‘Todo artista tem de ir aonde o povo negro está’, afirma Cidinha da Silva sobre mercado literário
Escritora lança “Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros”, livro sobre tensões no mercado editorial

Murillo Otavio
“Sigo a máxima de Milton Nascimento: ‘Todo artista tem de ir aonde o povo está’. Aonde o povo negro está.”
Com essa ideia, a escritora Cidinha da Silva explica como pensa a circulação de seu mais novo livro, “Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros”, publicado pela editora Relicários Edições.
Nele, a autora discute as tensões que envolvem mulheres negras no mercado editorial e a forma como essas obras são consumidas por diferentes públicos.
A obra reúne 16 ensaios escritos com linguagem simples e ideias bem estruturadas e se organiza em três eixos: “Casulo”, “Lagarta” e “Borboleta”. O “casulo” trata das limitações impostas à liberdade criativa, com escritoras negras sendo enquadradas em determinados temas.
A “lagarta” aborda a cobrança constante para que expliquem e justifiquem seus conteúdos, deixando em segundo plano aspectos como linguagem e forma.
Já a “borboleta” representa a mudança de escritoras negras em relação à indignação no enfrentamento político e estético.
O SBT News teve acesso antecipado ao livro e conversou com Cidinha. Ela afirmou que busca evidenciar tanto os mecanismos sutis quanto os explícitos do racismo, além de apontar estratégias para enfrentá-los e caminhos para aproximar o mercado literário de leitores negros e periféricos.

SBT News: A estrutura de "Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros" organiza-se a partir de três eixos simbólicos. Como o racismo perpassa esses eixos e de que forma ele se manifesta em cada um deles?
Cidinha da Silva: O racismo opera de maneira sistêmica, por isso se diz que ele é estrutural. Na teia racista no campo da produção literária e editorial, há fios emaranhados que impedem o desejo das escritoras negras de criarem em liberdade, dedicando-se à fruição, ao encantamento e à crítica capazes de construir e alimentar novos imaginários.
Fios que querem nos circunscrever num eterno lugar de educadoras, de responsáveis pelos letramentos de quem sempre lucrou com a opressão racial (conscientemente ou não) e se acostumou aos privilégios gerados pela subalternização histórica das pessoas negras.
Outros fios tecem as armadilhas que forçam as escritoras negras a descrever, detalhar e justificar o que escrevem, ofuscando à discussão de como escrevem, quais são suas técnicas, por quais águas navegam e de águas se nutrem, aonde querem chegar.
Leia mais:
SBT News: A dificuldade de acesso à literatura pela população negra, especialmente a periférica, contribui para que as obras de autoras negras acabem sendo majoritariamente consumidas por um público branco? Como equilibrar essa balança?
Cidinha da Silva: Não sei se as obras das escritoras negras são majoritariamente consumidas por um público branco, não é o que vejo nos meus lançamentos, cujo público maior é de mulheres negras. Em outras atividades como palestras, oficinas e curso, atinjo um público branco que já se interessa pelo meu trabalho ou passa a se interessar a partir dali.
Contudo, as pessoas que saem de casa para me ver nos lançamentos de livros costumam ser negras, em maioria; as que chegam ao meu trabalho via temas que abordo em feiras e festas literárias, costumam ser brancas, majoritariamente e, quando levo meus livros para venda, elas consomem bastante, o mesmo não acontece quando as livrarias do evento são responsáveis pela venda dos livros.
Nestas situações percebo que dou um número bem menor de autógrafos. Isso me leva a concluir que muita gente compra meus livros motivada pela minha presença, pela força da minha palavra vocalizada, pela magia que faço ao falar e, pode ser que a partir daí se tornem minhas leitoras e passem a comprar meus livros em outras oportunidades.
É certo que o público negro e das periferias não está nos espaços convencionais do mercado editorial, nem mesmo quando as feiras e festas literárias (no caso das pessoas negras) acontecem nos bairros marginalizados.
Um exemplo elucidativo é a FELIZS que acontece há anos na região do Campo Limpo, em São Paulo; encontramos ali mais 80% de frequentadores que moram naquela região da cidade e que se movimentam de outras periferias também, mas não consigo enxergar mais do que 20% de pessoas negras. Como fazer para enfrentar isso?
No meu caso, sigo a máxima de Milton Nascimento: “todo o artista tem de ir aonde o povo está”, neste caso, aonde o povo negro está, assim, sempre que consigo condições adequadas de trabalho vou a terreiros de candomblé e umbanda, blocos carnavalescos, grupos de capoeira, clubes de leitura voltados a temáticas raciais e de africanidades para lançar meus livros.
Esta é minha busca ativa de público negro, resguardando sempre as condições básicas de trabalho, não faço isso por militância, não pago para trabalhar. Faço como parte do projeto político de divulgação do meu trabalho.
SBT News: De que maneira podemos estimular a população negra, sobretudo as mulheres, a estreitar os laços com a leitura e aprofundar o debate sobre as questões de raça por meio dos livros?
Cidinha da Silva: De minha parte, como escritora, cuido de produzir bons textos e de apresentá-los em formato instigante, bonito, agradável ao olhar, ao tempo em que a linguagem é simples, acessível, mas abriga ideias sofisticadas. Trata-se de uma forma de respeito ao leitor, escolher uma linguagem simples para dar a conhecer ideias sofisticadas.
Do ponto de vista do mercado editorial e livreiro, há que promover, de fato, a bibliodiversidade, proporcionar espaço para que vozes diversas se exprimam e possam alcançar distintos interesses dos leitores também.
Do ponto de vista das políticas públicas na área do livro, literatura, leitura e bibliotecas, há que fortalecer as políticas de mediação de leitura comprometidas com a escuta das demandas e necessidades do público leitor; fomentar as bibliotecas comunitárias. É preciso também consultar especialistas do livro, leitura, literatura e bibliotecas para formular as políticas públicas do setor e para monitorar sua implementação, fazendo as revisões necessárias.
SBT news: Quais caminhos você enxerga como fundamentais para tornar o mercado editorial mais equânime e acolhedor para a produção de mulheres negras?
Cidinha da Silva: Vou listar algumas coisas:
- Desconstruir a ideia reinante de escritoras negras como bloco monolítico que supostamente fala das mesmas coisas e o faz do mesmo jeito;
- Ler o trabalho das escritoras negras antes de entrevistá-las, impedindo assim a reiteração de perguntas-clichê que entrevistadores costumam achar que se aplicam a qualquer mulher negra;
- Situar a participação da autora negra no/s gênero/s literário/s no qual/nos quais ela produz;
- Promover ações afirmativas nos concursos literários e na política de publicação das casas editoriais;
- Convidar autoras negras para eventos literários pela relevância do seu trabalho, o que significa ter um número maior de escritoras negras do que as cotas informalmente adotadas para parecer que há escritoras negras no evento.
Serviço:
“QUANDO BORBOLETAS FURIOSAS SE TORNAM MULHERES NEGRAS: NÓS E OS LIVROS”
- • Livro de Cidinha da Silva
- • Editora Relicário
- • 144 págs.









