Cidades

PCC está mais forte, internacionalizado e infiltrado no poder público, diz repórter que descobriu facção

Grupo criminoso que promoveu ataques em 2006 expandiu atuação para 28 países e hoje movimenta bilhões com tráfico e lavagem de dinheiro

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Emanuelle Menezes
12/05/2026, 14:36 • Atualizado em 12/05/2026, 14:36
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Há exatos 20 anos, em 12 de maio de 2006, São Paulo vivia o início de uma das maiores crises de segurança pública da história do país. Em reação à transferência de líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC) para presídios de segurança máxima, a facção criminosa promoveu uma onda coordenada de ataques contra policiais, agentes públicos, prédios do Estado e unidades prisionais.

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O saldo foi devastador: centenas de mortos, rebeliões em dezenas de presídios, escolas fechadas, comércio paralisado e transporte público reduzido.

Duas décadas depois, especialistas apontam que o PCC não apenas sobreviveu, mas se tornou uma das maiores organizações criminosas da América Latina, com atuação internacional, infiltração em estruturas públicas e movimentação bilionária – a ponto de investir no maior símbolo do mercado financeiro do Brasil: a Faria Lima, como revelou a Operação Carbono Oculto.

Em entrevista ao News Manhã, do SBT News, a repórter Fátima Souza, que cobre segurança pública há 40 anos e foi a primeira jornalista a revelar a existência do PCC nos anos 90, afirmou que a facção mudou radicalmente sua forma de operar.

"O PCC trabalha como uma empresa. O objetivo é dinheiro, lucro, lucro, lucro. Assim ele conseguiu chegar ao ponto de investir mais de R$ 50 milhões na Faria Lima", resumiu.

Como o PCC foi descoberto

Fátima relembrou que identificou os primeiros sinais da facção em 1996, durante uma rebelião em um presídio no interior paulista. Segundo ela, o motim tinha um nível de organização incomum para a época.

"Era totalmente diferenciada, era uma rebelião organizada. Tinha comando, uma pessoa coordenando", contou.

A partir da investigação jornalística, ela entrevistou um detento conhecido como Macalé, que revelou a existência de uma "facção atrás das grades". Dias depois, um dos fundadores do grupo entrou em contato com a jornalista e enviou o estatuto do PCC.

Naquele momento, a facção tinha cerca de 2 mil integrantes. Hoje, segundo estimativas, o grupo reúne aproximadamente 600 mil pessoas, entre membros e simpatizantes.

PCC mudou estratégia e passou a se infiltrar no Estado

Segundo a repórter, a facção deixou de atuar apenas no confronto direto contra o Estado e passou a investir em infiltração institucional e lavagem de dinheiro. A organização conseguiu cooptar integrantes de estruturas públicas e ampliar sua presença no mercado financeiro, no setor de combustíveis e até em atividades ligadas à exploração de recursos naturais.

"Gente que deveria estar combatendo, mas está lá dentro. Polícia, Ministério Público, Judiciário. Conseguiram cooptar gente do poder, que deveria combatê-los, mas estão aliados, infelizmente", disse.

Facção expandiu atuação para 28 países

O procurador de Justiça Márcio Christino, referência no combate ao crime organizado, explica que o grande salto financeiro do PCC ocorreu após a aproximação com traficantes bolivianos, especialmente a partir de 2016.

Segundo ele, a facção passou a atuar como intermediadora internacional do tráfico de cocaína entre Bolívia e Europa.

"O PCC hoje intermedeia o tráfico internacional. Foi isso que trouxe uma quantidade de dinheiro inacreditável e que forjou sua grande expansão", afirmou.

Atualmente, a facção está presente em ao menos 28 países. A atuação internacional ocorre principalmente por meio de rotas de exportação de drogas que passam por portos brasileiros, com destaque para o Porto de Santos.

O procurador destaca que o controle das fronteiras brasileiras continua sendo um dos maiores desafios no combate ao narcotráfico e comparando a situação do país com a dos Estados Unidos, que, mesmo com alta tecnologia e vigilância intensiva na fronteira com o México, não conseguem impedir completamente o tráfico de drogas.

"Se os Estados Unidos não conseguem controlar uma fronteira pequena, imagine o Brasil, com áreas enormes de floresta e regiões praticamente inacessíveis", disse.

Segundo o Christino, o combate efetivo depende menos de vigilância física e mais de inteligência, investigação financeira e monitoramento das rotas utilizadas pelas facções.

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