Política

Redes sociais elegem presidentes? Especialistas respondem

Pesquisa diz que plataformas já superam a TV como principal fonte de informação política, mas cientistas políticos afirmam que seguidores não garantem votos

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André Barbeiro
Presidente Lula (PT) | Ricardo Stuckert/PR

Presidente Lula (PT) | Ricardo Stuckert/PR

As redes sociais superaram a televisão como principal fonte de informação política do país. Segundo a pesquisa Genial/Quaest divulgada em 15 de julho, 36% dos brasileiros dizem acompanhar notícias políticas principalmente pelas plataformas digitais, contra 34% que ainda recorrem à TV.

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Entre os jovens, a diferença é ainda maior. Mais da metade (52%) dos eleitores de 16 a 34 anos afirma consumir informação política pelas redes sociais, enquanto apenas 20% preferem a televisão. Entre pessoas com mais de 60 anos, o cenário é inverso: 55% ainda utilizam a TV como principal fonte de informação, contra 16% que priorizam as plataformas digitais.

Como as pessoas se informam | Foto: Reprodução/Genial/Quaest
Como as pessoas se informam | Foto: Reprodução/Genial/Quaest

O avanço das redes levanta uma dúvida cada vez mais presente no debate político: quem domina a internet também sai na frente nas urnas? Para cientistas políticos ouvidos pelo SBT News, a resposta é não. As redes ampliam alcance, fortalecem narrativas e ajudam na mobilização de eleitores, mas continuam longe de determinar o resultado de uma eleição.

Quando milhões de seguidores não viram votos

O escritor e pré-candidato Augusto Cury (Avante) é um exemplo. Ele reúne cerca de 8,2 milhões de seguidores no Instagram, número muito superior ao do candidato Renan Santos (Missão), que possui aproximadamente 2,1 milhões. Apesar disso, as pesquisas eleitorais colocam Renan à frente na disputa presidencial, enquanto Cury aparece com apenas 1% das intenções de voto.

Balanço de redes sociais dos presidenciáveis | Foto: Arte SBT News
Balanço de redes sociais dos presidenciáveis | Foto: Arte SBT News

Para os especialistas, esse contraste mostra que audiência nas redes sociais e capital eleitoral são conceitos diferentes.

"Não existe correlação direta entre seguidores, engajamento e capital eleitoral. Curtidas, compartilhamentos e visualizações são indicadores úteis para medir alcance e mobilização, mas são insuficientes para estimar a força eleitoral", afirma Rodolfo Silva Marques, doutor em Ciência Política pela UFRGS e professor da Universidade da Amazônia (Unama).

Segundo ele, seguidores representam públicos muito diferentes. Há quem acompanhe um político por admiração, curiosidade, crítica ou até para discordar de suas posições. Por isso, transformar audiência em voto depende de fatores que vão muito além da internet.

"Like não é voto", resume o também cientista político Fabio Andrade. Segundo ele, outro erro comum é analisar apenas Instagram e X, enquanto boa parte da campanha acontece em ambientes fechados, como grupos de WhatsApp e Telegram.

"As maiores mobilizações políticas acontecem pelo WhatsApp. Mais importante do que contar curtidas é entender como as mensagens circulam entre grupos privados", afirma.

Maurício Ramos, cientista político da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), também afirma que engajamento digital costuma refletir apenas a mobilização de quem já apoia determinado candidato.

"Muitas vezes o alto engajamento representa apenas uma base muito fiel e ativa, e não necessariamente novos eleitores."

Economia continua decidindo eleições

Na avaliação dos especialistas, a internet influencia a campanha, mas continua dividindo espaço com temas muito mais relevantes para o eleitor.

Inflação, preço dos alimentos, emprego, renda, segurança pública, programas sociais e avaliação do governo seguem sendo os principais fatores na escolha do voto.

"As plataformas aceleram a comunicação política, mas dificilmente superam fatores estruturais como economia, custo de vida e avaliação do governo", afirma Rodolfo Silva Marques.

Paulo Ramirez, também cientista político da FESPSP, acrescenta que eleições presidenciais continuam sendo definidas principalmente pela percepção que o eleitor tem sobre sua própria qualidade de vida.

Redes fortalecem quem já tem uma base

Outro consenso entre os pesquisadores é que as redes sociais funcionam melhor para consolidar eleitorados.

Os algoritmos tendem a impulsionar conteúdos que geram engajamento entre pessoas que já compartilham das mesmas opiniões, criando comunidades altamente mobilizadas, mas nem sempre capazes de ampliar o eleitorado.

"A presença digital não equivale à construção de uma maioria eleitoral. Muitos candidatos acabam falando apenas para sua própria bolha", resume Rodolfo Silva Marques.

No fim das contas, a pesquisa Quaest mostra que as redes sociais se tornaram o principal espaço de informação política no Brasil. Mas, para quem estuda comportamento eleitoral, a conclusão permanece a mesma: seguidores, curtidas e viralizações ajudam a construir visibilidade, porém ainda não substituem fatores como economia, credibilidade, rejeição e avaliação dos governos na hora em que o eleitor aperta o botão da urna.

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