Acordo EUA-Irã adia temas centrais, avalia especialista
Para professor da ESPM, entendimento anunciado por Washington e Teerã é apenas um compromisso para manter negociações e não resolve impasses

O acordo firmado entre Estados Unidos e Irã, anunciado no último domingo (14), representa mais um compromisso para a continuidade das negociações do que uma solução definitiva para os principais impasses entre os dois países. A avaliação é do professor de Relações Internacionais da ESPM, Leonardo Trevisan, em entrevista ao programa Radar News, do SBT News.
Segundo o especialista, o entendimento ocorre em meio a uma disputa de narrativas envolvendo diversos atores internacionais. "O Irã tem a sua narrativa, os Estados Unidos têm a deles, a Europa tem a dela e Israel também. Mas o que temos de fato é aquilo que a The Economist definiu: não é um tratado de paz, é um compromisso de continuar negociando", afirmou.
O acordo foi anunciado após meses de tensão entre os países envolvendo o programa nuclear iraniano e a segurança no Estreito de Ormuz. No entanto, para Trevisan, as questões mais sensíveis permanecem sem solução e foram apenas adiadas para futuras rodadas de negociação.
Entre os temas pendentes está o programa nuclear iraniano. "As questões centrais estão postergadas. Extinguir o programa nuclear iraniano está programado para ser discutido daqui a 60 dias", explicou.
O especialista também destacou que outros objetivos apresentados pelos Estados Unidos e Israel no início do conflito não foram alcançados. "Mudar o regime iraniano, extinguir o programa nuclear e acabar com a capacidade do Irã de projetar poder com mísseis e drones eram os objetivos apresentados quando a guerra começou. Nenhum deles foi alcançado", disse.
Na avaliação de Trevisan, o resultado das negociações acabou favorecendo Teerã. "Quando se senta à mesa de negociação, quem sentou melhor do que no começo da guerra foram os iranianos. O regime não está enfraquecido, está fortalecido", afirmou.
"Todos os analistas militares estão notando que o Irã dobrou sua capacidade de atingir qualquer alvo no dobro da distância".
Para o especialista, fatores econômicos também ajudam a explicar o interesse norte-americano em avançar nas negociações. "Quem precisava desse acordo era o Trump. Ele está com a corda no pescoço por causa da inflação de 4,2%", avaliou.
Estreito de Ormuz
Outro ponto central do entendimento envolve o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas do comércio global de petróleo e mercadorias. Trevisan ressalta, porém, que ainda há poucas informações oficiais sobre o conteúdo do acordo. "Ninguém leu o acordo. Não sabemos os detalhes do processo", afirmou.
Segundo ele, informações divulgadas pela imprensa internacional indicam que houve uma troca de concessões entre Washington e Teerã. "A mídia internacional sinalizou que o Irã fez uma troca com os Estados Unidos: vocês liberam os portos iranianos e nós liberamos Ormuz", explicou.
Apesar da possível reabertura da rota, Trevisan afirma que o Irã deve manter a cobrança por serviços de navegação. "Está bem claro que o Irã irá cobrar pelos serviços de navegação, um pedágio que não existia antes", disse.
Na avaliação do professor, a crise expôs a dependência global do petróleo e os impactos econômicos provocados pelas interrupções no fluxo comercial. Segundo ele, a situação já afeta as perspectivas de crescimento econômico global. "Isso impactou, de acordo com projeções do FMI e da OCDE, o crescimento deste ano, que já será menor, e também o do ano que vem", acrescentou.
Trevisan também chamou atenção para o papel desempenhado pela China nas negociações. Segundo ele, o agradecimento feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao líder chinês Xi Jinping indica a influência de Pequim no processo.
"Os iranianos só aceitaram reabrir Ormuz porque a China pediu, e não porque os Estados Unidos pressionaram", concluiu.













