Política

Vorcaro mudou forma de pagar Dark Horse após operação falhar

Mensagens mostram que, após dificuldades para enviar dinheiro, ex-banqueiro sugeriu usar outra empresa; dias depois, US$ 2 mi chegaram a fundo nos EUA

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Carla Araújo, Emanuelle Menezes
Mensagens entre Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel mostram dificuldades para enviar dinheiro do financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro para fundo nos EUA | Reprodução

Mensagens entre Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel mostram dificuldades para enviar dinheiro do financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro para fundo nos EUA | Reprodução

Mensagens mostram que Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, mudou a forma de fazer os pagamentos destinados ao filme Dark Horse, que conta a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), depois de sucessivas dificuldades para enviar o dinheiro ao exterior.

As conversas obtidas pelo SBT News indicam que Vorcaro e o cunhado, Fabiano Zettel, tentaram durante dias viabilizar o pagamento por meio de uma operação de câmbio. Diante dos problemas, em 5 de fevereiro de 2025, Vorcaro sugeriu outra saída: “Vamos fazer via entre”.

Oito dias depois, em 13 de fevereiro, a Entre Investimentos e Participações transferiu US$ 2 milhões para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado nos Estados Unidos. No dia seguinte, Zettel encaminhou a Vorcaro um comprovante da operação e escreveu: “Filme!”.

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As mensagens foram reveladas inicialmente pela CartaCapital e confirmadas pelo SBT News. O material faz parte dos dados extraídos do celular de Vorcaro e ajuda a reconstruir os bastidores do financiamento de Dark Horse. A Polícia Federal investiga o caminho percorrido pelo dinheiro e a destinação dos recursos.

“O mais importante disparado”

As tratativas começaram pelo menos em dezembro de 2024. Em conversa de 18 de dezembro, o publicitário Thiago Miranda encaminhou a Vorcaro documentos relacionados ao projeto, que ainda aparecia como Capitão do Povo, nome anterior de Dark Horse.

Entre os arquivos estavam um acordo de financiamento da produção e um plano de negócios. O contrato previa investimento de US$ 24 milhões, dividido em parcelas.

Em janeiro de 2025, as conversas passaram a registrar cobranças pelo início dos pagamentos. No dia 20, Miranda escreveu a Vorcaro que aquela era a data limite para o primeiro pagamento do filme.

No mesmo período, Zettel também cobrava definições. Em 28 de janeiro, Vorcaro perguntou: “Filme vc pagou?”.

Zettel respondeu: “Irmão, Não vem 1 real tem 3 semanas... kkkkkkk Paguei foi nada...”.

Vorcaro, então, ressaltou a prioridade dada ao projeto: “Esse e o mais importante disparado”. E acrescentou: “Nao pode falhar mais”.

"Mais importante disparado", diz Vorcaro sobre pagamento do filme sobre Jair Bolsonaro | Reprodução
"Mais importante disparado", diz Vorcaro sobre pagamento do filme sobre Jair Bolsonaro | Reprodução

As mensagens mostram que a dificuldade não estava apenas na liberação do dinheiro. Havia obstáculos para realizar a operação necessária para mandar os recursos ao exterior.

Em 29 de janeiro, Zettel informou a Vorcaro que a empresa criada por ele não tinha cadastro suficiente para realizar as operações do filme e perguntou se poderia utilizar outra estrutura.

Fabiano Zettel informou a Daniel Vorcaro que empresa criada por ele não tinha cadastro suficiente para realizar as operações do filme | Reprodução
Fabiano Zettel informou a Daniel Vorcaro que empresa criada por ele não tinha cadastro suficiente para realizar as operações do filme | Reprodução

No dia seguinte, ao ser questionado sobre o valor destinado ao projeto, respondeu: “2M de dólares”.

O impasse continuou. Em 31 de janeiro, Vorcaro perguntou novamente se Zettel havia conseguido fazer o pagamento e ele respondeu: "Amigo, não faz assim que me dá dor de barriga...".

Zettel respondeu a Vorcaro: "Amigo, não faz assim que me dá dor de barriga..." | Reprodução
Zettel respondeu a Vorcaro: "Amigo, não faz assim que me dá dor de barriga..." | Reprodução

O cunhado reforçou ao ex-banqueiro que ainda aguardava uma definição sobre qual empresa seria utilizada.

As cobranças se intensificaram em 3 de fevereiro. Depois de Zettel listar “resolver filme” entre suas pendências, Vorcaro reagiu:

“Como assim” “Nao fez sl?” “Nem filme”

Zettel respondeu dizendo que cobrava diariamente uma definição sobre a empresa que faria a operação: "Amigo, não faz assim comigo!! Eu te escrevo todo dia!!".

