Ilha Dawson mostra "as hierarquias que permeiam a América”
Livro de José Godoy reconstrói a história de violência e repressão na ilha chilena, marcada pelo genocídio indígena e pela ditadura de Pinochet

Livro a Ilha do Silêncio - Reprodução
“Exemplo prático das hierarquias raciais e étnicas que permeiam a história colonial do nosso continente, nas quais o branco de matriz europeia é visto como mais humano do que os demais.”
Assim o escritor José Godoy descreve a Ilha Dawson em seu mais recente livro, “A Ilha do Silêncio: terror e genocídio na Terra do Fogo”, lançado pela editora Fósforo em maio deste ano.
O livro reconstrói a história da ilha, no extremo sul do Chile, marcada por dois períodos de violência separados por décadas, mas conectados pela lógica da exclusão e da repressão.
A obra mostra o genocídio dos povos originários selk’nam no fim do século 19 e a transformação da ilha em um campo de concentração durante a ditadura de Augusto Pinochet, após o golpe militar de 1973.
Primeiro, a ilha abrigou a missão salesiana San Rafael, criada para concentrar indígenas retirados de seus territórios tradicionais durante o avanço da colonização europeia. O confinamento, as doenças e a destruição cultural contribuíram para o extermínio de comunidades inteiras.
Décadas depois, o mesmo território foi usado pela ditadura chilena como centro de detenção de presos políticos ligados ao governo do presidente Salvador Allende, criando uma espécie de campo de concentração.
Ao longo da narrativa, Godoy percorre documentos históricos, relatos de sobreviventes, arquivos e memórias coletivas para mostrar como Dawson se tornou símbolo das recorrências da violência na América Latina.
Em entrevista ao SBT News, José Godoy fala sobre os ecos políticos da ditadura chilena na atualidade, as semelhanças entre a repressão em Dawson e outros episódios de violência no continente, como a ditadura brasileira, além da importância da preservação de arquivos históricos e lugares de memória para evitar que tragédias semelhantes sejam apagadas ou repetidas.

Preservar a memória sobre o período ditatorial parece ser um ponto vital do enredo. Como o Estado e a sociedade chilena lidam com esse legado hoje?
José Godoy: Comparadas às políticas de memória no Brasil, eu diria que elas funcionam bem. Há museus, coletivos e uma série de “lugares de memória” institucionalizados pelo Estado chileno que deixam claro um processo de explicitação do que aconteceu no país durante o regime de exceção.
Quais são os principais ecos políticos da ditadura que ainda persistem no Chile atual?
José Godoy: Como boa parte da América Latina, o Chile é hoje um país polarizado, no qual o centro político foi esvaziado e substituído por candidatos associados a um extremismo ideológico tanto no campo da direita quanto no da esquerda.
O ápice desse processo foi o fracasso na tentativa de escrever uma nova Constituição em 2022 e 2023 — o país ainda vive sob as leis da época de Pinochet.
Indiscutivelmente, como aconteceu com Bolsonaro no Brasil e acontece com Javier Milei na Argentina, a recente eleição de Jose Antonio Kast, político profundamente associado à herança pinochetista, abre um novo capítulo nas tentativas de determinados grupos de reivindicar um passado positivo da ditadura.
Quais são as semelhanças e diferenças entre os episódios de violência que ocorreram na Ilha Dawson?
José Godoy: Tanto a missão salesiana no final do século 19 quanto o campo de concentração para presos políticos, em 1973, representam projetos de isolamento e exclusão dos dissidentes, daqueles que incomodavam determinada concepção de Estado.
Há, na missão, uma violência menos explícita e menos estruturada. Ali, o que se vê é um exemplo prático das hierarquias raciais e étnicas que permeiam a história colonial do nosso continente, nas quais o branco de matriz europeia é visto como mais humano do que os demais.
O campo é um dos grandes exemplos dos excessos cometidos em nome das disputas ideológicas no contexto da Guerra Fria. Sem dúvida, ali tudo foi feito para humilhar, ferir e matar aqueles que não concordavam com o regime, algo que se intensifica quando se pensa que, na Ilha Dawson, reproduziu-se com exatidão o modelo dos campos de concentração nazistas da Segunda Guerra Mundial.
A obra faz paralelos com a ditadura militar brasileira de 1964. Quais são as principais diferenças entre o nosso regime e o chileno?
José Godoy: Qualquer comparação precisa levar em conta a diferença de tamanho entre o Brasil e seus vizinhos. Claramente, houve um momento em que os generais brasileiros perderam o controle do que acontecia em suas instalações; diversos grupos dentro do próprio Estado passaram a agir segundo regras próprias, sem obedecer às cadeias hierárquicas.
O regime de exceção chileno, nesse aspecto, parece-me mais coeso. O país teve uma grande figura central, Pinochet, enquanto, no Brasil, houve alternância entre grupos de militares.
Há, no Chile, algo mais próximo de um processo organizado e sistemático para eliminar os opositores. A consequência aparece na escala de mortos e desaparecidos. Por mais que esses números variem, estamos falando, segundo os dados oficiais, de 3.225 pessoas no Chile e 434 no Brasil, sem contar, é claro, aqueles que sobreviveram e vivem com sequelas por toda a vida.
O livro mostra que você encontrou dificuldades para acessar informações e lugares importantes durante a pesquisa, mesmo tentando vias diplomáticas. Na sua visão, os países da América do Sul deveriam estreitar essa cooperação e facilitar o acesso a esses arquivos históricos? Se sim, de que forma?
José Godoy: Sim, sem dúvida. O acesso a arquivos históricos e lugares de memória é um capítulo fundamental para manter nossas sociedades informadas, além de representar um traço distintivo de democracias saudáveis.
Seria fundamental uma ação mais estruturada para ampliar a circulação de pesquisadores nacionais e internacionais pelos nossos arquivos, assim como expandir o acesso aos arquivos estadunidenses e europeus.
Vivemos um período complicado nesse sentido, com a chegada ao poder de líderes sem nenhum compromisso com a memória da nação. O que, pensando bem, faz todo sentido. Nada melhor para um político populista do que um povo sem memória.















