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'Não estamos atrasados': como a CEO da Microsoft Brasil enxerga o país na corrida da IA

Priscyla Laham fala sobre data centers, energia limpa e o papel do país na estratégia global de IA da empresa

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Exame.com
02/01/2026, 01:20 • Atualizado em 02/01/2026, 01:20
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Priscyla Lahan, presidente da Microsoft Brasil | Foto: Reprodução/YouTube/@MicrosoftBrasil1 - 14.07.2025

Priscyla Lahan, presidente da Microsoft Brasil | Foto: Reprodução/YouTube/@MicrosoftBrasil1 - 14.07.2025

Priscyla Laham assumiu a presidência da Microsoft Brasil em 1º de janeiro de 2025 no auge de uma das maiores viradas tecnológicas da história recente: a consolidação da inteligência artificial como motor de produtividade e poder econômico. Ao suceder Tânia Cosentino, ela se tornou a terceira mulher a ocupar o cargo de CEO da companhia no país, um dado simbólico em uma empresa que atravessa um novo ciclo de investimentos e reorganização estratégica no mercado brasileiro.

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De lá para cá, é possível ver nas missões assumidas pela CEO uma continuidade direta de um movimento iniciado ainda em 2024, quando a Microsoft anunciou um investimento de R$ 14,7 bilhões em infraestrutura de nuvem e IA no Brasil, além do compromisso público de capacitar 5 milhões de pessoas em inteligência artificial. À época, o anúncio ganhou uma capa de EXAME, e foi entendido como sinal de confiança no país e de aposta na formação de talentos locais para um mercado cada vez mais globalizado.

Mas, para a executiva, o desafio vai além dos números superlativos. Priscyla construiu uma carreira internacional, deixou a Microsoft por um período e retornou para liderar a operação local justamente por enxergar no Brasil um terreno fértil — e subestimado — para inovação. Em suas palavras, não faria sentido comandar outro país: a missão, diz, é usar a tecnologia para tornar o Brasil mais competitivo, conectando infraestrutura digital, educação e produtividade em larga escala.

Nesta entrevista, Priscyla Laham detalha como a inteligência artificial está sendo incorporada ao cotidiano das empresas e das pessoas, desde a automação de tarefas burocráticas até a criação de agentes autônomos capazes de executar processos inteiros. Entre metáforas diretas e dados concretos, ela defende que a IA não substitui o trabalho humano, mas devolve tempo, energia e capacidade de decisão — um reposicionamento que, em sua visão, pode colocar o Brasil no centro da próxima onda de crescimento tecnológico global.

Confira os principais trechos da conversa:

A meta de capacitar 5 milhões de pessoas em três anos parecia ousada. Como está o avanço hoje?

Estamos muito acima da expectativa. O compromisso foi firmado em setembro do ano passado e, pouco mais de um ano depois, 6.2 milhões de brasileiros já iniciaram algum tipo de treinamento. Desse total, 2,5 milhões concluíram os cursos. Isso derruba o mito de que o brasileiro não quer estudar. Somos early adopters natos quando o tema é tecnologia.

E o valor anunciado de R$ 14,7 bilhões em infraestrutura de nuvem no Brasil, o que esse número representa para a estratégia global da companhia?

Esse investimento reflete diretamente o compromisso do Satya Nadella com o Brasil. Enxergamos a inteligência artificial como um ponto de inflexão capaz de acelerar o país. Esse montante é o fato gerador para consolidar nossa infraestrutura de nuvem e IA, mas ele não vem sozinho: está atrelado aos compromissos de capacitação. Acreditamos que a tecnologia pode tornar o Brasil mais competitivo no cenário global.

Mas apesar do entusiasmo com a vinda de novos data centers para o país, o Brasil tem apenas 10 nas categorias de hiperescala, que seriam os mais apropriados para as demandas de IA, enquanto os EUA e Europa tem mais de 100. Estamos no ritmo certo?

Não estamos atrasados, mas em intensidades diferentes. O Brasil tem vantagens importantes: excedente de energia limpa e renovável e um custo de propriedade menor do que o dos Estados Unidos. Quando o governo ajusta impostos de importação de hardware com o Redata, como tem sinalizado, essa oportunidade cresce. O país não é atrasado em serviços digitais; o desafio agora é acelerar essa maturidade com IA.

Considerando o foco da IA da Microsoft, o Copilot, no dia a dia das empresas, qual é o impacto real criado em produtividade? Já existem números concretos?

Sim, e eles são bastante claros. Nosso Work Trend Index mostra que 72% das pessoas se sentem exaustas ou sem tempo no trabalho. A IA ataca exatamente essa dor. Temos casos como o da XP, que economizou 9.000 horas em processos. No nível individual, usuários ganham cerca de duas horas por dia ao automatizar tarefas como pesquisas ou decupagem de reuniões. A IA não substitui o humano; ela expande a capacidade, assim como o computador substituiu a máquina de escrever.

A Microsoft no evento de novidades da empresa, o Ignite, muito se falou da consolidação dos agentes nos produtos da Microsoft. O que isso muda para o usuário comum?

Em 2025, levamos a IA para outro patamar. Ela deixa de ser apenas um assistente que responde perguntas e passa a ter memória e contexto em todo o portfólio, o que chamamos de Work IQ, Fabric IQ e Foundry IQ. A IA começa a entender o fluxo de trabalho do usuário, faz inferências e adiciona uma camada de inteligência contextual que antes não existia.

Muitas lideranças ainda temem que a IA reduza empregos. Como a Microsoft enxerga a estrutura das empresas no futuro?

Defendemos o conceito de Frontier Firm: empresas operadas por IA e lideradas por humanos. Isso exige uma mudança cultural profunda. No passado, poder era o tamanho do organograma. No futuro, você pode não terá mais posições onde liderança comanda 300 pessoas, mas talvez cinco pessoas e cinquenta agentes de IA especializados. As camadas gerenciais intermediárias tendem a diminuir para que a tomada de decisão seja mais horizontal e rápida.

E os riscos? Casos recentes mostram falhas graves de governança e as IAs suscetíveis a investidas mal intencionadas.

Esse é um ponto crucial. Cultura e governança de dados são os dois fatores que podem frear a velocidade das empresas. Não basta colocar um chatbot sem preparar a cibersegurança. A Microsoft é a segunda entidade mais atacada do mundo, atrás apenas do governo dos EUA. Somos os usuários zero de nossos produtos. Isso se reflete, por exemplo, nas atualizações de ferramentas como o Agent 365, que funciona como um Active Directory para agentes, garantindo identidade, permissões e segurança equivalentes às de um funcionário humano.

O que podemos esperar no que tange a IA para 2026?

A consolidação total da era dos agentes autônomos. Vamos sair do assistente pessoal para múltiplos agentes que conversam entre si e executam processos inteiros, sempre sob governança humana. No Brasil, continuaremos investindo fortemente na força de trabalho: nos últimos 18 meses, treinamos diretamente 40 mil funcionários de clientes em IA. Queremos que o brasileiro não apenas use a ferramenta, mas saiba criar seus próprios agentes para resolver problemas de negócio.

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