos nessa tecnologia.
Um levantamento da AmplifyMe, plataforma global de treinamento e recrutamento em finanças que utiliza simulações de mercado, mostra uma série de empresas relacionadas à IA que podem realizar uma Oferta Pública Inicial (IPO, na sigla em inglês), com base em fontes da Bloomberg, Reuters, FinTech Weekly e Tech Funding News.
Entre fundamentos, riscos e o investidor no Brasil
O cenário atual da inteligência artificial tem fundamentos sólidos, de acordo com o estrategista-chefe do RB Investimentos, Gustavo Cruz. Ele explica que, antigamente, as empresas vendiam apenas ideias de produtos online, enquanto hoje existe uma demanda real e massiva por infraestrutura, como computação em nuvem e chips.
A diferença crucial é que agora "as empresas não precisam mais ir atrás dos clientes, que nem tinham que fazer antes do ChatGPT", pois todas as indústrias estão correndo para integrar a IA em seus negócios. Ele aponta que o próximo passo lógico é unir essa inteligência ao mundo físico através da robótica, o que deve abrir portas para novas e lucrativas oportunidades de investimento em diversos setores, como a indústria farmacêutica.
Apesar do otimismo com o avanço tecnológico, nem tudo está certo para o caminho desses IPOs em 2026. Existe um risco inerente ao excesso de dinheiro circulando no mercado global. Cruz faz um alerta importante sobre o perigo de algumas dessas ofertas "darem para trás" ou esconderem problemas estruturais por trás de um momento de euforia.
"A questão de ser seguro ou não, de riscos, acho que ninguém sabe confirmar, porque hoje a gente está em um ambiente de muita liquidez, isso tem ajudado a sustentar empresas boas e também as ruins", afirma. Esse excesso de liquidez pode mascarar a fragilidade de certas companhias que não tenham um modelo de negócio sustentável.
Enquanto o cenário internacional parece promissor e cheio de novidades, Cruz observa que o Brasil ainda está um pouco de fora dessa conversa toda. Para ele, nossa economia não está incluída nessa onda tecnológica específica nem envolvida diretamente nas discussões de ponta sobre IA e infraestrutura robótica.
SpaceX, do Elon Musk
A Space Exploration Technologies Corp. (SpaceX) é uma empresa aeroespacial americana fundada por Elon Musk, o homem mais rico do mundo, em 2002. O foco da companhia é reduzir custos em transportes espaciais e tornar a humanidade multiplanetária, incluindo a colonização de Marte.
Atualmente, a companhia planeja abrir capital e levantar US$ 30 bilhões, em análise de entes do mercado, que avaliam a empresa em US$ 1,5 trilhão. O alto patamar é comparável ao maior IPO já realizado, da Saudi Aramco, a qual alcançou um valor de mercado de US$ 1,7 trilhão em 2019.
Caso o montante seja concretizado, a venda de apenas 5% das ações poderia mexer US$ 40 bilhões, em um cenário onde a expansão do sistema Starlink — serviço de internet via satélite da SpaceX —, tem sido determinante para uma eventual antecipação do IPO.
Parte dos recursos obtidos será destinada à construção de centros de dados em órbita, envolvendo a compra de chips especializados e infraestrutura de alto desempenho. A SpaceX já possui investidores privados.
A expectativa é que o IPO ocorra entre o terceiro e o quarto trimestres de 2026, conforme a AmplifyME, vendo como "a joia da coroa do ano (IPO da SpaceX), que poderá se tornar a maior oferta pública inicial da história, eclipsando até mesmo a Saudi Aramco".
OpenAI, dona do ChatGPT
A OpenAI é uma empresa de pesquisa e implementação da inteligência artificial (IA), criadora do ChatGPT, que se prepara para uma das maiores aberturas de capital da história, com fontes dizendo à Reuters que o valor de mercado da companhia pode alcançar US$ 1 trilhão.
Em outubro, a empresa registrou um valuation de US$ 500 bilhões, mas uma outra avaliação recente, em dezembro, segundo o site The Information, estima cerca de US$ 750 bilhões. As discussões estão em estágios iniciais de negociação e detalhes podem mudar.
Enquanto isso, a AmplifyME estima um montante de US$ 830 bilhões a US$ 1 trilhão, com um IPO no final de 2026 e início de 2027. Entretanto, a empresa pode enfrentar obstáculos até lá, já analisados pelo mercado, como os litígios em direitos autorais.
O analista do setor na Bloomberg Intelligence, Tamlin Bason, afirmou ao City AM que tais litígios de direitos autorais não resolvidos são um risco central para os IPOs de IA. "Não porque as reinvidicações tenham garantia de sucesso, mas porque o potencial litígio é muito difícil de quantificar."
As leis de direitos autorais americanas afirmam que os danos estatutários podem chegar a US$ 150 mil por obra infringida. Ao considerar que os modelos de linguagem, como o ChatGPT, são treinados com milhões de conteúdos, a exposição é enorme.
A diferença entre os prazos legais e os calendários de IPOs preocupam os bancos de investimento, e a OpenAI enfrenta uma série de reinvindicações de autores, editores e empresas de notícias.
"Atualmente, a OpenAI não possui nenhuma decisão judicial que afirme seu direito de usar conteúdo protegido por direitos autorais para treinamento sem permissão", disse Bason. "Na verdade, sua atividade de licenciamento pode sugerir um reconhecimento implícito de que os detentores de direitos merecem compensação".
A AmplifyME relata que "a OpenAI representa o teste definitivo para laboratórios de IA de 'vanguarda' no cenário público".
ByteDance, dona do TikTok
A empresa privada chinesa, dona do TikTok, atua em setores como inteligência artificial, fabricação de chips e realidade virtual, sendo avaliada, em média, em até US$ 300 bilhões.
