Brasil

Ministério Público de SP denuncia 16 alvos da Carbono Oculto

Entre os denunciados está “Beto Louco”, considerado um dos principais nomes do esquema fraudulento de combustíveis que movimentou mais de R$ 50 bilhões em SP

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Guilherme Seto, Murillo Otavio
Na imagem, bomba enche tanque de carro em posto de gasolina | Reprodução

Na imagem, bomba enche tanque de carro em posto de gasolina | Reprodução

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), ofereceu denúncia, na terça-feira (18), contra 16 pessoas suspeitas de integrar uma organização criminosa investigada pelo desvio de metanol para a adulteração de combustíveis na Grande São Paulo, entre 2017 e 2025. Ao todo, o grupo movimentou cerca de R$ 52 bilhões.

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Entre os denunciados está Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco", apontado como um dos pilares do esquema. Em nota, a defesa de "Beto Louco" diz que o caso é "infeliz tentativa de gerar repercussão midiática". Por outro lado, Mohamad Hussein Mourad, conhecido como "Primo", embora tenha sido investigado por ligação com o grupo, ficou fora desta denúncia apresentada à Justiça.

Segundo a denúncia, o grupo utilizava uma estrutura complexa composta por empresas químicas, transportadoras, distribuidoras, instituições de pagamento e fundos de investimento. A rede era usada para desviar o metanol, adulterar combustíveis e ocultar a origem dos recursos obtidos com a fraude.

"Assim, os denunciados inseriram, sob aparência lícita, valores ilícitos e milionários no mercado formal, incompatíveis com os rendimentos por eles declarados ao fisco, de forma reiterada no âmbito do exercício da atividade econômica e por intermédio de organização criminosa", aponta um trecho da denúncia.

Os alvos são acusados dos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro. O documento do MP aponta ainda indícios de adulteração de combustíveis, crimes tributários e contra o consumidor, estelionato, falsidade documental e crimes ambientais.

O esquema foi desarticulado no âmbito da Operação Carbono Oculto, considerada uma das maiores ações do poder público no combate ao crime organizado.

A investigação detalhou o funcionamento do esquema fraudulento, desde a importação do insumo e adulteração dos combustíveis até a ocultação de patrimônio em postos de gasolina, fintechs e fundos de investimento.

Ainda de acordo com as investigações, integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) atuavam diretamente no esquema. Nesta denúncia específica, contudo, não há acusação formal de que os 16 denunciados pertençam à facção criminosa.

Além de "Beto louco", veja os 15 outros nomes denunciados:

  • Admar de Carvalho Martins (vulgo "Dema")
  • Cesar Cirne Leal;
  • Ed Charles Giusti;
  • Edson da Silva Santos;
  • Everton Felipe de Barros;
  • Filipe Studzinski de Souza;
  • Fernando de Matos Gutierres;
  • Giosimar Jose Caldato;
  • Giovani Dadalt Crespani;
  • José Frederico Modolin Filho;
  • Murilo Foresto de Souza;
  • Rodrigo Augusto Alves de Carvalho Bortone;
  • Ruy Azevedo Gutierres;
  • Thiago Gomes Ribeiro;
  • William Lopes da Silva Júnior.

Veja a nota da defesa de Beto Louco: "A defesa de Roberto Augusto Leme da Silva não teve acesso aos autos até o momento. Contudo, diante do que foi informado pela mídia, os fatos tratados na denúncia não têm nenhum relacionamento com Roberto. Sua inclusão no processo parece uma infeliz tentativa de gerar repercussão midiática, como já ocorreu anteriormente."

Como funcionava o esquema?

Empresas envolvidas

As empresas investigadas importavam nafta, hidrocarbonetos e diesel com recursos de distribuidoras. Segundo a Receita Federal, entre 2020 e 2024, foram importados mais de R$ 10 bilhões em combustíveis pelos investigados.

O metanol, importado supostamente para outros fins, era desviado para uso na fabricação de gasolina adulterada, com sérios prejuízos para os consumidores.

Além disso, a investigação apontou que formuladoras, distribuidoras e postos sonegavam impostos.

Uso de fintechs

Parte dos recursos fraudulentos era inserido no sistema financeiro por meio de fintechs, empresas que utilizam tecnologia para oferecer serviços financeiros digitais. Elas funcionavam como "bancos paralelos", permitindo a movimentação de grandes valores de forma não rastreável.

Uma fintech identificada movimentou mais de R$ 46 bilhões no período investigado, com depósitos em espécie que somaram R$ 61 milhões.

As fintechs criavam contas-bolsão, em que os recursos de todos os clientes circulavam juntos, dificultando a fiscalização. Era dessa forma que as operações financeiras entre as distribuidoras e os postos de combustíveis eram realizadas, assim como compensações financeiras entre as empresas e os fundos de investimentos administrados pela própria organização criminosa.

A fintech era usada ainda para efetuar pagamentos de colaboradores e de gastos e investimentos pessoais dos principais operadores do esquema.

Papel dos fundos de investimento

O dinheiro ilícito era reinvestido em fundos de investimento controlados pela organização, incluindo 40 fundos multimercado e imobiliários de São Paulo, na região da Faria Lima, com patrimônio de R$ 30 bilhões. Tudo para dificultar a rastreabilidade do dinheiro.

Entre os bens adquiridos estão um terminal portuário, quatro usinas produtoras de álcool, 1.600 caminhões, mais de 100 imóveis e fazendas avaliadas em milhões de reais.

A estrutura dos fundos dificultava identificar os beneficiários reais e permitia camadas de ocultação.

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