Política

Flávio tenta se comparar a Guaidó, avalia especialista

Senador deixou o Brasil após a derrota eleitoral e busca se apresentar como perseguido político; ele é alvo de dois inquéritos no STF

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Beatriz Nogueira
Flávio Bolsonaro (PL) fala com jornalistas após resultado do primeiro turno das eleições de 2026 | Joédson Alves/Agência Brasil - 04.10.2026

Flávio Bolsonaro (PL) fala com jornalistas após resultado do primeiro turno das eleições de 2026 | Joédson Alves/Agência Brasil - 04.10.2026

Ao se comparar a figuras políticas que enfrentaram perseguições em outros países, em carta divulgada na quarta-feira (28), Flávio Bolsonaro (PL) tenta construir uma imagem semelhante à do opositor venezuelano Juan Guaidó. A avaliação é da professora de relações internacionais da FAAP e pesquisadora da USP Marsílea Gombata, que aponta diferenças entre os dois casos.

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Guaidó, ex-presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, se autoproclamou presidente interino do país em 2019, após contestar a legitimidade do novo mandato de Nicolás Maduro. Na época, o processo eleitoral venezuelano era questionado por governos e organizações internacionais, que apontavam a ausência de condições para uma disputa livre e justa.

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Flávio, por sua vez, deixou o Brasil após ser derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial. O senador não reconhece o resultado das urnas, embora seu próprio partido, o PL, tenha reconhecido a derrota. A eleição brasileira também foi considerada democrática por órgãos de fiscalização eleitoral e pela Organização dos Estados Americanos (OEA).

"Talvez ele esteja trabalhando para ser visto pelo mundo como alguém que está sendo perseguido dentro de um estado não democrático. O Brasil não está no estado de exceção, as regras funcionam. Podemos contestar se elas estão longe ou perto de um ideal, mas elas funcionam", avalia Marsílea.

O que diferencia Flávio Bolsonaro de Juan Guaidó?

Após se autoproclamar presidente interino, Guaidó recebeu o reconhecimento dos Estados Unidos e de governos europeus e sul-americanos. O opositor venezuelano também passou a enfrentar acusações de traição, usurpação de funções, associação criminosa e desvio de dinheiro, que nega e classifica como perseguição política do governo Maduro.

Guaidó permaneceu na Venezuela durante os primeiros anos da crise política e deixou o país em 2023, quando chegou aos Estados Unidos.

Já Flávio deixou o Brasil após a derrota eleitoral e foi para os Estados Unidos, onde recebeu autorização de entrada. Diferentemente do caso venezuelano, não houve reconhecimento internacional de sua reivindicação de vitória na eleição brasileira.

"Importante dizer, Guaidó não fugiu da Venezuela, ele ficou. Uma vez que se autoproclama, os Estados Unidos reconhecem ele como presidente, alguns países da Europa e países aqui da América do Sul também. Ele tem asilo depois que o plano não dá certo. O caso do Flávio não parece ter isso. Primeiro, a Argentina ajudou, o Trump concedeu um visto, mas em nenhum momento eles afirmam que reconhecem o Flávio como presidente do Brasil e que as eleições foram fraudadas", reforça Marsílea.

Apesar das diferenças, a pesquisadora considera que a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de determinar a retenção dos passaportes de Flávio acabou favorecendo a narrativa de perseguição política adotada pelo senador.

"Na minha avaliação foi desnecessário, se ele tinha planos de sair, ele sairia de qualquer jeito, como aconteceu. Isso deu combustível para a versão de que ele é perseguido", explica.

Flávio é investigado em dois inquéritos no STF

Flávio Bolsonaro é alvo de dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal. As investigações envolvem suspeitas de irregularidades no financiamento do filme "Dark Horse", sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, e de lavagem de dinheiro.

O primeiro inquérito, relatado pelo ministro André Mendonça, apura o financiamento da produção cinematográfica. Segundo a investigação, Flávio solicitou R$ 134 milhões para o projeto e recebeu cerca de R$ 60 milhões. O senador sustenta que os recursos são de origem privada.

O segundo inquérito investiga suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio e o advogado Willer Tomaz, amigo pessoal do senador. A investigação foi aberta com aval da Procuradoria-Geral da República (PGR) e está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.

