Petróleo entrou em 'ponto de ruptura' com bloqueio em Ormuz, diz consultoria
Mesmo que o estreito seja liberado, preços devem se manter elevados


Exame.com
O mercado global de petróleo entrou em um “ponto de ruptura” após dois meses de conflito envolvendo os Estados Unidos, Israel e Irã, cenário que pode sustentar preços elevados por mais tempo e ampliar a volatilidade da commodity, segundo relatório da HFI Research.
De acordo com a consultoria especializada em energia e commodities, a interrupção na oferta global já alcança entre 11 milhões e 13 milhões de barris por dia — volume semelhante à queda de demanda registrada durante os lockdowns da COVID-19.
“O ponto de ruptura do mercado de petróleo chegou. Os estoques globais de petróleo em terra vão despencar, e a queda será em um ritmo que ninguém jamais viu”, afirmou a empresa.
Escassez física explica disparada recente
A avaliação da HFI é que o avanço recente dos preços reflete um problema estrutural de oferta, e não apenas reação momentânea ao risco geopolítico.
Segundo a consultoria, o fechamento do Estreito de Ormuz já provocou perda acumulada de cerca de 1 bilhão de barris em estoques disponíveis globalmente — volume que pode chegar a 1,98 bilhão até o fim de junho.
Mesmo em um cenário de acordo rápido entre EUA e Irã, o impacto não seria revertido imediatamente. O transporte e descarregamento de cargas já embarcadas pode levar de 30 a 40 dias, além de cerca de 20 dias adicionais para o retorno dos navios, atrasando a normalização da oferta.
“Não temos petróleo bruto comercialmente disponível em quantidade suficiente para compensar uma perda de oferta dessa magnitude”, afirmou a HFI.
Paradas em refinarias ampliam pressão
Outro fator relevante por trás da disparada do petróleo é a redução na capacidade global de refino.
Segundo estimativas da HFI, as paralisações de refinarias já ultrapassam 5 milhões de barris por dia, sendo cerca de 3 milhões concentrados no Oriente Médio. Esse movimento reduz a produção de derivados e acelera o consumo de estoques existentes, reforçando a pressão para aumento dos preços.
O efeito tende a se retroalimentar: petróleo mais caro comprime margens das refinarias, reduz produção de combustíveis e acelera a queda dos estoques, elevando novamente os preços da commodity.
Ásia e Europa devem sentir escassez primeiro
A consultoria avalia que a disputa por barris físicos deve se intensificar já nas próximas semanas.
No início de maio, a maioria das refinarias asiáticas pode precisar “disputar barris no mercado”, enquanto a Europa também deve começar a sentir efeitos mais claros da escassez no mesmo período. A HFI afirma que, nesse momento, as refinarias pagarão o preço que for para garantir o número necessário de barris para manter a produção.
Nos Estados Unidos, os estoques comerciais devem cair para cerca de 400 milhões de barris, próximo do mínimo operacional estimado entre 370 milhões e 380 milhões de barris. Diante desse cenário, o governo Trump poderá proibir as exportações tanto de derivados quanto de petróleo bruto.
Segundo a HFI, o declínio dos estoques será visível em breve nos relatórios da Administração de Informação de Energia (EIA, na sigla em inglês), o que pode reforçar a percepção de escassez entre investidores.
Risco no Estreito de Ormuz mantém mercado em alerta
Mesmo após declarações recentes do Irã indicando abertura do Estreito de Ormuz ao tráfego comercial, a avaliação de analistas segue cautelosa.
A HFI destaca que, mesmo com um eventual acordo de paz, levaria meses para restabelecer plenamente os fluxos de oferta. Já analistas do Société Générale, ouvidos pela Business Insider, estimam que a produção dos países da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) pode levar até nove meses para retornar ao normal após choques de oferta dessa magnitude. Além disso, eles acreditam que a demanda por petróleo também só deve se normalizar cerca de seis meses após o fim oficial do conflito.
“O bombardeio de retiradas de estoques de petróleo que se aproxima vai chocar o mercado. Suspeito que só quando os agentes financeiros enxergarem a escassez física se desenrolando é que vão despertar para a realidade de que essa interrupção de oferta é real. Até lá, a maioria das pessoas não será capaz de aceitar essa realidade”, afirmou a HFI.









