Operação mira ex-diretor do Genial e delator do Master
Desdobramento da força-tarefa Carbono Oculto apura suspeitas na compra de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do Brasil

Operação é desdobramento da operação Carbono Oculto, que apura fraudes no setor de combustíveis | Divulgação/Receita
A Receita Federal e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MPSP), deflagraram nesta quinta-feira (24) a operação Crédito Oculto, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro na compra da Tobras Distribuidora de Combustíveis, conhecida como Terrana. Os principais alvos são Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-diretor do Banco Genial, e Antonio Carlos Freixo Junior, da Entre Investimentos, empresa vinculada ao Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! Clique aqui e siga o canal do SBT News.
Agentes cumprem mandados de busca e apreensão em 29 endereços vinculados a 24 empresas e 13 pessoas físicas. A força-tarefa é desdobramento da Carbono Oculto, megaoperação que apura fraudes bilionárias no setor de combustíveis. Segundo o Gaeco, investigados montaram "estruturas complexas de lavagens de capitais" para adquirir a distribuidora.
"Houve sobreposição de estruturas pela organização criminosa, para, inicialmente, ocultar o controle de uma empresa sucroalcooleira e, depois, a aquisição de uma distribuidora de combustíveis", apontou.
Na investigação, o MPSP sustentou que Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco", e Mohamad Hussein Mourad, conhecido como "Primo", teriam "edificado projeto criminoso" de lavagem de dinheiro para aquisição da Terrana e blindagem de imóveis por meio de fundos de investimento, logo após rompimento com a gestora Reag, outra empresa ligada ao Master.
Foragidos desde 2025, "Beto Louco" e "Primo" são suspeitos de liderar um esquema bilionário da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis e já foram denunciados pelo MP.
Para a compra da Terrana, eles teriam elaborado três estruturas interligadas:
- A Usina Itajobi, adquirida por meio do fundo Celebration e depois formalmente transferida à Entre Investimentos;
- O fundo Radford, constituído pela Altinvest, depois administrado pelo Banco Genial "e cujo cotista exclusivo é a Usina Itajobi";
- E as sociedades Berna Holdings Ltda. e Branson Holdings Ltda., formadas em setembro de 2024 com capital social de R$ 1 mil e em nome de um "laranja".

Conhecido como "Mineiro", Freixo Júnior fechou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR), já homologada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito do caso Master. Ele também aparece nas investigações sobre recursos destinados ao orçamento do filme "Dark Horse", sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A Entre Investimentos, de Freixo Júnior, teria sido utilizada por Vorcaro para repasses ao filme. O caso se tornou público em maio, quando o site The Intercept Brasil revelou áudio do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cobrando dinheiro do ex-banqueiro para o longa-metragem.
No documento que embasou a operação, a 2ª Vara Criminal de Catanduva, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), citou relatórios de inteligência financeira que afirmam que o "Mineiro" aparece como "ganhador" em 570 comunicações de prêmios e apostas entre 2020 e 2025, em valores que chegam a R$ 176,4 milhões. O material também listou:
- R$ 1,67 bilhão em operações imobiliárias;
- R$ 187,9 milhões remetidos pela Entre Investimentos à Arka Distribuidora;
- R$ 32,4 milhões recebidos da Duvale;
- R$ 2,84 milhões enviados ao escritório Garcia Peres;
- mais de R$ 1,2 bilhão movimentados pela Logics4u;
- Mais de R$ 200 milhões pela Pmovil.
Do total de ordens judiciais expedidas pela 2ª Vara Criminal de Catanduva, 26 foram cumpridas em São Paulo, sendo 18 na capital e as demais em Barueri, Cotia, Guarulhos, Paulínia e São José dos Campos. A ação também mirou alvos em Betim (MG), Itajaí (SC), Rio de Janeiro, Senador Canedo (GO), Várzea Grande (MT) e Vila Velha (ES) e contou com apoio das unidades do Gaeco nesses estados.

De acordo com a Receita, criminosos criaram primeiro uma estrutura para "ocultar e dissimular" os proprietários de uma usina sucroalcooleira no interior de São Paulo, identificada na operação Carbono Oculto.
Depois, outro operador do mercado financeiro, dono de fintechs e outras empresas, teria utilizado a infraestrutura societária e financeiro do seu grupo empresarial "não apenas para a movimentação financeira das empresas da organização criminosa, como para criar novas camadas de ocultação sobre a titularidade da usina sucroalcooleira, entre outras fraudes".
A empresa forjada para a "a aquisição simulada" da usina movimentou pelo menos R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025, volume que "reforça os indícios de uso de uma estrutura financeira e de investimentos para ocultação patrimonial, dissimulação da origem de recursos e lavagem de capitais".
A titularidade da empresa sucroalcooleira ficou "distribuída entre fundos de investimento e outras empresas aparentemente independentes", mas elementos colhidos na investigação indicam que "a estrutura foi organizada para preservar o controle econômico dela sem que os reais beneficiários fossem revelados".

