‘Querem que a gente transforme a cidade num campo de bonsai?’, diz Tarcísio sobre críticas de ministro
Governador reage a declarações do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que atribuiu dificuldades da Enel em SP à arborização


Lucas Carvalho
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), rebateu críticas feitas pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, sobre as dificuldades enfrentadas pela Enel na capital paulista.
Silveira afirmou nesta quarta-feira (11) que a configuração da rede elétrica de São Paulo dificulta uma solução rápida para interrupções no fornecimento de energia. Segundo ele, a maior parte da rede de distribuição é aérea e passa por áreas com grande concentração de árvores.
“São Paulo é uma das cidades mais arborizadas do Brasil. É impossível resolver o problema de São Paulo, já que não temos uma rede subterrânea; é uma rede exposta. Quem anda por São Paulo pode observar que 80% da rede elétrica e de distribuição está no meio das árvores”, afirmou.
Durante entrevista coletiva após a inauguração do novo Centro Operacional do Metrô, o governador paulista ironizou a fala do ministro. “O que eles querem? Que a gente transforme a cidade num campo de bonsai?”, disse, em referência à arte japonesa de cultivar árvores em miniatura, moldadas por técnicas como poda e aramação para simular formas da natureza em vasos reduzidos.
Tarcísio também saiu em defesa do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), que havia sido alvo de críticas de Silveira. O ministro falou em “politicagem” de Nunes ao comentar os apagões na capital. “No caso específico de São Paulo [...] existe uma politicagem do prefeito de São Paulo”, declarou durante audiência na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados.
O governador reagiu à afirmação.
“Queria que ele perguntasse às pessoas que ficam, às vezes, uma semana sem energia se isso é politicagem”, rebateu.
Tarcísio também criticou a possibilidade de renovação antecipada da concessão da distribuidora de energia.
“Quando se fala em prorrogação de contrato, a prorrogação deve estar baseada em um conceito: vantajosidade. Quem aqui pode dizer que isso é vantajoso para o estado de São Paulo e para a região metropolitana?”, questionou.
“Falar agora em renovação de contrato é um deboche com a população de São Paulo. Nós não vamos aceitar isso. Pelo menos não calados. Vamos brigar muito”, finalizou.
Prefeito reage e amplia crise
O prefeito Ricardo Nunes também respondeu às declarações do ministro e classificou a fala como “infeliz”. Sem citar diretamente Alexandre Silveira, ele se referiu ao ministro como “essa pessoa”.
“Foi uma infelicidade essa pessoa tratar um tema tão sério dessa forma. Não é a primeira vez que ele faz isso. Em outra oportunidade, ele já disse que eu podia chorar, que o governador podia chorar. Acho que ele está esquecendo de ver o que é importante nesse processo, que são as pessoas sem energia”, afirmou.
Segundo Nunes, Silveira mudou o discurso ao defender a renovação da concessão da Enel na Grande São Paulo, apesar do histórico recente de apagões.
“O que ele quer fazer é a prorrogação. Ele quer antecipar a renovação. É mais absurdo ainda. A gente sabe que vai ter eleição este ano. Ainda bem que ele não vai estar no cargo de ministro no ano que vem, então ele quer correr para poder — vai saber por qual motivo — fazer essa antecipação”, disse.
Disputa envolve possível perda de concessão
As declarações ocorrem em meio ao processo em análise na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) sobre a eventual caducidade da concessão da Enel em São Paulo, que vence em 2028.
A área técnica da agência apontou desempenho “insatisfatório” da empresa na resposta à tempestade de 10 de dezembro de 2025, que deixou milhões de consumidores sem energia na região metropolitana.
A companhia contestou a avaliação e pediu o arquivamento do processo. Em manifestação enviada à reguladora, afirmou que cerca de 80% do serviço foi restabelecido em até 24 horas após o evento climático.
A diretoria da Aneel voltará a analisar o mérito do caso em 24 de março. Se houver recomendação de caducidade, a decisão final caberá ao Ministério de Minas e Energia, responsável pelo poder concedente.
A Enel SP opera em 24 municípios da região metropolitana de São Paulo e atende entre 7,5 milhões e 8,5 milhões de unidades consumidoras, como casas, apartamentos, comércios e indústrias. O serviço alcança mais de 20 milhões de pessoas na região.
Histórico de embates
Alexandre Silveira e autoridades paulistas têm trocado críticas públicas desde os apagões registrados no estado. Em setembro de 2025, o ministro respondeu a declarações do governador Tarcísio de Freitas sobre a distribuidora e afirmou que críticas com “linguajar populista” não contribuem para uma solução técnica do problema.
Na ocasião, o governador havia defendido retirar a Enel do estado após falhas no atendimento a consumidores durante eventos climáticos.
Apesar das divergências, Silveira, Tarcísio e Ricardo Nunes chegaram a anunciar conjuntamente, em dezembro de 2025, a abertura de um processo para avaliar a caducidade da concessão da empresa após um apagão que afetou mais de 4 milhões de imóveis na região metropolitana.









