Acordo EUA-Irã derruba petróleo, mas preço deve seguir alto
Estoques baixos, alta demanda no verão no Hemisfério Norte e danos à infraestrutura podem manter preço acima de US$ 80


O anúncio de um acordo entre Estados Unidos e Irã reduziu a pressão sobre os preços do petróleo nesta segunda-feira (15), mas não deve ser suficiente para devolver o barril aos patamares anteriores à guerra no Oriente Médio.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o acordo para encerrar o conflito já foi assinado e que o Estreito de Ormuz deve estar totalmente aberto até sexta-feira (19). O local é a principal rota marítima para navios petroleiros no mundo, por onde passam cerca de 20% do transporte global da commodity.
Nesta manhã, o Brent, usado como referência internacional, recuou 5,60% na Intercontinental Exchange (ICE), a US$ 82,44 (R$ 417,66) por barril. Já o WTI, referência nos Estados Unidos, caiu 5,90% na New York Mercantile Exchange (Nymex), a US$ 79,87 (R$ 404,63) por barril.
Apesar do recuo inicial, o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, disse ao SBT News que o petróleo deve se manter acima de US$ 80 (R$ 405,38) por barril, com possibilidade de voltar ao patamar de US$ 90 (R$ 456,06) ainda neste ano.
A avaliação é que o acordo reduz o risco imediato de escalada militar, mas não elimina os problemas deixados pela guerra. Entre os pontos de incerteza estão os danos à infraestrutura de petróleo e gás na região.
“Você não sabe o estrago que foi feito nas infraestruturas de gás e petróleo da região. Agora, com a guerra terminando, vai se fazer um balanço do que estragou, onde teve bomba, onde não teve bomba, para ver quanto tempo demora para voltar ao nível de produção que se tinha antes da guerra”, declarou.
A reabertura do Estreito de Ormuz também pode não significar normalização imediata do fluxo de navios. Trump disse que a passagem estará totalmente aberta até sexta-feira, mas Pires afirma que o mercado ainda terá de acompanhar se há obstáculos operacionais para a retomada.
“Ormuz está dizendo que abre em 30 dias. Não sei. Pode demorar 30, 60. A gente tem que ver se existe algum empecilho que pode atrasar a abertura”, disse.
Estoques e demanda
Outro fator de pressão são os estoques de petróleo e derivados. Com a guerra, houve interrupção de fluxos de exportação e redução da disponibilidade de combustíveis refinados. A recomposição desses estoques deve ocorrer em um momento de aumento sazonal do consumo.
“Os estoques de petróleo estão muito baixos. E você também está com estoque de derivado baixo, porque, com petróleo baixo, você refinou menos”, afirmou.
Nos Estados Unidos, dados da Administração de Informação de Energia (EIA) reforçam esse cenário. Na semana encerrada em 5 de junho, os estoques comerciais de petróleo caíram 7,2 milhões de barris, para 426,5 milhões, cerca de 5% abaixo da média dos últimos 5 anos para o período.
Os estoques de gasolina ficaram 6% abaixo da média histórica, enquanto os de destilados, grupo que inclui o diesel, estavam cerca de 13% abaixo.
O início do verão no Hemisfério Norte tende a elevar a demanda por gasolina e querosene de aviação, por causa do aumento das viagens durante o período de férias, o que limita o espaço para quedas mais fortes no preço da commodity.
Impacto no Brasil
Para o Brasil, o recuo momentâneo do petróleo tem efeitos mistos. Preços menores ajudam a reduzir a pressão sobre combustíveis e inflação, mas também diminuem receitas de exportação e arrecadação de royalties.
“Para o Brasil, a única coisa ruim é que a gente vai diminuir a nossa receita de balança comercial, porque o Brasil é exportador de petróleo, e petróleo mais barato gera menos dinheiro”, disse Pires.
Segundo ele, a arrecadação de royalties também tende a cair quando o preço internacional recua. Ainda assim, com o barril acima de US$ 80, a receita continua em patamar elevado.
Pires não espera mudanças relevantes na política de combustíveis antes das eleições. Segundo ele, o governo deve evitar alterações nos subsídios à gasolina e ao diesel por causa do impacto político do tema.
Mesmo abaixo dos níveis observados durante o conflito, o petróleo acima de US$ 80 ainda é considerado elevado e pode manter pressão sobre inflação, combustíveis e juros.
“Vai continuar pressionando inflação, taxa de juros, essas coisas todas. Evidentemente, não tanto quando o petróleo estava assim, mas petróleo a US$ 80 é um petróleo muito caro”, afirmou.















