Superquarta: presidente estreia no Fed com cautela nos juros
Carlos Lopes economista do banco BV avalia que Kevin Warsh deve manter estratégia e adotar postura prudente diante de inflação e incertezas globais


Kevin Warsh assume o Fed em cerimônia com presença de Trump| Reuters
Nesta quarta-feira (16), o mercado financeiro global volta suas atenções para a chamada “Superquarta”, dia em que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil e o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, anunciam suas respectivas decisões sobre as taxas de juros.
Esta reunião do Fed carrega um componente de novidade: marca a primeira definição oficial de juros sob o comando de Kevin Warsh, que assumiu a presidência da autoridade monetária em maio, sucedendo Jerome Powell. Indicado pelo presidente Donald Trump, Warsh assumiu o cargo após divergências públicas entre Trump e Powell sobre a condução da política monetária norte-americana.
A decisão ocorre em um momento de reorganização geopolítica global, impulsionada pelo recente acordo que encerrou o conflito entre Estados Unidos e Irã.
Transição suave e expectativa de continuidade
Apesar da troca no comando do Fed, o economista Carlos Lopes, do banco BV, avalia que o mercado não deve esperar rupturas bruscas na comunicação ou nas decisões de curto prazo.
"A mudança na presidência do Fed tende a ter pouca alteração na comunicação ou na decisão da instituição no curto prazo", explica o economista. "Primeiro porque a decisão do Fed é colegiada. Os próprios membros declaram suas previsões e são bastante vocais. Tudo isso tende a suavizar as mudanças que eventualmente possam ser feitas com a entrada do novo presidente."
Historicamente, Warsh apresentou posicionamentos críticos à gestão anterior do Fed. O atual presidente já defendeu que o avanço tecnológico e o boom da inteligência artificial trariam ganhos de produtividade no médio prazo, permitindo uma inflação mais baixa e, consequentemente, juros menores. Ele também se mostrou crítico em relação ao tamanho do balanço de pagamentos do Fed, defendendo a venda de ativos para reduzir esse volume.
No entanto, Lopes pondera que a margem para guinadas imediatas nessas duas frentes é estreita. "A maior parte do comitê tem defendido as políticas atuais já há bastante tempo. Então, a perspectiva é de continuidade. Devemos ver uma manutenção, a grosso modo, no tom e na estratégia do Fed."
O Fed atua sob o duplo mandato de controlar a inflação e buscar o pleno emprego, equilibrando-se constantemente entre o controle de preços e o risco de desaceleração econômica.
Anteriormente, a autoridade monetária vinha cortando os juros por entender que o risco de uma recessão nos Estados Unidos superava o risco inflacionário. Contudo, esse cenário mudou nos últimos meses.
"Os riscos de uma inflação persistente aumentaram por conta do choque do petróleo e dos custos associados a isso. Por outro lado, os riscos de uma desaceleração econômica diminuíram", aponta Lopes. Ele destaca o desempenho sólido das ações de tecnologia e do setor de inteligência artificial, que geram valorização patrimonial e ganho de renda para os americanos, além de um mercado de trabalho que segue aquecido, com dados consistentes de criação de vagas (payroll).
Diante desse quadro, o espaço para novos cortes de juros diminuiu substancialmente. "A expectativa é que o Fed retire a menção a 'ajustes adicionais' de seu comunicado, indicando que os juros devem ficar parados por um tempo maior, ao menos até o final deste ano", projeta o economista do banco BV.
Geopolítica e a postura de Warsh frente às incertezas
Mesmo com o acordo recente no Oriente Médio, as incertezas geopolíticas globais devem permanecer no radar por um longo período. Lopes observa que os preços futuros do petróleo ainda não retornaram aos patamares do início do ano, o que indica que, embora o choque inicial possa ser temporário, há efeitos de médio prazo ainda desconhecidos.
Nesse ambiente de alta incerteza, a adoção de uma postura cautelosa é a regra entre os principais bancos centrais. Para Lopes, o Fed não está "atrasado" no combate à inflação, mas sim agindo com prudência diante das dúvidas do cenário macroeconômico.
Quanto ao estilo de comunicação de Kevin Warsh, o economista lembra que, no passado, o atual presidente criticava o uso excessivo de forward guidance (indicações formais sobre os rumos futuros dos juros) quando a instituição dispunha de poucas ferramentas de política monetária.
"Neste momento, o Fed tem plenas condições de sinalizar os próximos passos sem precisar se comprometer rigidamente com o futuro. Warsh deve manter essa postura de não fazer grandes projeções futuras, o que faz sentido dado o cenário incerto", afirma.
Lopes acrescenta que o risco de manter uma política apertada por mais tempo seria causar uma desaceleração econômica inesperada, mas esse risco parece mitigado pela resiliência do mercado de trabalho e pelo dinamismo do setor de tecnologia.
Impacto no dólar global
Questionado sobre o impacto cambial do novo cenário geopolítico e da decisão do Fed, Carlos Lopes aponta para uma tendência de estabilidade para a moeda norte-americana.
O índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de moedas fortes, como o euro e o iene — tem operado sem uma tendência definida de valorização ou desvalorização expressiva.
"Durante todo o período de tensões no Oriente Médio, convivemos com muitas incertezas e, mesmo assim, não vimos um movimento unidirecional forte no dólar por conta disso. Com a proximidade ou consolidação de um acordo, a tendência é que o dólar continue andando de lado, ao menos em relação às moedas mais fortes", conclui o economista.















