Resenha: “Nioh 3” mostra como evoluir uma franquia sem perder identidade
Novo jogo da Team Ninja amplia acessibilidade e aprofunda o combate

Vinícius Gobira
“Nioh 3” chega em um momento curioso da indústria. Em um cenário saturado de soulslikes que disputam atenção pela dificuldade extrema, a Team Ninja segue o caminho oposto e prova que evolução não está necessariamente ligada a tornar tudo mais punitivo. O novo capítulo da franquia aposta em refinamento, clareza e variedade para entregar a experiência mais equilibrada da trilogia.
Desde as primeiras horas, o jogo deixa claro que não está interessado apenas em repetir fórmulas. Há um esforço visível em tornar seus sistemas mais compreensíveis, o fluxo de progressão mais natural e o combate mais flexível. O resultado é um título que mantém sua identidade agressiva, mas se mostra menos hostil para quem não domina todos os códigos do gênero.
Sem abandonar suas raízes, “Nioh 3” se posiciona como um jogo mais acessível, não por reduzir desafios, mas por oferecer múltiplas soluções para enfrentá-los. Essa escolha amplia o alcance do jogo e reforça sua sensação de amadurecimento.
Uma história mais direta e melhor conectada
Ambientado no Japão do início do período Edo, em 1622, “Nioh 3” constrói sua narrativa em torno de uma crise política que rapidamente assume contornos sobrenaturais. Tokugawa Takechiyo, herdeiro do shogunato, vê o país à beira da estabilidade ser arrastado para o caos quando seu irmão mais novo, Kunimatsu, se alia às forças Yokai em busca de vingança.
O conflito se desenvolve a partir da quebra de um equilíbrio que deveria garantir a paz, levando o jogador a lidar com consequências que atravessam o tempo. A manipulação do passado surge como elemento central da trama, permitindo que eventos antigos sejam revisitados e reinterpretados à luz de um presente em colapso.
Diferente dos títulos anteriores, a narrativa aqui se apresenta de forma mais organizada. Personagens surgem com maior propósito, suas motivações são melhor contextualizadas e a história se sustenta sem depender excessivamente de descrições fragmentadas. A conexão com o primeiro “Nioh” também é utilizada com mais inteligência, trazendo de volta figuras, locais e criaturas familiares, agora integradas a um enredo mais coeso.
A campanha, que pode se estender por até 40 horas, aborda temas como legado, ressentimento e o peso das decisões, criando uma base narrativa mais sólida para sustentar a ação constante.
A Koei Tecmo e a Team Ninja são especialistas em jogos com essa temática, e já apresentou ótimos títulos recentes como Dynasty Warriors: Origins.
Um mundo que convida à exploração
Uma das mudanças mais perceptíveis em “Nioh 3” está na forma como o jogador se desloca pelo mundo. Inspirado em estruturas mais abertas, o jogo abandona a seleção rígida de missões e passa a apresentar regiões interconectadas, nas quais a exploração desempenha papel central.
Atividades secundárias surgem de maneira orgânica, incluindo confrontos opcionais, desafios espirituais e a descoberta de chefes ocultos. Diferente do que acontecia nos jogos anteriores, essas tarefas não servem apenas como conteúdo extra, mas impactam diretamente a evolução do personagem.

Explorar agora é uma decisão estratégica. Missões paralelas garantem melhorias relevantes, ampliam possibilidades de build e oferecem ferramentas importantes para enfrentar os trechos mais exigentes da campanha principal. Ainda que a estrutura acabe se tornando previsível com o tempo, ela representa um avanço claro em relação ao passado da franquia.
Combate mais flexível e profundo
O combate continua sendo o coração de “Nioh 3”, mas agora com uma camada adicional de liberdade. O novo sistema de Dualidade permite alternar instantaneamente entre dois estilos distintos: Samurai e Ninja. Essa escolha não é apenas estética, mas altera completamente o ritmo das batalhas.
O estilo Samurai privilegia força, resistência e confrontos diretos, enquanto o Ninja aposta em mobilidade, técnicas especiais e ataques rápidos. Alternar entre eles se torna essencial para lidar com diferentes tipos de inimigos e situações, especialmente quando Yokais passam a exigir respostas específicas para certos ataques.
Essa dinâmica amplia significativamente as possibilidades de personalização. O jogador é incentivado a experimentar, ajustar equipamentos e refinar estratégias constantemente. Quando tudo se encaixa, a sensação de domínio é imediata, transformando combates inicialmente opressivos em desafios calculados e satisfatórios.
Limitações técnicas ainda presentes
Apesar dos avanços no design, “Nioh 3” ainda carrega limitações técnicas conhecidas. Visualmente, o jogo não impressiona da mesma forma que outros lançamentos recentes. Texturas simples, modelos inconsistentes e uma direção artística que flerta com o realismo sem alcançá-lo por completo acabam chamando atenção.
O desempenho também apresenta oscilações em áreas mais carregadas, especialmente quando múltiplos efeitos visuais e inimigos ocupam a tela simultaneamente. Embora esses problemas não inviabilizem a experiência, reforçam a sensação de que a Team Ninja ainda enfrenta dificuldades para evoluir tecnicamente no mesmo ritmo que aprimora seus sistemas de gameplay.

Um encerramento à altura da trilogia
“Nioh 3” se firma como o capítulo mais completo da franquia. Ele refina suas próprias ideias com segurança e maturidade. O jogo entende suas limitações, trabalha dentro delas e entrega uma experiência consistente, profunda e duradoura.
Mesmo para quem nunca se sentiu completamente atraído pelo gênero soulslike, o título oferece motivos para insistir. A variedade de abordagens, o combate responsivo e a progressão mais clara tornam a jornada menos punitiva e mais recompensadora.
No fim, “Nioh 3” reafirma a identidade da Team Ninja. É um jogo que respeita o esforço do jogador e transforma aprendizado em satisfação, deixando claro que evolução nem sempre significa reinventar tudo, mas saber lapidar aquilo que já funciona.