"Amigo, não faz assim comigo", disse Zettel após Vorcaro cobrar sobre filme | Reprodução
"Amigo, não faz assim comigo", disse Zettel após Vorcaro cobrar sobre filme | Reprodução

Dois dias depois, em 5 de fevereiro, as mensagens registram uma mudança na estratégia. O cunhado informou que a operação relacionada ao filme continuava pendente e que o envio do dinheiro estava “dando caso”.

Vorcaro perguntou: “Paga pra quem?” e, na sequência, escreveu: “Vamos fazer via entre”.

Zettel respondeu que pediria “pro Minas”. A referência a “entre” aparece no contexto que antecede o uso da Entre Investimentos e Participações, do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, nas transferências posteriormente identificadas pela investigação.

Vorcaro sugeriu "fazer via entre" após impasses com operação de câmbio | Reprodução
Vorcaro sugeriu "fazer via entre" após impasses com operação de câmbio | Reprodução

Mesmo depois da conversa, os problemas continuaram.

Em 6 de fevereiro, Thiago Miranda procurou Vorcaro para dizer que o pagamento do filme ainda não havia avançado. O ex-banqueiro respondeu: “Estamos com problema pra fazer o cambio e olha que estou fazendo interno”.

Miranda perguntou se deveria aguardar a conclusão do trâmite. Vorcaro respondeu que esperava resolver a questão naquele mesmo dia.

Cinco dias depois, em 11 de fevereiro, o problema ainda aparecia nas conversas. Ao ser questionado por Vorcaro sobre o pagamento do filme, Zettel disse que havia passado a questão para “Mineiro”, mas que ele também enfrentava dificuldades.

“O câmbio não quer fazer...”, escreveu Zettel. Segundo ele, havia um problema de cadastro e as informações eram consideradas “meio estranhas”.

Vorcaro respondeu: “Preciso resolver HOJE”.

"Preciso resolver HOJE", disse Vorcaro | Reprodução
"Preciso resolver HOJE", disse Vorcaro | Reprodução

US$ 2 milhões foram enviados dias depois

Em 14 de fevereiro, Zettel encaminhou a Vorcaro um documento relacionado a uma transferência internacional realizada no dia anterior. O comprovante registra uma operação de US$ 2 milhões, datada de 13 de fevereiro de 2025, da Entre Investimentos e Participações Ltda. para o Havengate Development Fund LP, nos Estados Unidos.

Ao encaminhar o documento, Zettel escreveu apenas: “Filme!”.

A transferência corresponde à primeira das remessas identificadas posteriormente pela Polícia Federal como relacionadas ao financiamento de Dark Horse.

Segundo investigação da PF, a Entre fez sete transferências para o Havengate em 2025, entre fevereiro e setembro, que somaram US$ 12,33 milhões.

Os valores são próximos das parcelas estabelecidas no acordo de financiamento encontrado no celular de Vorcaro. O documento previa um investimento total de US$ 24 milhões, com duas parcelas iniciais de US$ 2 milhões e as seguintes de aproximadamente US$ 1,67 milhão.

Cobranças continuaram após primeiro pagamento

O envio dos primeiros recursos não encerrou as cobranças. Em 12 de março, Miranda avisou Vorcaro: “Sobre o filme só foi pago a primeira de janeiro”. Vorcaro encaminhou a cobrança para Zettel e escreveu:

“Precisa me ajudar controlar isso” “Tem que pagar a segunda e a terceira”

Zettel respondeu que cobraria “Mineiro” e disse que acreditava que os pagamentos estavam sendo realizados.

As conversas mostram novas cobranças ao longo dos meses seguintes. Em agosto, Miranda enviou a Vorcaro uma tabela segundo a qual estavam previstos quase US$ 24 milhões em pagamentos, mas cerca de US$ 10,67 milhões haviam sido recebidos até então.

Em outubro, as cobranças continuavam. No dia 22, Miranda perguntou se Vorcaro conseguiria liberar as parcelas e alertou que, caso contrário, a produção poderia parar. Vorcaro respondeu:

“Sim” “Liberei mais uma hoje”

Depois, pediu que Miranda transmitisse um recado: “Pede desculpas os atrasos meu esforço tem sido máximo possível e prioridade total. Apesar de qq tempestade vou ate o fim com isso”.

Em outubro, cobranças a Vorcaro continuavam | Reprodução
Em outubro, cobranças a Vorcaro continuavam | Reprodução

Documentos da investigação divulgados posteriormente indicam, porém, que o pagamento mencionado naquela ocasião não foi efetivado. Em 31 de outubro, após Miranda informar que os documentos haviam chegado, mas o dinheiro não, Vorcaro respondeu que a operação havia “voltado” e seria refeita.

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