Economia

O inverno chegou para as criptomoedas? Para analistas, tudo indica que sim

Quedas profundas, saída de capital institucional e aperto macro reacendem o debate sobre um novo ciclo prolongado de baixa no mercado cripto

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Bitcoin | Reprodução

O inverno parece ter chegado (novamente) para as criptomoedas. Nos primeiros dias de fevereiro de 2026, o mercado entrou em modo defensivo, com quedas acentuadas, rompimento de suportes psicológicos e deterioração rápida do sentimento. bitcoin e ethereum devolveram boa parte dos ganhos acumulados em 2025, o que reacendeu o debate sobre a instalação de um novo "Inverno Cripto" entre analistas.

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A correção ganhou escala ao longo da semana e passou a ser interpretada não como um ajuste pontual, mas como uma mudança de regime, marcada por menor liquidez global, saída de capital institucional e aumento da aversão ao risco.

Na última semana, o bitcoin acumulou queda próxima de 20%, passando a oscilar entre US$ 64 mil e US$ 66 mil. O ethereum recuou cerca de 18%, negociado na faixa de US$ 1.900 a US$ 2.100, abaixo da média móvel de 200 dias. Entre as altcoins, a pressão foi ainda mais intensa, com a Solana registrando perdas superiores a 25% no período.

No acumulado desde o início de janeiro, o movimento se aprofundou. O bitcoin caiu cerca de 30%, o ethereum quase 36% e a solana mais de 46%.

A pior semana em mais de três anos

O movimento ganhou ainda mais atenção após o bitcoin registrar sua pior semana em mais de três anos. O ativo chegou a recuar cerca de 45% em relação à máxima histórica de US$ 126.273, registrada em outubro de 2025. O Ethereum acumulou uma desvalorização ainda maior frente ao seu pico.

"O Bitcoin está despencando e os investidores estão em pânico", escreveu Anthony Pompliano, investidor e um dos principais defensores do mercado cripto, em publicação feita durante a semana.

Para Michael Novogratz, CEO da Galaxy Digital, o episódio se diferencia de ciclos anteriores pela ausência de um fator único que explique a queda. "Não houve um gatilho claro", afirmou o executivo.

Sem consenso sobre o que provocou a queda

Diferentemente de crises passadas, como o estouro da bolha das ofertas iniciais de moedas em 2018 ou o colapso do ecossistema Terra e da corretora FTX em 2022, o atual movimento ocorre sem um evento isolado que concentre as responsabilidades.

"Se você perguntar a cinco especialistas, vai obter cinco explicações diferentes", disse Anthony Scaramucci, fundador da SkyBridge Capital e conhecido defensor das criptomoedas.

Parte do mercado aponta que o capital migrou para outras apostas especulativas, como inteligência artificial, metais preciosos e mercados de previsão.

"Antes, o Bitcoin era a aposta consensual onde existia assimetria. Agora há inteligência artificial, mercados de previsão e várias outras áreas onde as pessoas podem especular", afirmou Pompliano.

ETFs, oferta financeira e mudança de percepção

Outro ponto levantado por analistas é o impacto da expansão de ETFs e derivativos ligados ao bitcoin e a outras criptomoedas. Embora esses instrumentos não alterem a oferta física dos ativos, parte do mercado avalia que eles reduziram a percepção de escassez, ao permitir exposição sem a posse direta das moedas.

A recente saída líquida de recursos dos ETFs à vista nos Estados Unidos reforçou essa leitura e ampliou a pressão vendedora observada no início de fevereiro.

Fed, dólar e ambiente macro pressionam o setor

O cenário macroeconômico também contribuiu para o enfraquecimento do mercado. A escolha de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve (Fed) aumentou a percepção de uma autoridade monetária mais rigorosa no combate à inflação e mais favorável a um dólar forte.

Juros elevados e uma moeda americana valorizada tendem a reduzir a atratividade de ativos alternativos, como criptomoedas. Ainda assim, Warsh já declarou publicamente que o Bitcoin pode funcionar como um "termômetro da política econômica", ao refletir acertos e erros das decisões monetárias.

Analistas falam em capitulação e inverno estrutural

Para Ki Young Ju, CEO da CryptoQuant, a demanda institucional perdeu força de forma abrupta. "A demanda institucional que sustentou o Bitcoin acima de US$ 90 mil em janeiro simplesmente evaporou", afirmou. Segundo ele, se não houver reação no suporte de US$ 60 mil, o mercado pode buscar níveis ainda mais baixos.

A Bernstein reconheceu a severidade do momento, mas manteve uma leitura construtiva para o longo prazo. "Não estamos vendo o fim das criptomoedas, mas sim a grande desalavancagem de 2026", escreveram os analistas da casa. Segundo eles, no cenário atual, o Bitcoin está sendo negociado como um ativo de risco de alta volatilidade, e não como ouro digital.

Já a Glassnode descreveu o momento como um "inverno estrutural", ao apontar que métricas on-chain entraram em zonas de estresse profundo e que a retomada da acumulação tende a ocorrer apenas após a limpeza total das posições alavancadas.

Entre a espera e o modo de sobrevivência

Apesar do pessimismo no curto prazo, parte do mercado avalia que este ciclo pode ser menos destrutivo do que os anteriores, já que não houve colapsos sistêmicos ou falências de grandes plataformas.

"A infraestrutura é mais forte, a adoção de stablecoins continua crescendo e o interesse institucional não desapareceu, apenas ficou em espera", disse Jasper De Maere, estrategista da Wintermute.

Por ora, o consenso é de cautela. Investidores de varejo reduziram exposição, grandes fundos aguardam sinais mais claros do Federal Reserve e o mercado opera em modo de sobrevivência. O termo "Inverno Cripto" voltou ao centro da discussão — desta vez, menos associado a um choque isolado e mais a uma mudança estrutural no equilíbrio entre liquidez, risco e expectativas globais.

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