A dúvida que paira sobre os investidores é justamente se a companhia vai abrir capital ou não, pois já captou bilhões de dólares em rodadas de financiamento privado.
A AmplifyME estima valuation de US$ 480 bilhões a US$ 500 bilhões para a companhia. "Apesar da estagnação regulatória, seu enorme crescimento no comércio eletrônico a torna um item indispensável para quem busca exposição global nas mídias sociais", detalha.
Anthropic, dona do Claude
A Anthropic é uma startup de inteligência artificial, cofundada por líderes da OpenAI em 2021, voltada à construção de um sistema de IA chamado Claude, como o ChatGPT da concorrente. A ideia é que o Claude seja mais humanizado para ajudar as pessoas em suas tarefas.
Assim como a OpenAI, a Anthropic pode enfrentar obstáculos para uma abertura de capital, mas parte de uma posição menos complicada em termos de direitos autorais, de acordo com analistas da Bloomberg Intelligence.
As disputas restantes da Anthropic são "relativamente contidas e se limitam, em grande parte, a negociações com editoras musicais e o Reddit", na visão do braço de inteligência da agência, publicado no City AM.
O analista Tamlin Bason chegou a afirmar que, se a Anthropic conseguir resolver suas disputas restantes, não terá mais litígios ativos e, consequentemente, não terá mais risco de responsabilidade civil.
"Isso efetivamente limparia sua carteira de processos, deixando-a com uma estrutura de custos definida, em vez de um risco existencial", explica Bason, o qual pontua que isso não eliminaria riscos futuros, mas converteria a exposição em um custo definido.
Além disso, a Anthropic tomou medidas visíveis para estar pronta para uma abertura do capital, como a contratação de um escritório de advocacia, Wilson Sonsini, que assessorou Google e LinkedIn em suas próprias ofertas iniciais, e um diretor financeiro que orientou o Airbnb.
A AmplifyME estima uma preparação para a abertura de capital no segundo semestre de 2026, com um valuation de US$ 230 bilhões a US$ 300 bilhões.
Databricks
A Databricks é uma plataforma de inteligência de dados combinada com modelos de IA, em 2013.
Hoje, mais de 15 mil organizações pelo mundo utilizam a Databricks Data Intelligence Platform para controlar e trabalhar dados com IA, como Shell, Block, Comcast, Condé Nast, Rivian e mais de 60% das empresas da Fortune 500, da Forbes.
A empresa não descarta um IPO em 2026, mas o CEO Ali Ghodsi cita a crise do mercado e as demissões em 2022 como um cenário que ele espera evitar como empresa de capital aberto, conforme publicado pela Reuters.
A AmplifyME prevê um valuation de US$ 134 bilhões a US$ 160 bilhões para a Databricks, e cita expecativa de IPO para o primeiro e segundo trimestres de 2026, pontuando que ela foi considerada por muito tempo a candidata mais pronta para uma abertura de capital.
"Seu papel como a espinha dorsal dos dados corporativos a torna uma escolha essencial para projetos que exigem mão na massa", diz a AmplifyME.
Stripe
A Stripe, plataforma de infraestrutura financeira com objetivo de facilitar pagamentos online, foi fundada em 2010 por irmãos irlandeses, John e Patrick Collison, na Califórnia, virando uma das maiores fintechs do mundo desde então.
A empresa já afirmou não ter pressa em abrir capital por já ser lucrativa e ter liquidez em mercados secundários, mesmo sendo considerada "pronta para um IPO".
A AmplifyME vê sinalização para uma provável oferta no primeiro semestre de 2026, estimando um valor de mercado para a Stripe de US$ 91,5 bilhões a US$ 120 bilhões.
"Após anos mantendo-se privada, 2026 é visto como a última oportunidade para essa gigante fintech fornecer liquidez a seus funcionários de longa data", declara.
Revolut
A Revolut é uma fintech global de serviços financeiros fundada em 2015, com operações no Brasil desde 2023. A expectativa é que, em uma abertura ao mercado, a empresa fique listada em Londres ou em Nova York, com um valuation de, aproximadamente, US$ 75 bilhões.
Pode ser até que haja uma dupla listagem, pois recentes reformas regulatórias no Reino Unido, bem como o apoio político, podem influenciar a decisão da companhia.
A AmplifyME tem previsto um valuation de US$ 75 bilhões a US$ 90 bilhões e um IPO como meta para 2026. "Uma estreia bem-sucedida em 2026 sinalizaria que os bancos digitais estão prontos para a elite do setor", pontua.
Canva
O Canva é uma plataforma australiana voltada à criação visual e desenvolvedora de design que compete com a Adobe e a Figma. Foi fundada em 2013, com sede na cidade de Sydney, a fim de oferecer ferramentas online para escolas e grandes empresas.
É uma das startups mais valiosas da Austrália, assim como a Atlassian, tendo como investidores fundos de capital de risco como Blackbird, Square Pig e Airtree. No fim do ano passado, foi reavilada para um valuation de US$ 42 bilhões.
A empresa tem aumentado a presença nos Estados Unidos e investido cada vez mais em ferramentas de inteligência artificial para turbinar suas receitas. Em uma recente entrevista à Bloomberg TV, o diretor de operações da empresa, Cliff Obrecht, afirmou que um IPO é iminente e deve acontecer no próximo "par de anos".
De acordo com a AmplifyME, o valor de mercado da Canva pode variar entre US$ 50 bilhões a US$ 56 bilhões em um eventual IPO, cuja expectativa fica para o segundo semestre de 2026, sendo uma das aberturas mais aguardadas do setor.







