Política

Amorim vê mundo ‘em carne viva’ e critica uso da força

Em discurso na Índia, representante brasileiro criticou guerras, defendeu multipolaridade e afirmou que sistema multilateral como era conhecido ‘não voltará’

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Túlio Amâncio
Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República | Divulgação

Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República | Divulgação

O Assessor Especial da Presidência da República, Celso Amorim, avalia que o mundo atravessa um período de ruptura, marcado pela expansão dos conflitos e pela perda de força das regras que tradicionalmente organizaram as relações internacionais. Em discurso nesta segunda-feira (14), em Nova Déli, o representante brasileiro afirmou que o planeta vive um “mundo em carne viva”.

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A declaração foi feita durante evento na Observer Research Foundation (ORF), think tank indiano, ao comentar a definição do papa Leão XIV de que o mundo já estaria vivendo uma “guerra mundial em pedaços”.

“Em minhas próprias palavras, descrevi humildemente como um mundo em carne viva”, afirmou.

Segundo o representante brasileiro, o principal sintoma da crise internacional é a “normalização do uso da força”. Ele citou o conflito em Gaza e as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio como exemplos de uma ruptura da ordem internacional.

“O conflito genocida que continuamos a testemunhar em Gaza choca a consciência da humanidade”, disse.

Para ele, mesmo países que não estão diretamente envolvidos nos conflitos sofrem seus efeitos econômicos e políticos.

Brasil defende nova ordem mundial

Diante desse cenário, o Brasil defendeu uma reformulação das regras internacionais e uma maior participação de países do Sul Global nas decisões.

“O sistema multilateral como o conhecíamos não voltará”, afirmou.

Na avaliação apresentada, será inevitável uma renegociação das normas internacionais. Brasil e Índia, segundo ele, precisam atuar conjuntamente para garantir que os países em desenvolvimento tenham participação na definição das regras da próxima ordem mundial.

A defesa é de um sistema multipolar, com diferentes centros de poder.

“Não há dúvida de que a multipolaridade é preferível à unipolaridade, ou mesmo à bipolaridade”, afirmou.

O representante brasileiro fez, porém, uma ressalva: a multipolaridade não pode significar uma nova divisão do mundo em esferas de influência.

Para evitar esse risco, defendeu a reconstrução de um sistema baseado em regras negociadas multilateralmente.

‘Do minério bruto à bateria’

A exploração de minerais estratégicos também foi tratada como uma oportunidade para o Brasil ampliar sua autonomia tecnológica.

O país possui reservas de minerais críticos, incluindo terras raras, mas, segundo o representante, não deveria se limitar à exportação de matérias-primas.

“Precisamos passar do minério bruto à bateria — e resistir à ganância internacional”, afirmou.

A ideia é utilizar esses recursos para desenvolver uma cadeia industrial capaz de produzir tecnologias de maior valor agregado.

A busca por uma ‘fresta de luz’

No fim do discurso, Amorim recorreu a uma metáfora discutida em uma conversa virtual com o pensador Noam Chomsky.

Segundo ele, quando uma pessoa está em um quarto escuro, muitas vezes consegue enxergar apenas uma pequena fresta por onde entra luz. A tarefa, então, é encontrar essa abertura e ampliá-la.

A metáfora, afirmou, representa a postura que o Brasil deve adotar diante da crise internacional.

“Essa é a atitude que acredito que devemos adotar diante dos desafios atuais: nunca desistir e sempre procurar os raios de luz”, afirmou.

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