Brasil resiste à crise externa com fôlego do petróleo, mas medidas internas contra dívida são "paliativas", diz Sérgio Vale
Ao SBT News, economista analisa tensões EUA-Irã, juros no Brasil e riscos fiscais de medidas como Desenrola 2.0 e o fim da escala 6x1



Vicklin Moraes
Amanda Klein
Eduardo Gayer
O Brasil tem demonstrado uma resiliência inesperada diante do conturbado cenário geopolítico envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel. Em entrevista concedida nesta sexta-feira (17), o economista Sérgio Vale, do Instituto de Estudos Avançados da USP e economista-chefe da MB Associados, afirmou que o país se saiu "relativamente bem" do estresse internacional, mas alertou que os desafios internos — inflação e endividamento — exigem cautela redobrada do Banco Central e do governo.
Para Vale, embora o mundo respire aliviado com a não escalada imediata do conflito no Oriente Médio, a normalização dos preços não será automática. O petróleo deve se estabilizar em um patamar mais elevado, na casa dos US$ 80 o barril.
"É um número acima do que tínhamos anteriormente, o que significa pressão adicional de preços", explica o economista. No entanto, ele pondera que o Brasil hoje ocupa uma posição privilegiada comparada a crises passadas. Como exportador líquido de petróleo, o país ganha pela balança comercial e pela arrecadação. "Os royalties e dividendos da Petrobras podem render entre 0,2% e 0,3% a mais do PIB para o governo, ajudando a fechar as contas deste ano."
Juros: Copom deve manter cautela e pode interromper quedas
Apesar do alento fiscal, a inflação continua sendo o "calcanhar de Aquiles". Com a pressão dos combustíveis em março e abril, as expectativas para o IPCA no fim do ano já orbitam entre 4,5% e 5% — acima da meta.
Sérgio Vale acredita que o ciclo de cortes de juros pelo Copom (Comitê de Política Monetária) entrou em uma zona de incerteza. "A expectativa de quedas de 0,50 ponto percentual ficou para trás. Para a próxima reunião, as alternativas na mesa são um corte mais tímido, de 0,25, ou a interrupção total do ciclo para esperar os efeitos da inflação e do câmbio."
O nó das "Bets" e o paliativo do Desenrola
Questionado sobre as medidas do governo para combater o endividamento — agravado pelo fenômeno das apostas esportivas online (as bets) —, Vale foi cético. Ele classificou programas como o Desenrola 2.0 como soluções de curto prazo.
"Fizemos um estudo que mostrou que o Desenrola 1.0 reduziu a inadimplência dos mais pobres em 3,5 pontos percentuais, mas o efeito durou apenas 18 meses. Logo depois, a dívida voltou a subir", revelou.
Segundo ele, o uso de recursos para-fiscais (como o FGTS) para tapar buracos de curto prazo não resolve o problema estrutural, especialmente quando parte da renda das famílias está sendo drenada pelas apostas online, o que explica a pressa do governo em regular o setor.
Mudança na escala de trabalho: custo e produtividade
Sobre a possível extinção da escala de trabalho 6x1 (em direção ao modelo 5x2), Vale acredita que a pauta é politicamente inevitável, mas economicamente arriscada.
"O aumento de custo imediato para as empresas deve ser da ordem de 7%. Em um país complexo como o Brasil, setores como transporte e comércio sentirão o impacto na produtividade", analisa.
Para o economista, o projeto pode gerar um aumento na desocupação ou repasse de preços ao consumidor final, especialmente se a transição não for acompanhada de ganhos reais de eficiência.









