Chuvas em MG expõem clima instável e falhas na prevenção 2 anos após tragédia no RS
Especialistas ouvidos pelo SBT News apontam oceano mais quente, umidade da Amazônia e vulnerabilidade urbana como fatores por trás do novo desastre


Vicklin Moraes
André Barbeiro
As fortes chuvas que voltaram a atingir Minas Gerais, deixando mais de 60 mortos e milhares de desabrigados, reacenderam o alerta sobre a frequência e a intensidade dos eventos extremos no Brasil, quase dois anos após a tragédia histórica no Rio Grande do Sul. Especialistas ouvidos pelo SBT News afirmam que, sem planejamento urbano consistente, investimento contínuo em prevenção e educação para percepção de risco, o país seguirá reagindo a tragédias, em vez de antecipá-las.
Para Marcelo Seluchi, pesquisador do Cemaden, o cenário é reflexo de uma atmosfera mais quente e instável.
Segundo ele, três fatores foram decisivos:
- Oceano Atlântico com até 2°C ou 3°C mais quente, aumentando evaporação e umidade;
- Atuação de frente fria combinada com áreas de baixa pressão;
- Transporte de umidade da Amazônia, os chamados “rios voadores”.
O resultado foi chuva concentrada em poucas horas, com volumes que deveriam se distribuir ao longo de semanas. Em Juiz de Fora, foram registrados mais de 160 milímetros em apenas quatro horas — índice considerado extremo.
Seluchi afirma que o episódio não foi uma “chuva comum de verão”, mas uma combinação atmosférica intensificada por um clima mais aquecido.
O ambientalista e presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), Carlos Bocuhy, acrescenta que a topografia de Minas Gerais, somada à instabilidade das massas de umidade, agravou o cenário. “Essa troca de massas é muito mais rápida no contexto das mudanças climáticas. Há uma instabilidade nos céus, ou seja, o clima enlouquece”, afirma.
Segundo Bocuhy, a região também é propícia ao fenômeno cavado, que concentra umidade em áreas de baixa pressão. “Isso resulta em uma precipitação muito intensa e concentrada”, destaca.
“Alerta meteorológico não é o mesmo que alerta de desastre"

Em meio aos desastres climáticos enfrentados pelo país, o Brasil avançou no monitoramento federal. O Cemaden acompanha mais de 1.000 municípios e emite alertas de risco que são enviados à Defesa Civil regional.
De acordo com José Marengo, coordenador-geral do Cemaden, o problema está na comunicação das autoridades com a população.
“O que eu recebo na minha cidade é previsão de chuva. Mas risco de queda de árvores… como sabem que vai cair árvore? Pode chover numa região plana, sem árvores. Há uma confusão. É um progresso receber alertas no celular, mas não podemos assumir que todo mundo tem celular. Há pessoas que não têm ou que perdem o aparelho durante o desastre.”
Bocuhy comenta que faltam informações sobre rotas de fuga, mapeamento atualizado e planos de contingência para esses alertas serem efetivos. "As pessoas não sabem o que fazer com os alertas e isso acontece porque está faltando uma peça no processo de formação que faça esse preparo para que saibam exatamente como se comportar e como se defender", afirma.
Um outro problema seria que os alertas meteorológicos não são os mesmo de desastres, além de não deixarem claro qual a região será atingida. Segundo eles, a previsão pode indicar “chuva forte no Sudeste”, mas o risco real pode estar concentrado em um único bairro.
Para Seluchi, o que houve em Minas Gerais não foi uma falha da previsão meteorológica.
“O nosso desafio, eu sou meteorologista, é fazer essa leitura nas entrelinhas e tentar de alguma forma corrigir as imperfeições do modelo. Eu diria que a previsão foi muito boa. Mas no briefing diário com a Defesa Civil dissemos que estávamos preocupados com Minas Gerais, especialmente com a área central. Inicialmente apontamos mais para a região de Belo Horizonte, mas o evento mais extremo ocorreu na Zona da Mata.”
Além disso, segundo os especialistas, existem três falhas principais:
- Planejamento urbano insuficiente: ocupação histórica de áreas de encosta e várzea e a falta de políticas públicas de habitação;
- Baixo investimento em prevenção: recursos são aplicados após a tragédia, não antes;
- Comunicação ineficiente: população recebe alerta, mas não sabe para onde ir.
Marengo ainda defende sistemas tradicionais de aviso. “Sinos de igrejas, carros de som, sirenes funcionam melhor porque a população escuta. Mas o principal é a credibilidade da informação e as pessoas entenderem o que significa um alerta”, diz.
Defesa Civil
A capitão Gisele Couto, da Defesa Civil de Minas Gerais, afirma que os alertas são instrumento de comunicação direta com a população e permitem agir de forma preventiva ou imediata, conforme o nível de risco.
Segundo ela, o envio é baseado em critérios técnicos previamente definidos. Dependendo do grau de risco, as orientações incluem:
- Evitar áreas alagadas e encostas;
- Não trafegar em vias com risco de inundação;
- Observar sinais de movimentação do solo;
- Buscar abrigo em local seguro em caso de deslizamento ou enxurrada.
Couto ressalta que os locais seguros são organizados pelos municípios por meio de Planos de Contingência.
Ainda assim, especialistas apontam desafios regionais: nem todos têm celular ou acesso à internet, faltam sirenes em algumas áreas e parte da população resiste a deixar suas casas. Em casos recentes, vítimas estavam dormindo no momento dos deslizamentos.
Fiscalização e uso de recursos
Bocuhy também critica a gestão das verbas públicas destinadas à adaptação climática.
“Muitas vezes aconteceu ao longo da história de um recurso para mudanças climáticas, para adaptação climática, ser gasto no réveillon pela prefeitura ou na festa de São João. É necessário que a sociedade acompanhe esse processo, tendo certeza de que o investimento é para o bem da sociedade e não para outras finalidades”, conclui.








