Caso Marielle: Moraes cita motivação política, racismo e misoginia
Ministro disse que os irmãos Brazão, apontados como mandantes do crime, tinham Marcelo Freixo, ex-deputado federal e estadual pelo PSOL, como "primeiro alvo"

Felipe Moraes
O ministro Alexandre Moraes, relator do caso Marielle Franco no Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou nesta quarta-feira (25) que o assassinato da vereadora do PSOL-RJ e do motorista Anderson Gomes "misturou questão política com misoginia e racismo". O julgamento de cinco réus acusados de participação no crime continua hoje, com votos dos quatro magistrados da Primeira Turma da Corte.
"Se pretendia dar um recado. Num primeiro momento, alguém que se procurava exterminar era o deputado [Marcelo] Freixo. Em virtude da própria segurança que compunha as proximidades do deputado Freixo, seria mais difícil essa execução. E aí, se misturou questão política com misoginia e racismo. Marielle era uma mulher preta e pobre que estava, diríamos no popular, 'peitando' os interesses de milicianos", descreveu Moraes.
O magistrado também reforçou que, segundo a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), Freixo, ex-deputado estadual e federal pelo PSOL-RJ, era tratado como "primeiro alvo" pelos irmãos Chiquinho Brazão, ex-deputado federal, e Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ). Ambos são apontados pela acusação como mandantes do crime.
Citando trechos da delação do ex-policial militar Ronnie Lessa, executor condenado a mais de 78 anos de prisão pelas mortes, Moraes disse que os Brazão e demais envolvidos, como o delegado Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio, se surpreenderam com a repercussão do crime. "Gerou efeito dominó."
São julgados nesta quarta, além dos Brazão e Barbosa, os ex-policiais militares Ronald Paulo de Alves Pereira e Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe e ex-assessor de Domingos.
"'Ela ia combater os loteamentos da milícia. Onde fosse de milícia, ela ia bater de frente. Ela virou uma pedra no caminho. E a pedra, temos de tirar do caminho. A partir desse momento, ela está decretada'. Obviamente, na linguagem miliciana, da bandidagem, 'ela está decretada' significa que a morte dela estava encomendada e seria realizada", seguiu o ministro, lendo outras partes da colaboração premiada de Lessa.
Moraes reforçou argumentos da PGR de que a delação do ex-PM foi corroborada por extenso número de provas analisadas pela Polícia Federal (PF), "submetidas ao crivo do contraditório", e depoimentos de testemunhas.
O magistrado ainda apontou elo entre a motivação do crime e a forma de pagamento prometido pelos Brazão a Lessa e Edmilson da Silva, o Macalé, suspeito de mediar contratação do assassino: loteamentos obtidos por meio da grilagem na região de Jacarepaguá (RJ).
"Totalmente interligadas", falou Moraes. "Motivação e manutenção de negócios da milícia de loteamento e grilagem. Como vai se pagar? 'Vamos tirar esse obstáculo político da Câmara dos Vereadores. Vamos conseguir ampliar a área [grilada e loteada]. E parte dessa área será dada em pagamento'. Aqui, realmente há total conexão entre a forma de pagamento e a motivação do crime", acrescentou.
Macalé foi morto a tiros em 2023, crime classificado pelo ministro como "tradicional queima de arquivo". "Foi executado. Não teve infarto, não tropeçou na rua, bateu a cabeça e morreu", continuou. "Se assassinado não tivesse sido, seria provavelmente réu nessa ação."









