Política

Durigan vê elo entre produtora de Dark Horse, PCC e Master

Operação Crédito Oculto mira o Grupo Entre, ligado ao Banco Master, e rastreia R$ 11,6 bilhões em estruturas usadas para ocultar a compra da Terrana

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Caio Barcellos
Ministro da Fazenda, Dario Durigan, no anúncio do Desenrola Adimplentes | Divulgação/Washington Costa/MF

Ministro da Fazenda, Dario Durigan, no anúncio do Desenrola Adimplentes | Divulgação/Washington Costa/MF

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quinta-feira (24) que o Grupo Entre, alvo da nova fase da Operação Carbono Oculto, recebia recursos tanto do Banco Master quanto do crime organizado e concentrava esses valores em uma mesma estrutura financeira usada, segundo as investigações, para lavar dinheiro e ocultar patrimônio.

A Entre Investimentos também aparece nas apurações sobre o financiamento de Dark Horse, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A empresa fez repasses ao fundo norte-americano Havengate Development Fund a pedido de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

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“Estamos falando de uma administradora, de um grupo empresarial, que é o Grupo Entre, que recebia dinheiro tanto do Banco Master quanto do crime organizado, e dentro de um mesmo bolso”, afirmou o ministro durante entrevista coletiva no Ministério da Fazenda.

Segundo Durigan, a concentração de recursos de diferentes origens ajuda a explicar a liquidez das empresas e dos fundos investigados e dificulta a identificação do caminho percorrido pelo dinheiro antes de chegar ao destino final. A Receita Federal identificou R$ 11,6 bilhões em movimentações dentro do grupo empresarial analisado nesta terceira etapa da Carbono Oculto.

Na avaliação do ministro, a estrutura funcionava como uma “lavanderia” do crime dentro do sistema financeiro, com fundos de investimento, bancos, gestoras e outras empresas criando sucessivas camadas para movimentar recursos, ocultar patrimônio e dificultar a identificação dos verdadeiros beneficiários.

Durigan afirmou que parte desses agentes atuava como “braços financeiros do crime organizado” e permitia que recursos circulassem entre diferentes empresas e fundos antes de retornarem aos mesmos grupos de interesse.

Batizada de Crédito Oculto, a operação desta quinta-feira investiga o uso de fintechs, bancos, fundos de investimento, holdings e empresas de fachada para esconder os verdadeiros controladores de ativos e viabilizar a aquisição da Tobras Distribuidora de Combustíveis, conhecida como Terrana.

Entre os alvos estão Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro, dono da Entre Investimentos e delator em investigações relacionadas ao Banco Master, e Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-diretor do Banco Genial.

Dinheiro do filme é investigado

Questionado se a estrutura financeira identificada nesta fase também poderia ter sido usada nos repasses destinados ao filme Dark Horse, Durigan respondeu que “tudo indica que sim”, mas ressaltou que ainda cabe à investigação determinar a origem específica do dinheiro destinado a cada operação.

Segundo o ministro, a dificuldade decorre justamente da mistura de recursos de diferentes origens dentro dos mesmos fundos e empresas.

“Se você tem dinheiro do PCC, tem dinheiro de usina do crime organizado, de distribuidora de combustível do crime organizado, no mesmo bolso, no mesmo fundo, é um trabalho de investigação identificar o que saiu desse fundo”, afirmou.

Compra da Terrana

A Operação Crédito Oculto investiga como integrantes do grupo associado aos empresários Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, teriam ocultado sua participação na compra da Terrana, uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país.

Segundo a investigação, R$ 100 milhões destinados ao negócio passaram, em poucos minutos, por contas de diferentes empresas antes de chegar a uma usina sucroalcooleira. Os valores foram posteriormente aportados em um fundo de investimento e utilizados em uma estrutura que envolveu um certificado de depósito bancário e empréstimos concedidos a holdings criadas para a aquisição da distribuidora.

A suspeita é que a sequência de operações tenha criado distância entre a origem do dinheiro e a compra da Terrana, escondendo quem efetivamente financiou e se beneficiou do negócio.

A Receita também identificou uma operação de aproximadamente R$ 370 milhões envolvendo direitos creditórios da usina. Uma empresa ligada ao grupo teria adquirido esses créditos por meio da transferência de cotas de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), com parte relevante dos recursos proveniente de fundos controlados pelo próprio grupo investigado.

Para os investigadores, esse circuito criou um fluxo financeiro circular que dava aparência regular às transações e tornava mais difícil identificar os beneficiários finais.

Cláudio Ferrer, superintendente-adjunto da Receita Federal em São Paulo, afirmou que a apuração identificou duas estruturas principais. A primeira teria servido para ocultar os verdadeiros controladores da usina, enquanto a segunda envolveu a criação de outro fundo, além da participação de bancos e administradoras de recursos, para esconder quem estava por trás da aquisição da distribuidora.

Outro lado

O Banco Genial afirmou que Humberto Tupinambá não integra a diretoria nem o quadro societário da instituição desde maio de 2026 e disse ter fornecido ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) as informações relacionadas às operações envolvendo o fundo Radford e as empresas Berna e Branson Holdings.

O banco também afirmou que realizou as comunicações previstas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), adotou medidas adicionais de governança após tomar conhecimento dos fatos e renunciou à administração do fundo Radford depois da primeira fase da Carbono Oculto.

Segundo a instituição, as operações foram conduzidas de acordo com as atribuições e regras aplicáveis, considerando as informações disponíveis à época, e o banco permanece à disposição das autoridades.

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