Com inflação mais comportada, como ficam investimentos atrelados ao IPCA?
Títulos pagam variação da inflação mais uma taxa e competem diretamente com ativos atrelados à Selic na preferência dos investidores


Exame.com
O ano de 2026 pode consolidar as expectativas de queda de juros que o mercado precifica. Somado a isso, 2025 terminou com a inflação abaixo da banda de tolerância da meta, com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrando com alta de 4,26% — o "teto" é de 4,5%.
A combinação desses fatores tem impacto direto sobre os títulos indexados ao IPCA. O prêmio desse tipo de investimento tende a ficar mais baixo, principalmente quando há expectativa de redução de taxa de juros. Isso porque os ativos atrelados à Selic concorrem com o IPCA+ em termos de demanda do investidor.
Com isso, investidores que adquirem papéis IPCA+ quando as taxas ainda estão elevadas conseguem assegurar retornos reais mais altos e mantê-los ao longo de todo o prazo do título.
"Os prêmios tendem a cair com os dados mais novos entrando na base anualizada. Isso porque há um mercado imaginando um corte de juros por conta de uma inflação menor e entendendo que a Selic está caminhando para a meta de 3%", diz Felipe Sant'Anna, analista da Axia Investing.
No entanto, em 2025, mesmo com a queda da inflação, as taxas dos títulos IPCA+ longos não caíram tanto quanto os prefixados. Isso mostra que o mercado ainda cobrava prêmio extra, por cautela com serviços caros e uma política fiscal pouco sustentável, explica Lucas Queiroz, estrategista de Renda Fixa do Itaú BBA. Segundo ele, o nível atual das taxas reais está atrativo.
"As taxas hoje parecem precificar um Banco Central excessivamente conservador por um período muito prolongado, o que aparentemente não condiz com uma perspectiva de desaceleração da atividade à frente", comenta, enfatizando que o fiscal também está contido nessas expectativas.
Para João Tonello, analista da Nomos, se o cenário de desinflação e queda de juros se confirmar, o investidor que entrar agora, enquanto a Selic ainda está alta, tende a se beneficiar tanto do rendimento contratado no título IPCA+ quanto da valorização do título ao longo do tempo.
Atualmente, é possível encontrar no mercado um título com prazo mais curto, como Tesouro IPCA+ 2029, pagando IPCA + 7,82% — ou um título mais longo, como Tesouro IPCA+ 2050, pagando IPCA + 7,03%. Para Tonello, a escolha entre curto ou longo prazo vai depender do objetivo do investidor.
Cuidado com a marcação ao mercado
Títulos de curto prazo apresentam menor volatilidade e são indicados para quem pode precisar do dinheiro antes do vencimento. Já os de longo prazo, especialmente os que pagam juros trimestrais, atraem investidores em busca de renda periódica, mas exigem maior tolerância a variações de preço.
Betty Grobman, especialista em renda fixa, explica que títulos mais longos correm um risco de oscilações do mercado maiores, por isso é que, via de regra, pagam remunerações maiores. "Risco e retorno são diretamente proporcionais. Não existe 'almoço grátis'".
"O principal risco é a marcação a mercado. Se os juros subirem após a compra, o preço do título atrelado à Selic cai, e o investidor pode ter prejuízo se vender antes do vencimento. Por isso, os papéis atrelados ao IPCA funcionam melhor quando o investidor entra com a intenção de carregá-los até o final ou quando entende bem os riscos de oscilações no curto prazo", afirma Tonello.
"O pessoal que comprou IPCA achando que os títulos com vencimento mais longo iam disparar, porque o IPCA ia continuar subindo e rentabilizar mais, vai perdendo a marcação ao mercado, porque esses títulos ficam menos interessantes, relativamente mais baixos", complementa Sant'Anna.
Entretanto, caso o investidor tenha um perfil que tolere correr mais riscos e possa ficar com os recursos indisponíveis por um prazo maior, pode optar por um título com vencimento mais longo. "Além disso, recebendo os rendimentos só no vencimento, há uma considerável redução da carga tributária em relação à tributação sobre pagamentos periódicos de juros", diz Grobman.
Vale a pena comprar?
Apesar da atenção com a marcação ao mercado, Tonello explica que os investimentos atrelados ao IPCA ganham um papel ainda mais claro dentro da estratégia do investidor. "Esses títulos seguem cumprindo bem a função de proteger o poder de compra, ao mesmo tempo em que oferecem uma rentabilidade real previamente contratada."
Para a XP Investimentos, o risco fiscal promete ganhar relevância em 2026. Neste sentido, a relação risco-retorno dos títulos IPCA+ se destaca por ser atrativa.
Na preferência da casa, os vencimentos intermediários são o que chamam a atenção, com duração média de seis anos, "diante da maior volatilidade esperada para títulos de prazos mais longos sem contrapartida de maiores prêmios".
Já na visão do Itaú BBA, com a revisão pelo mercado da inflação para os próximos anos e diante de um ambiente global e locam mais incertos, os títulos prefixados perdem atratividade para 2026.
"Por outro lado, os títulos IPCA+ com prazo de três anos oferecem elevado retorno acima da inflação, ainda podendo capturar ganho por marcação a mercado em cenário de Selic mais baixa do que o projetado", escreve a equipe de Queiroz em relatório.
Com base na possibilidade de uma recessão futura — ou seja, uma atividade econômica mais fraca e inflação muito baixa — e considerando que as medidas fiscais ainda são limitadas ou pouco claras, percebe-se que as taxas de juros reais dos títulos longos (que têm mais risco) estão menores do que as dos títulos de prazo médio ou curto.
"A isso chamamos curva invertida e pode ser um bom momento para investir por prazo menor a taxas muito interessantes", conclui Grobman.








