Irritado, Lula aposta em pressão popular contra Congresso
Perda de controle sobre pautas-bomba que avançaram nesta semana no Senado reforçou no chefe do Palácio do Planalto a sensação de que é refém do Legislativo


Lula e Motta riem durante a cerimônia, com Alcolumbre do outro lado | Flickr/TCU
Aliados têm aconselhado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a adotar uma postura de maior enfrentamento com o Congresso caso seja reeleito em outubro. De acordo com pessoas que conversaram recentemente com o petista, ele demonstra cada vez mais irritação com o Senado e a Câmara. A perda de controle sobre as pautas-bomba que avançaram nesta semana reforçou no chefe do Palácio do Planalto a sensação de que é refém do Legislativo.
Diante desse cenário, Lula está se convencendo de que, para conseguir aprovar uma agenda mais robusta em um eventual quarto mandato, terá de apelar o tempo todo para que a opinião pública pressione deputados e senadores.
Interlocutores do presidente afirmam que, em caso de reeleição, o governo Lula 4 deverá ser mais ousado. Conselheiros do petista dizem que ele não teria nada a perder, já que estaria prestes a encerrar sua carreira política. E, por isso mesmo, teria um ímpeto maior para passar legislações que sirvam como legado.
Uma demonstração de como funcionaria essa nova dinâmica foi dada no ano passado, quando o PT foi às redes sociais taxar o Congresso de “inimigo do povo” em meio à resistência dos parlamentares de aprovar taxação maior para pessoas de alta renda como compensação ao aumento da faixa de isenção de IR para quem ganha menos. A campanha também foi uma reação à dificuldade do governo em aprovar o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
A discussão sobre o fim da escala 6x1 também tem demonstrado a força da opinião pública para influenciar o Legislativo. Depois de serem bombardeados nas redes sociais recentemente, três senadores da oposição retiraram o apoio à PEC alternativa apresentada por Rogério Marinho (PL-RN) que prevê contratos por hora trabalhada.
Lula tem enfrentado dificuldades com a Câmara e o Senado desde o início deste terceiro mandato. Apesar de ter distribuído ministérios para partidos como MDB, PSD, União Brasil, PP e Republicanos, o presidente continuou com uma base aliada frágil no Congresso.
Uma das explicações para esse cenário é que a Câmara e o Senado são hoje majoritariamente de centro-direita, enquanto o petista se define como de esquerda. Mas não só isso: o controle maior que os parlamentares adquiriram ao longo dos últimos anos sobre as emendas ao Orçamento os tornam mais independentes do governo.
O PT fará um esforço para eleger em outubro mais deputados e senadores alinhados com a esquerda, mas não há expectativa de que a composição das Casas mude significativamente. Por isso, o diagnóstico é de que a solução para melhorar a governabilidade terá de vir de pressão social estimulada pelo próprio Planalto.

























