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‘O futebol brasileiro se brutalizou, como a própria vida’, diz escritor

Escritor Fabio Luis lança livro “Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol”, que analisa o esporte sob uma perspectiva social

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Camiseta seleção brasileira - Reprodução

O futebol pode ser considerado mais que um esporte, sendo um termômetro da sociedade e uma crônica do tempo em que vivemos.

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Com essa ideia, o escritor Fabio Luis analisa com atenção o esporte mais popular do país e a forma como ele se infiltra no cotidiano e na vida dos brasileiros em seu mais recente livro, “Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol”, que será lançado em maio pela editora Elefante.

“O futebol se brutalizou, como a própria vida. As deficiências técnicas do futebol jogado no Brasil comprometem o prazer de assistir ao esporte, mas o aproximam da realidade da vida. Cada vez mais, o futebol brasileiro se realiza como correria, em que todo mundo está na luta.”

O SBT News teve acesso antecipado ao livro e conversou com o escritor. Ele exemplificou o sentimento vivido por parte dos brasileiros em relação ao futebol, sobretudo à Copa do Mundo, que acontecerá em breve. O distanciamento de parte da sociedade em relação ao futebol passa pelo capitalismo, que fez crescer as cifras envolvidas no esporte. Em relação à Copa do Mundo, o cenário é um pouco diferente.

Ainda assim, o clima de confraternização pode se sobrepor ao fato de muitos jogadores serem desconhecidos por grande parte do público e ao uso político da camisa da seleção brasileira. “O futebol não é política, mas tem sua caixinha de surpresa”, afirma.

Fabio é escritor e professor da Unifesp e da USP (Universidade de São Paulo), além de organizador de uma série de livros sobre países da América Latina.

Leia mais:

Livro Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol
Livro Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol

O futebol pode ser considerado um indicador das próprias condições de vida civilizada. Levando em conta o futebol hoje, quais condições ele expressa?

Fabio Luis: O futebol se brutalizou, como a própria vida. As deficiências técnicas do futebol jogado no Brasil comprometem o prazer de assistir ao esporte, mas o aproximam da realidade da vida. Cada vez mais, o futebol brasileiro se caracteriza pela correria, em que todos estão em constante disputa.

Como na vida, o jogo é cada vez mais brigado e menos lúdico. Esse é um sintoma de um mundo com menos espaço para o humor. Um drible aleatório passa a ser visto como provocação, que exige resposta imediata. Só se pode driblar em direção ao gol, como se apenas fosse permitido o sexo para procriar. Em que momento o drible, que concentra a beleza do jogo, virou pecado?

O futebol jogado no Brasil apresenta cada vez menos tempo de bola rolando e menos gols. Como consequência, a atenção se desloca para disputas violentas, confusões, arbitragem e bolas paradas. Ou seja, para tudo o que acontece quando a bola não está em jogo ou para os motivos que a fizeram parar. É como se a paixão pelo jogo estivesse mais nos conflitos e menos na beleza.

O livro faz menção à relação entre o futebol e o capitalismo. No mundo atual, o neoliberalismo pode explicar o futebol (ou vice-versa)?

Fabio Luis: Enquanto a austeridade neoliberal impedia gastos, a racionalização nos gramados reduziu os espaços para dribles, tabelas e finalizações. À medida que a chamada gestão eficiente enxugava o Estado, o jogo também se tornava mais compacto, exigindo movimentação constante dos jogadores e inibindo jogadas sem utilidade imediata, como o drible.

Dentro da lógica da responsabilidade fiscal, o jogador deve ser responsável com a bola e evitar excessos de habilidade. Essas mudanças impactaram também a forma como os torcedores enxergam o jogo, passando a valorizar eficiência — o chamado “futebol de resultados”, expressão que revela a influência do vocabulário corporativo no esporte.

Essa lógica busca eliminar tudo o que foge ao objetivo principal, que deixa de ser jogar bem para ser apenas vencer. Como no futebol, assim como na vida, destruir é mais fácil do que construir, muitas equipes jogam apenas para não sofrer gols.

