De olho no Congresso, Trump promete US$ 5 mil por americano
Em quase 2 horas de discurso em Dallas, presidente dos EUA diz que “não negocia com lunáticos” e tenta mobilizar eleitores para as eleições legislativas

Trump pede aos eleitores que finjam que ele está na cédula e promete pagamento de US$ 5.000 | Reuters
Dallas — Faltavam pelo menos seis horas para Donald Trump subir ao palco quando três amigas já estavam a postos na arquibancada, à espera do presidente americano.
“Contando com agora, vi o presidente Trump duas vezes e foi tão emocionante”, contou Charlene Umberger ao SBT News.
Moradora do Texas, ela não hesitou ao dizer o que gostaria de ouvir naquela noite: que Trump pretende concorrer novamente à Presidência.
“Há rumores de que eles vão encontrar um jeito de levá-lo de volta à cédula de votação, então vamos ver. Se alguém pudesse fazer isso, seria ele.”
Charlene se referia à eleição presidencial de 2028. A Constituição dos Estados Unidos impede que uma mesma pessoa seja eleita presidente mais de duas vezes, consecutivas ou não. Trump já fez comentários e brincadeiras sobre a possibilidade de permanecer no poder além do atual mandato. Seja qual for a intenção do presidente ao tocar no assunto, entre parte de seus eleitores mais fiéis a ideia é levada a sério.
Marcia Michael, uma das três amigas, veio de McLennan County, também no Texas. Para ela, um dos principais desafios dos republicanos é convencer os próprios simpatizantes a comparecer às urnas.
“É uma região vermelha”, disse, usando a cor associada ao Partido Republicano. “Sem crime, muito bem governada e, como consequência, acho que um dos meus colegas mencionou, a complacência é o nosso maior inimigo. As pessoas se sentem em casa e não votam. E essa é a nossa maior preocupação.”
Nos Estados Unidos, o voto não é obrigatório. Ao mesmo tempo, Trump e integrantes do Partido Republicano têm questionado há anos as regras de votação antecipada e por correio, permitidas de diferentes formas em muitos estados.
Marcia chama de “complacente com o inimigo” o republicano que deixa de votar.
“Precisamos tirar as pessoas daquela complacência e fazê-las entender que têm um papel a desempenhar como patriotas”, afirmou.

O público da convenção é majoritariamente fiel ao presidente. Mas, a menos de dois meses das eleições legislativas de novembro, o partido que controla a Casa Branca precisa ir além da base mais entusiasmada e falar também com o eleitor republicano afetado pela situação econômica. A guerra contra o Irã pressionou os preços dos combustíveis, enquanto os índices de aprovação de Trump têm oscilado.
“Nós acreditamos que as pessoas não conhecem muito bem o que o presidente Trump está fazendo, conseguindo, para melhorar a qualidade de vida e a situação das pessoas nos Estados Unidos. Mais de 90% das notícias que aparecem sobre o presidente Trump são negativas, coisa que complica um pouco a situação da popularidade dele”, disse ao SBT News Jaime Florez, porta-voz do Comitê Nacional Republicano.
Florez também mencionou uma dificuldade histórica para o partido que ocupa a Casa Branca: nas eleições de meio de mandato, é comum que a legenda do presidente perca cadeiras no Congresso.
“Nós acreditamos que ele, como mensageiro, pode resolver essa situação em favor dos republicanos”, afirmou.
Questionado sobre o que mudaria caso os democratas conquistassem o controle do Congresso, respondeu:
“Nós precisamos de estabilidade, e essa estabilidade só pode ser garantida com o presidente na Casa Branca e o Congresso de maioria republicana. O que a gente teria com um Congresso de maioria democrata seria disfuncionalidade. O Congresso não estaria em condições de aprovar orçamentos, de aprovar leis.”
“Trumpalooza” em Dallas

O apelido “Trumpalooza” passou a acompanhar a convenção republicana em Dallas, organizada em torno da figura do presidente e da tentativa de mobilizar a base para as eleições de novembro.
Nos corredores, Trump estava por toda parte. Entre os souvenirs à venda havia camisetas, porta-copos e uma variedade de produtos e fotografias com a imagem do presidente.
No palco, durante um discurso de quase duas horas, Trump disse que, nesta altura da vida, não precisaria estar percorrendo o país.
“Podia estar aproveitando em qualquer lugar do mundo, mas estou aqui porque amo vocês”, afirmou.
Da arquibancada onde estava a equipe do SBT News, a resposta veio em gritos: “Eu te amo”.

US$ 5 mil por adulto se republicanos vencerem
Foi no campo da economia que Trump fez um dos anúncios de maior impacto da noite.
Sem detalhar de onde sairia o dinheiro, o presidente prometeu pagar US$ 5 mil a cada cidadão americano adulto caso os republicanos mantenham o controle da Câmara dos Representantes e do Senado nas eleições de novembro.
Trump batizou a proposta de “Trump Dividend” — o “Dividendo Trump”.
“Se os republicanos vencerem a Câmara dos Representantes e o Senado dos Estados Unidos, por causa de nossa tremenda força e sucesso econômico, vou conceder um dividendo de US$ 5 mil a cada cidadão adulto dos Estados Unidos”, afirmou.
A promessa veio acompanhada de uma condição adicional: o dinheiro teria de ser gasto dentro do país.
“Não queremos que vocês vão ao Canadá gastar o dinheiro”, disse.
Trump não apresentou durante o discurso detalhes sobre a origem dos recursos, o mecanismo de pagamento ou como a medida seria aprovada e implementada.
Em vários momentos, o presidente pediu aos apoiadores que encarassem as eleições legislativas como se o próprio nome dele estivesse na cédula. A estratégia deixa clara a tentativa de transferir para os candidatos republicanos a mobilização que Trump costuma provocar entre seus eleitores nas eleições presidenciais.
Irã e um novo “ato contra a invasão”
Trump também dedicou parte do discurso à guerra contra o Irã. Sem apresentar um plano para encerrar o conflito iniciado no fim de fevereiro, afirmou que “não negocia com malucos e lunáticos”.
Ao falar sobre o programa nuclear iraniano e a ofensiva militar dos Estados Unidos, ironizou:
“Se tivéssemos permitido que eles tivessem uma arma nuclear, eu agora estaria falando: ‘Senhor Líder Supremo, o que o senhor deseja? O que posso fazer pelo senhor?’”
Em seguida, afirmou que, em vez disso, os Estados Unidos bombardearam o país.
Na imigração, uma das principais bandeiras de sua campanha de 2024 e de seu segundo mandato, Trump anunciou ainda que pretende assinar uma medida que chamou de “No Invasion of Our Country Act”, algo como “Lei para Impedir a Invasão do Nosso País”.
Segundo o presidente, o objetivo seria dificultar que futuros governos revertam as medidas migratórias adotadas por sua administração. Trump, porém, não detalhou no discurso como a proposta funcionaria nem quais seriam seus dispositivos.
O presidente também voltou a mencionar mudanças de nomes geográficos promovidas por seu governo, como a adoção de “Golfo da América” para o Golfo do México.
Perto do fim do discurso, Trump lembrou o assassinato de Charlie Kirk, ocorrido há exatamente um ano. A viúva do influenciador conservador estava na plateia, próxima ao secretário do Tesouro e a outras autoridades, entre elas o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson.
Trump deixou o palco prometendo voltar nesta quinta-feira para o encerramento da convenção de dois dias.
“Mas não falarei tanto como hoje. Já dei muitas notícias. Virei agradecer”, disse.
E saiu ao som de “Y.M.C.A.”, música que há anos acompanha o encerramento de seus comícios.

