Caso tivesse sido eleito presidente, Flávio poderia contar com a proteção prevista no artigo 86, parágrafo 4º, da Constituição, segundo o qual o presidente da República não pode ser responsabilizado, durante o mandato, por atos anteriores ao exercício de suas funções.

Outras comparações feitas por Flávio

Na carta, Flávio também cita personagens históricos e políticos como Rui Barbosa, jurista brasileiro que se opôs ao governo militar no início da República; José Martí, figura central da independência de Cuba; e María Corina Machado, líder da oposição venezuelana impedida de disputar a eleição presidencial de 2024.

Para Marsílea, a situação de María Corina também apresenta diferenças importantes em relação à de Flávio, principalmente porque a venezuelana foi impedida de concorrer, enquanto o senador brasileiro participou da disputa presidencial.

“Corina é um outro caso bastante diferente. Ela era a última opositora minimamente competitiva, porque os outros opositores foram perseguidos e tiveram seus direitos cassados. Então, sobrou ela, que depois foi impedida de disputar. Começaram a apontar diversas evidências que ela não poderia disputar por isso ou aquilo. Flávio disputou as eleições e ele fugiu, não foi perseguido”, contextualiza.

Leia a carta de Flávio Bolsonaro na íntegra:

"Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o líder do Brasil.

Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país. O Presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão.

Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno. Uma decisão do STF, tomada por cima da competência do TSE, estendeu a votação no apagar das luzes, e a ordem só chegou depois do fim do horário legal, quando as urnas já estavam encerradas.

Eleitores ficaram submetidos a regras diferentes. Até agora, o TSE se limitou a defender a prorrogação do horário e não há sequer uma única resposta crível. E as nulidades não são o único problema. Ao longo de toda a campanha, houve abuso de poder político, econômico e uso da máquina pública em favor da reeleição. São fatos graves, expressamente vedados por lei, que justificam a cassação da chapa Lula-Alckmin.

A resposta do regime ao meu questionamento veio rápida. Como num plano previamente elaborado, sete minutos após essa repugnante fraude eleitoral, o juiz, implicado em um imenso escândalo de corrupção, diretamente citado no inquérito que usou para tentar sequestrar meus passaportes, e que muito provavelmente estaria preso, se eles não tivessem impedido a minha posse, pôs em andamento a máquina de perseguição política do regime. Sendo impedido de origem e completamente suspeito para iniciar qualquer procedimento judicial contra mim, a sua mera participação em atos processuais mostra o tamanho da arbitrariedade e ilegalidade em andamento.

Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado. A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista.

Para deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime. O que existe é uma caça às bruxas politicamente motivada, que visava me colocar como refém e objeto de chantagem para proteger os juízes corruptos da Suprema Corte do impeachment. Eis o roteiro da perseguição: apreensão de passaporte, tornozeleira eletrônica, censura, prisão domiciliar, julgamento de fachada e, finalmente, condenação política.

Não vou submeter minha família a isso e meu país não merece passar novamente por este vexame internacional. Diante da instrumentalização política da Justiça no Brasil, trouxe minha família para os Estados Unidos, onde estamos em segurança. Agradeço, mais uma vez, ao Presidente Trump e ao governo americano por nos acolherem e nos darem a segurança jurídica que não temos mais no Brasil.

Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela Suprema Corte repleta de serviçais do regime.

Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele. Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade. Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país. José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa.

Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o líder e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania. Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação.

Às instituições brasileiras, faço um apelo: essa sandice precisa acabar. O Brasil vive hoje um caos jurídico, de corrupção e de perseguição política, em que a oposição tem medo de falar e a família de um ex-presidente é tratada como inimiga do Estado. Nenhuma nação consegue viver em paz ou prosperar assim. Ainda há tempo de restabelecer o equilíbrio entre os Poderes e devolver aos brasileiros a confiança que perderam.

À comunidade internacional, peço: não normalizem o que está acontecendo no Brasil. O que acontece hoje no meu país não é normal e não pode ser tratado como normal.

Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr.

E a você, que votou em mim e sonha com a mudança: não estamos derrotados e não estamos sozinhos. Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil. Peço a cada um que permaneça firme e jamais desista.

Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre. E esse dia vai chegar.

Que Deus abençoe o Brasil.

Flávio Bolsonaro"

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