Tarifaço também pode prejudicar indústria dos EUA, diz CEO
Wagner Parente, da Consultoria BMJ, representou 11 setores da indústria brasileira na audiência do USTR


Wagner Parente, CEO da BMJ/Divulgação
Washington DC - A coluna “Direto da Casa Branca” conversou com Wagner Parente, CEO da Consultoria BMJ, que representou 11 setores da indústria brasileira na audiência do USTR, o escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos.
Ele foi um dos brasileiros que marcaram presença na audiência da Seção 301 para tentar evitar a tarifa de 25% para o Brasil
Parente avalia que eventual taxação pode causar um prejuízo para a indústria norte-americana, já que no caso das máquinas, por exemplo, há uma porcentagem grande de negócios intercompany, quando há plantas montadas também nos Estados Unidos.
Enquanto empresas norte-americanas como Tesla, Coca-Cola e Nestlé enviaram cartas ao USTR contra a tarifação extra ao Brasil, alertando para os riscos econômicos para os Estados Unidos, setores norte americanos como o etanol, a celulose e a siderurgia tentaram argumentar na audiência a favor da taxação.
Qual foi a principal mensagem que foi levada ao governo americano?
A principal mensagem que foi levada para o governo americano é o impacto na própria indústria nacional americana dessa medida. A nossa defesa, ela é muito mais setorial do que uma representação funcional do governo brasileiro. Então, aspectos mais específicos das indústrias que a gente representa foram mais relevantes para esse tipo de defesa. No caso específico de máquinas, por exemplo, o comércio intercompany é muito grande. A gente está falando de algumas linhas tarifárias que representam quase 85% do comércio intrafirma. Ou seja, são empresas afiliadas americanas no Brasil exportando para empresas americanas aqui nos Estados Unidos. Quando você sobretaxa esse tipo de comércio, você está causando um prejuízo para a própria indústria americana e distorcendo o comércio, levando, por exemplo, que essas operações fiquem menos competitivas e deslocando, talvez, o comércio para a Índia, para a China, o que é exatamente o oposto que esse tipo de medida que se propõe a fazer, que é fortalecer a indústria americana.
O senhor percebeu algum setor específico ou setores específicos da indústria norte-americana mais organizados em relação a fazer a defesa do lado deles, norte-americano?
Sim. A gente viu manifestações principalmente da indústria siderúrgica, que compareceu lá falando positivamente a respeito da sobretaxa. Vimos também representantes da indústria do etanol, representantes da indústria da carne bovina sustentando a sobretaxa do setor brasileiro e também do papel celulose. Foram os três setores que estiveram lá presentes e me pareceram um pouco mais organizados em relação à sustentação da sobretaxa aos setores brasileiros.
Qual o principal argumento ou os principais argumentos que os diferentes setores que estiveram presentes nesses dois dias do Brasil usaram e que o senhor avalia que podem ser avaliados de uma forma positiva e fazer a diferença ao fim da decisão?
Acredito que esse desvio de comércio criado pela sobretaxa para a China é algo super relevante. Então, tem alguns segmentos da indústria que você tem poucos fornecedores. Quando você tem três ou quatro fornecedores de um determinado produto, você sobretaxa ele. Por exemplo, um produtor que está localizado no Brasil, ele é sobretaxado. E o seu concorrente fica em um país asiático, é evidente que aquele país vai ganhar o mercado americano. Então, eu acho que esse tipo de argumento é muito forte.
O segundo, ou o primeiro, rivalizando com esse primeiro argumento que eu mencionei, é de fato o impacto inflacionário aqui dentro e esse desmantelamento de uma cadeia de fornecimento que levou muito tempo a ser feito. De novo, a maior parte do comércio Brasil-Estados Unidos é de bens de capital, não de bens de consumo. Então, você demora muito tempo para poder certificar um produtor de um determinado bem ou equipamento usado em uma produção. Isso não consegue ser feito muito rapidamente e, mais, não é feito sem custo e esse custo acaba, evidentemente, sendo arcado pelos próprios americanos.
Dos 11 setores que o senhor representa aqui, existe alguma estratégia comum entre elesou cada setor, de uma certa forma, trava sua própria defesa, batalha para tentar fazera inclusão desses itens em uma possível, eventual, lista de exclusão?
Acho que tem argumentos que são um pouco mais comuns. É uma investigação de Seção 301. Então, você tem lá essa contestação do desmatamento, do Pix, enfim. Tem uma série de argumentos que vão ter que ser comuns entre os setores porque é sobre isso que se trata a investigação. Mas, de fato, o que vai fazer a diferença para a exclusão de determinado produto são os argumentos específicos que eu mencionei.
Então, por exemplo, a gente viu nas audiências o setor de calçadista sendo representado. Para eles, o argumento é muito diferente do setor de máquinas e equipamentos que eu mencionei. Para o setor de calçados, o principal argumento é que simplesmente não tem produção de calçado no Brasil. Só tem dois lugares do mundo que produzem calçado e vão para esse ponto positivo. É aqui, no Brasil ou na China. Se você tirar o Brasil, vai para a China. Então, é evidente que para esse setor, o apoio dos grandes varejistas americanos, norte-americanos, faz toda a diferença. E eles estavam representados na audiência de ontem.
Então, de novo, eu acho que existe uma boa chance de exclusões para esses setores que estiveram presentes e que se manifestaram. E tem outro aspecto muito interessante que eu vi pouco mencionado. Você, ainda que seja penalizado, o seu setor seja penalizado, que seja sobretaxado, você só vai conseguir ter uma boa chance de contestar isso na Justiça depois se houver participação no processo administrativo que terminou ontem. Então, ainda que não tenha o efeito esperado a participação dessas audiências, para você poder contestar depois, faz todo sentido você ter marcado presença ontem e anteontem nas audiências.
O Departamento de Tesouro e outras instituições norte-americanas têm autonomia para fazer as decisões em relação às tarifas. O presidente Donald Trump, no entanto, parece muito determinado em buscar ferramentas alternativas ao decreto dele, que foi invalidado pela Suprema Corte. Quão potente ou importante é a diplomacia empresarial nesse processo, que parece caminhar paralelamente à diplomacia e à política?
Eu acho que são papéis complementares e super importantes. A defesa institucional da nossa política de proteção ambiental, por exemplo, faz muito mais sentido que seja feita pelo governo brasileiro. Quem tem legitimidade para falar que o nosso código ambiental é forte, que as nossas instituições estão funcionando, que os índices de desmatamento estão melhorando, é o governo brasileiro. Acho que faz todo sentido que eles tenham a liderança.
Quando a gente fala de projetos específicos, de programas específicos setoriais, de cooperação entre empresas, desse mercado intracompany que eu mencionei, aí faz sentido que seja assim uma defesa setorial, até porque o governo não tem como entender de tudo. Então eu acho que ficou claro, desse processo, que o setor privado brasileiro, se considera o mercado norte-americano importante, precisa estar aqui. E Washington, nesse aspecto, ainda é um pouco desconhecido para a maior parte dos setores brasileiros. Então eu acho que fica de lição para os próximos processos, para os próximos anos, que os setores precisam estar representados, precisam estar aqui para estar mais preparados para esse tipo de ação no futuro.