Um dos pontos centrais da apuração é uma operação de cerca de R$ 370 milhões em créditos creditórios da usina. Levantamentos mostram que uma empresa ligada à sociedade de investimentos comprou esses créditos por meio da transferência de cotas de um fundo de direitos creditórios (FIDC).
"A análise financeira indicou que parcela relevante dos recursos empregados na aquisição das cotas se originou de fundos de investimento controlados pelo mesmo grupo investigado. A estrutura teria criado um fluxo financeiro circular, conferindo aparência de legitimidade à operação e dificultando a identificação dos reais beneficiários", explicou a Receita.
A manobra para ocultar a titularidade da usina ocorreu em duas etapas e por dois grupos de operadores do mercado financeiro.
Conforme o órgão, o esquema "foi providencial não apenas para blindar a usina sucroalcooleira, mas também instrumentalizá-la para a estruturação de um novo negócio jurídico pela organização criminosa: a aquisição de uma das maiores distribuidora de combustíveis do país".
Para comprar a Terrana, suspeitos montaram uma outra estrutura financeira, formada por banco, fundos de investimento, escritório de advocacia, holdings, empresas patrimoniais e de fachada.

"A usina teria recepcionado em suas contas bancárias R$ 100 milhões enviados pela organização criminosa para financiar a aquisição. Seguindo modus operandi já apontado pelo Ministério Público de São Paulo, os valores passaram 'em poucos minutos' por múltiplas contas gráficas de três empresas do grupo ocultadas por contas bolsões em fintechs, usadas como meras 'contas de passagem', até aportarem na conta da usina sucroalcooleira", detalhou.
A fraude também foi "arquitetada", segundo a Receita, por meio de um certificado de depósito bancário vinculado (CDBV). O fundo comprou um CDB perante um banco tradicional "que, por sua vez, utilizou o dinheiro para realizar uma operação 'casada' com a emissão de duas cédulas de crédito bancário para duas empresas de fachada da própria organização criminosa".
Apurações mostram que essas empresas "se capitalizaram mediante o negócio jurídico simulado" e foram utilizados por suspeitos para "ocultar e dissimular os verdadeiros beneficiários finais do negócio", ou seja, a compra da distribuidora de combustíveis.
Investigadores também descobriram que alvos utilizaram um fundo imobiliário para dar "suporte econômico à operação". Imóveis ficavam sob controle do grupo criminoso, mas não constavam no patrimônio pessoal de suspeitos, para dificultar a identificação de proprietários e proporcionar "blindagem".

O papel de cada empresa no esquema
- Uma fintech "permitia a circulação e fragmentação de recursos";
- A empresa sucroalcooleira "recepcionava e incorporava os valores à atividade econômica formal";
- Fundos de investimento funcionavam como "financiadores de fato" na hierarquia empresarial;
- Holdings realizavam aquisições;
- E empresas-veículo, tipo jurídico que serve para intermediar operações, "serviam como camada adicional de separação entre a origem dos recursos e os reais beneficiários dos ativos adquiridos".
A Receita afirmou que a investigação constatou "a construção e a interligação de múltiplas estruturas" de lavagem de dinheiro não apenas pela organização criminosa "atuante em todo o setor de combustíveis".
"Mas essencialmente por operadores do mercado financeiro que prestam serviços de lavagem de capitais, consistindo em verdadeiras convergências criminosas à disposição de múltiplos grupos criminosos."
Outro lado
Em nota enviada à imprensa, o Banco Genial disse que Tupinambá não faz parte da diretoria desde 2026 e que a instituição colabora com as autoridades desde a Carbono Oculto. Leia:
"O Banco Genial esclarece que Humberto Tupinambá não integra a Diretoria e não é sócio da instituição desde maio de 2026, quando ocorreu sua destituição.
Todas as informações relacionadas às operações envolvendo o Fundo Radford, inclusive aquelas relacionadas às empresas Berna e Branson Holdings, que estavam em poder da instituição foram fornecidas pela própria Genial ao Gaeco-SP. Em relação às operações mencionadas, também foram realizadas as comunicações cabíveis ao COAF, nos termos da legislação e da regulamentação aplicáveis.
No âmbito dessas operações, a Genial atuou dentro das atribuições que lhe competiam, observando os procedimentos, normas e regulamentos aplicáveis, considerando as informações disponíveis à instituição à época.
A partir do conhecimento dos fatos, a instituição adotou medidas adicionais de governança e controle, incluindo a instauração de processo de Inspetoria interna, a revisão da governança das operações de crédito, o afastamento do então diretor dos respectivos processos decisórios e sua posterior destituição. A Genial também contou com o apoio de especialistas externos para a revisão e o aprimoramento de seus processos e controles.
Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a Genial renunciou à administração do Fundo Radford e manteve sua postura de colaboração com as autoridades, fornecendo as informações e os documentos solicitados.
A instituição permanece à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações e prestar todos os esclarecimentos que se façam necessários."
As defesas de Roberto Leme e Mohamad Hussein Mourad, por sua vez, afirmam que "seus clientes não foram alvos da operação" deflagrada nesta quinta-feira e "desconhecem os fatos em investigação”.
