A dificuldade de criação foi agravada pelo uso das faltas como estratégia, deixando de ser algo ocasional para se tornar um recurso tático. Como o futebol é o único esporte coletivo que não exige o ataque constante, o jogo defensivo se consolidou. O resultado é um futebol menos atrativo e com menos gols. Como dizia Eduardo Galeano, o gol é o orgasmo do futebol. Nesse sentido, o neoliberalismo teria “deserotizado” o esporte.

Paulo Pinto/Agência Brasil
Paulo Pinto/Agência Brasil

A população brasileira está menos animada para a Copa do Mundo? Se sim, por quê?

Fabio Luis A população brasileira está mais cautelosa. Ainda assim, como o futebol é imprevisível, a decepção em Copas nunca pode ser totalmente antecipada.

Nessa incerteza está a esperança de que, desta vez, seja diferente — mesmo que isso pareça cada vez menos provável. Entre o que é provável e o que se deseja, o futebol ainda produz encantamento, especialmente na Copa do Mundo, embora em menor intensidade do que no passado.

As derrotas recentes e a lembrança do 7 a 1 fizeram com que os brasileiros criassem mecanismos de defesa contra a frustração.

O marketing corporativo também percebeu esse recuo. A grande mobilização publicitária em torno da Copa, antes associada à celebração da identidade nacional, perdeu força. A menos de dois meses do torneio, em pontos de ônibus de São Paulo, há mais campanhas associadas à Champions League ou à cantora Ivete Sangalo do que à Copa e à Seleção.

A qualidade do futebol da seleção brasileira caiu?

Fabio Luis Mais do que uma queda de qualidade, o futebol brasileiro como estilo próprio está deixando de existir. O impacto da globalização ficou evidente no fim do século XX, com a flexibilização das regras para contratação de jogadores na Europa, o aumento das cifras e a concentração de recursos em poucos clubes europeus.

No Brasil, os clubes passaram a funcionar como vitrines para o mercado internacional. Em vez de negociar jogadores para formar equipes, passaram a formar equipes para negociar jogadores.

Os times se tornaram mais instáveis. Quando uma equipe se destaca, seus principais jogadores são vendidos e o elenco é desfeito. Isso gera dois efeitos: a saída precoce dos melhores atletas e a dificuldade de formar times entrosados, com vínculos construídos ao longo do tempo, como ocorreu com o Flamengo de Júnior, Andrade e Zico nos anos 1980.

A saída constante de talentos e a impossibilidade de manter equipes estruturadas colocaram em crise o futebol brasileiro como identidade própria. A lógica imediatista dificulta a construção de um estilo, enquanto a exportação precoce faz com que os jogadores sejam formados segundo padrões europeus. Em outras palavras, não é apenas o futebol europeu que se globalizou, mas o futebol mundial que se europeizou.

Como você enxerga o uso da camisa da seleção brasileira em relação à apropriação pelo bolsonarismo? Isso ainda tem o mesmo peso das eleições de 2018 e 2022?

Fabio Luis A tendência é que não tenha o mesmo peso, por dois motivos. Primeiro, porque a Copa de 2022 ocorreu após quatro anos de governo Bolsonaro, período que aprofundou a divisão política no país.

Além disso, o torneio foi disputado no fim do ano, logo após uma eleição acirrada, e o principal jogador da Seleção, Neymar, havia declarado apoio ao candidato derrotado.

Isso não significa que a política ficará fora do futebol. Em um amistoso recente contra a Croácia, na Flórida, torcedores brasileiros entoaram o nome de Neymar durante a partida. Mesmo com o bom desempenho da equipe, a manifestação chamou atenção.

Há interpretações de que esses torcedores estavam distantes da realidade do país, mas, na visão do escritor, eles tinham plena consciência do contexto. A Flórida, segundo ele, se tornou um espaço simbólico para a direita latino-americana — local onde o ex-presidente Jair Bolsonaro permaneceu após os eventos de 8 de janeiro.

Nesse cenário, a convocação de um jogador como Neymar ultrapassa critérios esportivos e envolve expectativas políticas e simbólicas. O futebol não é política, mas também tem suas caixinhas de surpresa.

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