Ciclo de queda de juros não deve tirar brilho dos títulos prefixados
Para especialistas, tendência é de rendimentos atraentes em 2026, mesmo após o início do ciclo de queda da Selic


Exame.com
Para quem acredita no mito de que a renda fixa é sem emoção e manteve esse pensamento em 2025, provavelmente perdeu uma das maiores festas do mercado financeiro dos últimos tempos. O ano que passou foi, sem sombra de dúvida, o momento de brilhar dos títulos prefixados de longo prazo, acumulando rendimentos que não se viam há quase uma década.
O índice IRF-M 1+ da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que mede o rendimento de títulos prefixados com vencimento em até um ano, registrou alta de 20,07% em 2025. Essa foi a primeira vez que um índice prefixado liderou o desempenho do mercado desde 2017, segundo a entidade.
Mercado antecipou queda dos juros: "Aposta correta"
O economista da Anbima, Marcelo Cidade, destaca que os títulos mais longos ficaram mais atraentes para o investidor a partir do fim do primeiro semestre e início do segundo semestre de 2025, citando o início da queda de juros no radar do mercado.
"A tendência é que o prêmio desses ativos permaneça atrativo para investidores em 2026, mesmo após o início do ciclo de queda", diz Cidade.
A perspectiva de que os juros sigam caindo para 12% a.a. no final do ano forma um ciclo favorável para justificar a atratividade dos prefixados, segundo Cidade. "Em tese, ao longo desse ano, há um cenário favorável para que os prefixados tenham uma valorização interessante."
A taxa básica de juros brasileira, Selic, está em 15% a.a., mas o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) já indica expectativas de cortes desde o ano passado. Responsável pela definição da taxa, o Copom vai realizar a próxima reunião no dia 28 de janeiro.
Para o CEO da Gravus Capital, Ricardo Trevisan, o mercado não só antecipou a queda de juros como acertou na aposta. "Quem se posicionou no início do ano capturou uma valorização expressiva dos títulos, fruto dessa virada de chave nas expectativas", detalha.
"Foi uma aposta correta para quem entrou no momento certo. A forte rentabilidade reflete a marcação a mercado positiva gerada pela queda das taxas futuras. Não houve erro de timing, mas sim um acerto de análise macroeconômica por parte dos investidores que se posicionaram para o ciclo de afrouxamento monetário", acrescenta.
Rendimentos e o "piso implícito" de 13% a.a.
O rendimento atual do Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2035 está em 13,60% ao ano (a.a.) atualmente, mas chegou a bater 15,27% a.a. no ano passado. Já o Tesouro Prefixado 2032 está em 13,52% a.a. e ficou com até 15,25% a.a. em 2025. No título público prefixado em 2028, o montante registrado é de 12,89% a.a., porém foi superior a 15% a.a. no último ano.
Na comparação dos títulos prefixados do Tesouro Direto para 2035 (com juros semestrais, a 13,60% a.a.) e 2032 (13,52% a.a.), apesar das taxas nominais serem próximas, o de 2035 tende a ser mais conservador, enquanto o de 2032 concentra mais risco de marcação, para o analista da Ouro Preto Investimentos, Sidney Lima.
Ele destaca que a escolha não deve ser feita apenas pela taxa, mas pela estrutura de fluxo, horizonte do investidor e tolerância à volatilidade. O "piso implícito" dos rendimentos para o mercado está acima dos 13% ao ano para prazos médios e longos, "considerando os riscos fiscais, políticos e de reancoragem inflacionária no Brasil."
Além dos títulos públicos, alguns Certificados de Depósito Bancário (CDBs) chegam a oferecer rendimento de mais de 15% ao ano e Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA), que são isentas de imposto de renda, com taxa de mais de 12%, como mostra o buscador de investimentos independente Yubb.
Mas sócio e cofundador do Clube do Valor, Ramiro Gomes Ferreira, lembra que é preciso ter cuidado com os riscos de crédito dos emissores. "O mais importante é entender o risco de crédito que vem junto, analisar os emissores com critérios quantitativos, como índice de Basiléia e lucratividade dos bancos nos últimos trimestres."
Ainda há espaço para ganhos de mesma magnitude?
Trevisan, da Gravus, explica que o debate, agora, gira em torno se ainda há espaço para ganhos de mesma magnitude. Algo que divide o mercado, pois parte dos ganhos já foi realizada e o otimismo agora precisa ser mais moderado, na sua visão. Apesar dos prefixados seguirem fazendo sentido para 2026, "a estratégia deve ser muito mais seletiva conforme o prazo".
Gomes Ferreira indica, ainda, que o melhor é compor a carteira com diversas taxas e prazos para não depender "de tentar acertar qual será a melhor rentabilidade" na relação risco e retorno. "É importante dividir a alocação em variados prazos e se limitando a um horizonte de vencimento de 5 anos", afirma.
O CEO da Gravus Capital sugere focar em títulos de dois a três anos, "onde a curva oferece o melhor trade-off entre retorno e risco", explica. "Os títulos de um ano têm pouco espaço para valorização adicional, pois os cortes de juros iniciais estão amplamente precificados na curva".
"O melhor momento da valorização de capital (ganho na marcação de mercado) para os títulos longos provavelmente ficou para trás", diz Trevisan.
Além disso, os investidores devem olhar também para papéis pós-fixados atrelados à inflação, como o Tesouro IPCA+, possibilitando proteção adicional contra surpresas nos preços, especialmente em um ano eleitoral com incertezas fiscais, na análise de Trevisan.









